Masala Bollywood: um bate papo sobre o cinema comercial da Índia, dicas de filmes e séries

Crédito: Flickr.

A Índia é o maior produtor de filmes do mundo e Bollywood é apenas uma – e a mais famosa – das indústrias cinematográficas do país. Os filmes de Bollywood são em Hindi, a língua mais falada na Índia: 40% da população, especialmente na região Norte.

A entrevista “Bollywood, a fábrica dos sonhos dos indianos” ocorreu durante uma live no Instagram da página da Govinda Turismo,  de Curitiba, no sábado 11 de julho, às 11h. Rebeca Angelica Wing Chong, dona da agência, entrevistou Florência Costa, editora do Beco da Índia e autora do livro “Os Indianos” (2012 – Editora Contexto).

As duas com experiência pessoais e profissionais naquele país, trocaram impressões e conversaram sobre o cinema comercial da Índia. Casada com o indiano Mohan Verma, Rebeca organiza com ele viagens históricas e culturais para a Índia, incluindo o foco nas viagens mais voltadas para a espiritualidade. O casal abriu a agência Govinda Turismo em 2010.

É importante saber que a Índia tem várias línguas porque isso define as suas indústrias cinematográficas, disse a jornalista. “Se Bollywood fala Hindi, Tollywood, por exemplo, fala a língua Telugu: trata-se da indústria de cinema do estado de Andra Pradesh. Há inúmeras outras indústrias como essas”, afirmou.

Bollywood chama-se Bollywood porque está situada na antiga cidade de Bombaim (em inglês, Bombay), destacou. Bombaim já pertenceu aos portugueses no século 16 e foi cedida aos britânicos como dote de casamento de uma princesa portuguesa com um nobre inglês.

A origem da palavra Bombaim é a expressão “Boa Baía”, uma referência à calmaria do Mar das Arábias que banha Mumbai. A “Boa Baía” virou Bombaim. A cidade – hoje a capital financeira da Índia – foi rebatizada com o nome Mumbai (referência a uma deusa local) nos anos 90.

Os estúdios de Bollywood, um imenso complexo, ficam no norte de Mumbai.  Além do Hindi, os filmes desta indústria têm o que se chama comumente na Índia de “Hinglish”, ou seja, a mistura do Hindi com o Inglês.

Um aspecto do nome Bollywood é pejorativo, e alguns não gostam que usemos essa palavra“, lembrou a jornalista. Isso se deve ao fato de que Bollywood copia muitos filmes de Hollywood. Mas por outro lado, ela destacou que pelo menos os indianos não engolem todos os produtos de Hollywood em estado puro, como ocorre em outros países. “Os indianos fazem a sua releitura, com suas roupas, suas línguas, seus hábitos”, disse.

Um detalhe que costuma intrigar quem não está acostumado com o cinema comercial indiano é a mistura de estilos em uma mesma obra: são os chamados filmes masalas, nos quais drama, comédia, suspense e musical estão presentes. Isso também tem uma origem. Os textos da Índia Antiga que falavam sobre as artes, como o Natyashastra, referiam-se às artes como coligadas, todas irmas: música, teatro, dança, escultura, pintura e etc.

Uma experiência completa de cinema para o indiano é aquela expriência variada, em que ele vivencia de tudo um pouco”, disse. “Por isso Hollywood nunca conseguiu fazer tanto sucesso na Índia como fez em outros países“, concluiu Costa.

O cinema, criado no fim do século 19 pelos irmãos Lumière, desembarcou em Mumbai imediatamente e foi abraçado com carinho pelos indianos, lembrou a editora do Be co da Índia. O primeiro filme indiano foi o “Raja Harishchandra”, lançado pelo diretor Dadasaheb Phalke em 1913. O filme baseava-se em uma lenda mitológica indiana de um rei que não conseguia mentir e teve muitos problemas em razão disso.

O cinema indiano é a demonstração de como a mitologia local permeia a cultura até hoje, com destaque para os épicos milenares “Mahabhárata” e “Ramayana”. A Índia, assim como a China, são civilizações milenares, foram potências econômicas da antiguidade e isso faz toda a diferença.

Pintura inspirada em poster de Bollywood. Crédito: Flickr.

Sobre premiações de filmes de Bollywood, Costa ressaltou que apenas três foram indicados como melhor filme estrangeiro, mas não levaram a estatueta: “Mother India (1957), “Salaam Bombay (1988) e “Lagaan (2001). Este último foi estrelado por Aamir Khan, um das melhores cabeças de Bollywood: ator, diretor e produtor, que privilegia temáticas progressistas e questionadoras. Um de seus últimos sucessos foi “Dangal”, história de um lutador que não teve filhos homens, mas sim duas filhas. Ele as treinou e elas viraram campeãs, desafiando a tradição.

