O centenário de Sergei Bondartchuk, aclamado diretor do cinema soviético

O cineasta Serguei Bondartchuk. Crédito: https://www.ruspeach.com/

Por ocasião do centenário de nascimento do cineasta Serguei Bondartchuk, o Mosfilm, maior estúdio cinematográfico da Europa, restaurou o épico “Guerra e Paz”, que ele adaptou, estrelou e dirigiu nos anos 60. Homenagem mais do que merecida. “Guerra e Paz” é um filme que se tornou mítico pela sua fascinante grandiosidade e Bondartchuk foi um dos maiores do cinema soviético, cuja história é povoada de gigantes. Foi craque como ator, diretor, roteirista, produtor, idealizador de projetos e políticas de valorização do cinema. Era ousado, porém prudente, como nenhum outro.

Recompor a sua trajetória é como escalar um monte, estendendo paulatinamente a linha do horizonte, para ampliar a percepção e a compreensão dos fatos que ela abrange. Serguei Fiodorovitch Bondartchuk nasceu em 25 de setembro de 1920, na vila de Belozerka, Ucrânia. Passou a infância em Yeysk e Taganrog, cidades banhadas pelo mar de Azov, no Sul da Rússia, província de Rostov-do-Don, a “terra dos cossacos” imortalizada pelo vizinho Mikhail Sholokhov em seu romance “O Don Silencioso”.

Aos 17 anos estreou no palco do Teatro Dramático de Tchekhov, em Taganrog. Depois foi morar na capital da província e cursou a Escola Teatral de Rostov-do-Don. Em 1942, seus estudos foram interrompidos pela invasão nazista. Ingressou no Exército Vermelho e serviu por quatro anos, até ser dispensado com honras em 1946.

De 1946 a 1948, participou do Instituto Estatal de Cinematografia de Moscou (VGIK), graduando-se como ator da classe de Serguei Gerasimov. Em 1948, estreou no cinema em “A História de um Homem de Verdade” (Aleksandr Stolper), trabalhou em “Michurin” (Aleksandr Dovzhenko) e defendeu com brio o papel de Camarada Valko no clássico “A Jovem Guarda”, adaptação do romance de Aleksandr Fadeev realizada por Gerasimov, seu orientador no VGIK.

Em 1951, estrelou “O Cavaleiro da Estrela de Ouro”, de Iuly Raizman. No mesmo ano, por sua interpretação do personagem-título, o poeta ucraniano “Taras Shevchenko”, recebeu o Prêmio Stalin e foi designado Artista do Povo da URSS, tornando-se o ator mais jovem a receber essa honraria. Em 1953, atuou em “Almirante Ushakov” e “O Ataque do Mar”, ambos dirigidos por Mikhail Romm. Fez um brilhante “Otelo, O Mouro de Veneza” (Serguei Iutkevich, 1956), ao lado de Irina Skobtseva, sua futura esposa, no papel de Desdemona. A adaptação do clássico de Shakespeare deu a Iutchkevich o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes (1956).

Bondartchuk prosseguiu trabalhando com diretores consagrados como Leonid Lukov, Friedrich Ermler, Leonid Trauberg e estreantes como Samson Samsonov. Em 1959, sua carreira passou a um novo patamar com o tocante “O Destino de um Homem”, filme que estrelou e ao mesmo tempo dirigiu. O drama de guerra baseado no conto de Mikhail Sholokhov rendeu a Bondartchuk o primeiro Prêmio Lenin e deixou o escritor mais perto do Nobel de Literatura, recebido em 1965 – a propósito do Nobel, a Academia Sueca que o concedeu destacou: “pelo poder artístico e integridade com a qual em seu épico Don ele deu expressão a uma fase histórica do povo russo”.

A Bondartchuk, a fama internacional veio com a direção e a interpretação do papel de Pierre Bezukhov em “Guerra e Paz”, uma poderosa adaptação da obra-prima homônima de Liev Tolstoi. O épico de sete horas e 11 minutos de duração, dividido em quatro episódios, ganhou o Oscar (1968) e o Globo de Ouro (1969) de melhor filme em língua estrangeira.

Possivelmente o projeto mais caro da história do cinema, “Guerra e Paz” foi produzido em sete anos, de 1961 a 1967, a um custo cujas estimativas variam de 200 a 900 milhões de dólares, em valores corrigidos. O filme estabeleceu vários recordes, como envolver nas filmagens mais de 300 atores de diferentes países e um número de figurantes que atingiu os seis dígitos. No terceiro episódio, de duas horas, a histórica Batalha de Borodino, filmada no mesmo campo onde ocorreu, é a maior cena já realizada em todos os tempos, envolvendo 100 mil extras do Exército Vermelho, 12 mil figurantes pagos, 200 canhões e 100 mil fuzis. Bondartchuk também fez história ao introduzir várias câmeras com controle remoto que se moviam em fios de 300 metros de comprimento acima do campo de batalha.

