A resistência popular em “Era o Hotel Cambridge”

“Era o hotel Cambridge” (2016), de Eliane Caffé. Crédito: SPcine.

“Era o Hotel Cambridge” (2016), da Eliane Caffé apresenta uma sucessão de personagens humanos, profundamente humanos, que resistem contra a opressão do Estado e o descaso (acrescido do ódio dos últimos anos) da sociedade. Acompanhamos um grupo que invadiu um prédio abandonado do centro de São Paulo, o antigo Hotel Cambridge. A organização das pessoas por meio da conscientização política emociona.

Os relatos dos refugiados (uma das grandes forças do filme) revela o absurdo de um país que os aceita institucionalmente (nas palavras de um dos refugiados, “para fazer bonito na ONU”) para depois persegui-los e privá-los de direitos e oportunidades. Numa sequência pequena, mas muito impactante, o espectador consegue ler as “opiniões” carregadas de ódio, deixadas pela malta raivosa das redes sociais, no blog criado para mostrar o cotidiano das ocupações.

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É admirável o cuidado da diretora em não criar recursos narrativos (muitas vezes maniqueístas) para verbalizar a luta e a consciência dos ocupantes. Eles falam por si, expondo seus temores, preconceitos e esperanças. Outro feito do filme é a composição orgânica entre ficção e realidade, que atuam juntas para potencializar o vigor da história e de personagens tão carismáticos. E tem o José Dumont, com o seu “Apolo”, uma espécie de “Glauber” popular, de furiosa criatividade e ímpeto. É fato: José Dumont é foda!!!

O filme é um contraponto (assim como o filme “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queirós) ao cinema conservador do mainstream brasileiro, que aposta na sede vingadora da classe média, através dos seus filmes sobre policiais e juízes justiceiros. Filmes são retratos da vida, das posições políticas, sociais e culturais em disputa na sociedade. O trabalho de de Eliane Caffé está do lado daqueles que resistiram, e continuam resistindo. Nesse sentido, tem a força de um “Vinhas da Ira”, de John Ford. Quem não se lembra da matriarca, vagando com sua família pelo desolado meio-oeste estadunidense pós-depressão de 1929? Ela diz, mais ou menos assim: “Mesmo contra tudo, nós sobreviveremos. Somos mais fortes e resistentes que eles. Nós somos o povo”…

Fonte: texto originalmente publicado no site do O Beco do Cinema
Link direto: http://bit.ly/obecodocinema-eraohotelcambridge

 

Título: Era o Hotel Cambridge
País: Brasil
Direção: Eliane Caffé
Elenco: Carmen Silva (II), Isam Ahmad Issa, José Dumont
Duração: 1h39min
Lançamento: 17 de março 2017
Idioma: português
Legenda: inglês/espanhol

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