O filme “Dangal” foi um sucesso estrondoso na China, por exemplo, demonstrando que o cinema ultrapassa rivalidades geopolíticas (Índia e China tem uma histórica disputa de fronteiras). “O que toca o coração fala mais alto. A emoção fala mais alto do que o intelecto que está brigando e discutindo”, observou Wing Chong.

O primeiro superstar indiano, nos anos 50, foi Raj Kapoor, avô da atriz Kareena Kapoor, uma estrela dos dias atuais. Eram anos de esperança, após o fim da colonização. Os indianos mantêm o espírito nacionalista, reflexo de sua luta anti-colonial, são muito apegados à sua cultura. Wing Chong observou que seu marido Mohan, mesmo vivendo há vários anos no Brasil, consome a cultura indiana: músicas, filmes e etc.

Raj Kapoor foi um astro em outros países nos anos 50: na Europa do Leste, Oriente Médio, África. Em uma visita à antiga União Soviética, Raj e a atriz indiana Nargis (estrela do “Mother India”) eram parados nas ruas, idolatrados pelos russos.

Houve uma legião de crianças russas batizadas com seus nomes. “Não existe só a indústria dos sonhos de Hollywood. Bollywood também alimenta os sonhos do outro lado do mundo. Eu pude perceber isso nas minhas viagens de cobertura jornalística nos países próximos da Índia, como Paquistão, Afeganistão, Irã, e Nepal”, afirmou Costa.

Um nome de Bollywood que conseguiu fazer carreira em Hollywood foi Irrfan Khan, o ator que morreu recentemente. Ele participou de vários sucessos de Hollywood, como “O Mundo dos Dinossauros” e “Homem Aranha”. Wing Chong lembrou de um filme dele que gostou muito: a “Vida de Pi”. Outro filme inesquecível é “The Lunchbox” (A lancheira do amor).

Wing Chong perguntou se até hoje Bollywood pode ser identificado apenas por aqueles famosos filmes de drama água com açúcar.  Nas palavras de Costa: “Bollywood modernizou-se, há de tudo um pouco. Há muitas produções voltadas para a nova classe média urbana, para os jovens“.

Sobre as conexões de Bollywood com o Brasil, a jornalista lembrou do único filme de Bollywood filmado em solo brasileiro: “Dhoom 2” (2006), com os astros Ashwarya Ray e Hritrik Roshan. Os dois atores formaram um dos maiores pares românticos das telas indianas: o filme “Jodhaa e Akbar revelou uma bela química entre os dois. Ray, ex-miss Mundo, fez o papel de uma princessa hindu e Roshan encarnou o imperador muçulmano Akbar, o Grande.

Outra conexão é “Beedi Jalaile” (“Acenda o meu cigarro”), a música de abertura da novela “Caminho das Índias”, transmitida pela TV Globo em 2009. Essa música era do filme “Omkara”, uma interpretação de um famoso diretor indiano de “Othelo”, de Willian Shakespeare. “Essa música foi um sucesso imenso na Índia. Tocava em todos os nightclubs e festas”, disse Costa. Muitas vezes, as músicas fazem mais sucesso do que os filmes. Wing Chong lembrou que os indianos assistem um filme que gostam muito várias vezes. “Meu sogro assiste dez vezes o mesmo filme e decora os diálogos. Achei isso tão interessante”, disse ela.

O amor proibido em Bollywood é um tema recorrente e muito importante nas tramas, refletindo as diferenças de castas e religião na sociedade indiana e como isso se torna empecilho para uniões amorosas. Como dicas de filmes para assistir em plataformas como Netflix, foram citadas na conversa os seguintes filmes: “2 States”, “Lust Stories”, “Umrika”, “Dhobi Ghat”, “The Violin Player”, “Dirty Picture”, “Qarib Qarib Single”, “Queen”, “Thithi”, “Radiopetti”, “Pad Man”, “Toilet”, “PK” e “Bombay Talkies”, entre outros. Sobre séries indianas interessantes, foram citadas “Made in Heaven” (Felizes para Sempre), disponível na plataforma Amazon Prime Video; “Little Things” (Coisas da Vida), disponível no Netflix; e “Sacred Games” (Jogos Sagrados), no Netflix.

Fonte: Texto originalmente publicado no Beco da Índia.
Link direto: http://becodaindia.com/masala-bollywood-um-bate-papo-sobre-o-cinema-comercial-da-india-dicas-de-filmes-e-series/

Assista a live na íntegra no link abaixo

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