Conta a lenda que em agosto de 1959 entrou em cartaz na União Soviética o filme “Guerra e Paz”, dirigido pelo hollywoodiano King Vidor, produção de Carlo Ponti e Dino De Laurentiis, distribuição da Paramount Pictures, com Henry Fonda, Audrey Hepburn, Mel Ferrer, Vitorio Gassman. E, para ninguém botar defeito, trilha sonora de Nino Rota, a arma secreta de Federico Fellini.

A película atraiu 31,4 milhões de espectadores se constituindo num grande sucesso. Pouco tempo depois, uma carta aberta, assinada por diversos cineastas do país, foi enviada à imprensa, afirmando que “é uma questão de honra para a indústria cinematográfica soviética produzir um filme que ultrapassará o ítalo-americano em mérito artístico e autenticidade”.

O resultado foi, de fato, como assinalou o crítico e historiador norte-americano Leonard Maltin, um “filme deslumbrante”, impulsionado por centenas de milhões de entusiasmados espectadores ao redor do mundo. Bondartchuk, cuja experiência internacional até “Guerra e Paz” limitava-se à participação como ator em “Era Notte a Roma” (Roberto Rossellini, 1960), foi convidado por Dino de Laurentiis para dirigir a megaprodução “Waterloo” (1969), com um elenco estelar de quatro países, encabeçado por Rod Steiger, Christopher Plummer e Orson Welles. A parceria que emergiu desta iniciativa entre a Laurentiis Cinematografica e o estúdio soviético Mosfilm logo se estendeu a outras obras, como “Sol Branco no Deserto” (Vladimir Motyl, 1970) e a série documental “Libertação”, dirigida por Iuri Ozerov (1970-71) em cinco episódios que relatam o desenvolvimento da guerra, desde a vitória em Stalingrado à queda de Berlim – a série teve o efeito extra de dissolver a obtusa censura que vigorava desde o final dos anos 50 à presença de Iósif Stalin nas telas.

Antes, porém, ainda em 1969, Bondartchuk contracenou com Yul Brynner, Franco Nero, Orson Welles e Sylva Koscina no épico “A Batalha do Neretva”. Dirigida por Veljko Bulajic, autor das quatro películas mais assistidas na Iugoslávia em todos os tempos, a obra ganhou pôster de Pablo Picasso e recebeu indicação para o Oscar de melhor filme em língua estrangeira, em 1970 – perdeu por 70 votos para “Z” de Costa-Gavras.

Com uma carreira nacional e internacional de ator e diretor em vigorosa ascensão, Bondartchuk assumiu em 1971 a direção da União dos Cineastas Soviéticos, tornando-se um dos personagens mais influentes da URSS, quando o assunto era cinema. Em 1974 foi nomeado professor do VGIK. Foi dirigido por Andrei Kontchalovski, no papel de Astrov, em “Tio Vânia” (1971), de Anton Tchekhov. Em 1975, dirigiu e atuou em “Eles Lutaram Pela Pátria”, baseado no romance de Sholokhov que reconstitui os três dias da retirada de um regimento acossado pelos alemães em direção a Stalingrado. O filme ganhou o Prêmio Especial do Festival de Karlov Vary. Atuou também em “A Escolha do Objetivo” (1975) e na adaptação do conto de Liev Tolstoi, “Padre Sérgio” (1978), ambos dirigidos por Igor Talankin.

Na frente externa, em 1976, estrelou ao lado de Geraldine Chaplin outro épico iugoslavo, “Zelengore” (Zdravko Velimirovic). No ano seguinte voltou a Tchekhov, que como ele vivera a infância em Taganrog, para dirigir e atuar em “A Estepe” – uma imagem da planície russa e seus habitantes típicos, vista por um garoto durante a viagem entre a casa materna e o colégio onde irá estudar. Quantas vezes ele próprio havia percorrido aqueles caminhos? Tchekhov (1860-1904) e Sholokhov (1905-1984) falavam de coisas que Bondartchuk conhecera, vivências que compartilharam na singular condição de terem habitado a mesma região ou, lato sensu, a mesma aldeia.

Em 1982, criou uma cinebiografia do jornalista, poeta e revolucionário norte-americano John Reed, a partir dos relatos de dois de seus livros, “México Insurgente” e “Os 10 Dias que Abalaram o Mundo”, com Franco Nero, Ursula Andress e a atriz mexicana Blanca Guerra, em uma produção internacional que envolveu o Mosfilm (União Soviética), Conacite Dos (México), Cinefin (Espanha) e a Radiotelevisione Italiana. Em 1986, a perestroika de Mikhail Gorbatchov, iniciada no ano anterior, afastou Bondartchuk da direção da União dos Cineastas. Suas convicções deixavam pouca margem para que ele visse mérito no processo de restauração capitalista estimulado pela liderança do PCUS.

Em 1985, realizou, ainda pelo Mosfilm, “Boris Godunov”, tragédia que Aleksandr Pushkin informou haver escrito “ao modo de Shakespeare” sobre os primeiros anos do período da história russa conhecido como “A Era das Perturbações” (1598-1613) – sob a batuta de uma potência externa, um impostor que se fazia passar pelo filho mais novo do czar Ivan IV assume o poder na Rússia. O filme foi lançado em maio de 1986, no Festival de Cannes, as autoridades “liberalizantes” não gostaram. A analogia com o estado de coisas na URSS era inevitável.

O governo fechou-lhe as portas. Bondartchuk mobilizou as relações internacionais que cultivara durante os anos de bonança e voltou às telas na plenitude dos 70 anos, contracenando com Claudia Cardinale, Hugo Tognazzi, Fernando Rey e Irene Papas em “A Batalha dos Três Reis” (1990), dirigida pelo marroquino Souheil Ben-Barka e o russo Uchkun Nazarov, produção internacional envolvendo quatro países, URSS/Itália/Espanha/Marrocos.

Atuou também em “Tempestade sobre a Rússia” (Aleksei Saltikov, 1991), baseado no romance “Príncipe Serebriani”, do conde vermelho Aleksei Tolstoi, e teve uma participação em “Mosqueteiros, 20 Anos Depois”, minissérie dirigida por Gueorgui Iungvald-Khilkevitch, em 1991, para a TV Central. Paralelamente conseguiu o que ninguém além dele acreditava que fosse possível. Levantou a produção de “O Don Silencioso”. A epopeia de Mikhail Sholokhov acerca dos cossacos do vale do rio Don sob o impacto de três acontecimentos que mudaram a face do mundo, a 1a. Guerra Mundial, a Revolução de 1917 e a Guerra Civil, foi publicada originalmente na revista soviética Oktyabr, a partir de 1928 – os três primeiros volumes foram escritos de 1925 a 1932, o quarto foi concluído em 1940. A obra é considerada pelo público e pela crítica um marco da literatura russa, não só do período socialista, mas de todos os tempos. Maksim Gorki comparava a sua relevância a de “Guerra e Paz”.

Na impossibilidade de ignorar um romance capaz de reunir homenagens que vão do prêmio Stalin (1941) ao Nobel (1965), as redes dos serviços de inteligência ocidentais torraram milhões de dólares em uma campanha bizarra para atribuir sua autoria a um certo Fiodor Kriukov, oficial do Exército Branco morto pelos bolcheviques durante a Guerra Civil. Nessa versão terraplanista, o feito de Sholokhov foi o de surrupiar-lhe os manuscritos, pois era “impossível a um jovem de 23 anos escrever de modo tão brilhante”. Aliás, tão impossível quanto a vacina russa contra o coronavírus não ser produto de espionagem.

Para Bondartchuk, o desafio de levar às telas como diretor, ator e, agora, produtor tamanha preciosidade era ainda maior se tomarmos em conta que, em 1957, seu mestre Serguei Gerasimov já havia cumprido a missão com notável sucesso, realizando um filme de 350 minutos, em duas partes, que ganhou os primeiros prêmios em Karlov Vary e no recém criado Festival de Toda a União – glória do cinema soviético, o nome de Gerasimov foi dado à escola de cinema mais antiga do mundo, o VGIK, quando ela se transformou em universidade, em 2008.

Associado a produtores da Itália e Reino Unido, Bondartchuk prometia mais. Trabalhou duro nas filmagens em 1992 e 1993. Caprichosos, os deuses enciumaram-se com tantos êxitos para um homem só, e o que poderia ter sido a retumbante volta por cima transformou-se em um desastre. O produtor italiano faliu e um banco tomou o filme como parte das garantias, encerrando-o em um cofre por mais de 10 anos. Bondartchuk morreu sem poder concluí-lo. A minissérie que seu filho Fiodor produziu em 2006, para o Canal 1, aproveitando cenas da filmagem original, é uma homenagem terna, mas é outra obra.

A vida frequentemente não é justa nesta pré-história que a humanidade ainda não logrou superar. Celebrar o talento e o espírito de luta de homens como Bondartchuk, contar a sua história, divulgar a sua obra, mirar-se no seu exemplo são formas de caminhar nessa direção.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Hora do Povo.
Link direto: https://horadopovo.com.br/o-centenario-de-bondarchuk/?fbclid=IwAR3hxGWf-1SrMZWMl_GjMk-ofvqg8Xo-Ny4cwjg4S4GKe9hVxYZeKpaASTc

Sérgio Rubens de A. Torres
Vice-presidente do Partido Comunista do Brasil (PC do B)

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