Um olho na Venezuela e outro na Amazônia

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro encontrou-se com o almirante da Marinha dos EUA Craig Faller para discutir a crescente parceria de cooperação de defesa entre o Brasil e os Estados Unidos. Crédito: https://www.miamiherald.com/

Em uma reunião do Comando Sul da 4º Frota dos Estados Unidos, ocorrida este ano, por meio de um vídeo divulgado nas redes sociais, ficou claro que os generais da Colômbia e Brasil são os ’’our guys’’ da Casa Branca. No entanto, como se não bastasse isso, Donald Trump reativou a adormecida política antidrogas do país com ênfase no Mar do Caribe, e sob justificativa de que Nicolás Maduro possui proximidade com o tráfico de drogas, mantém ali uma frota de bloqueio à Venezuela para garantir a efetividade das sanções aplicadas de maneira unilateral ao país.

Por motivos óbvios, o petróleo, cuja reserva detida pela Venezuela hoje é equivalente as existentes no Oriente Médio e o Pré-sal no Brasil, é uma das motivações para a agressiva política do país norte americano contra o país caribenho. A isso se soma outras riquezas naturais nacionalizadas pelo Estado venezuelano, e que serão muito importantes para as próximas décadas em virtude das disputas por recursos naturais. Um debate em que deve ser incluído um elemento angular, porém pouco citado na discussão da guerra híbrida contra a Venezuela: a Amazônia.

Não é segredo para ninguém a política do laissez faire, laissez passer (Deixai fazer, deixai passar) do presidente brasileiro Jair Bolsonaro para com a Amazônia. Algo que é uma das pontas de lança críticas por boa parte do mundo contra seu governo em relação à questão ambiental- note-se que muitas vezes não em relação ao tratamento com os povos nativos da floresta-, e que traz uma série de debates sobre a importância da Amazônia para o mundo.

Porém, desde o período eleitoral, o presidente deixou claro que a região seria uma prioridade, cujo projeto baseado em uma espécie de ’’marcha para oeste’’, e submetido aos interesses de uma aliança hemisférica com os Estados Unidos. Uma política, inclusive ofensiva com outros países da região com os quais divide este território, como a Venezuela, mas que abrange também o Peru, Equador, Colômbia, Grã-Bretanha- Guiana Inglesa-, Países Baixos- Suriname- e França- Guiana Francesa. Outro fator constantemente esquecido.

Curiosamente, a Amazônia é um dos ambientes com maior diversidade biológica e mineral do mundo. Plantas de propriedades ainda pouco conhecidas, uma série de minérios essenciais para setores industriais de ponta, assim como espécies animais que são verdadeiras reservas únicas de material genético. Ora, nem é preciso dizer a importância do Rio Amazonas, cujo aquífero traz consigo a maior reserva de água doce do planeta- essencial em um momento de conjecturas onde países como os Estados Unidos terão falta de água potável. Tudo isso traz uma questão central para o debate ambiental, a política!

A política, criminalizada propositadamente, e substituída pelo ativismo e ongismo das últimas três décadas encontra um beco perigoso hoje nesta questão. Nenhuma empresa interessada em sancionar o presidente brasileiro está interessada no bem-estar dos povos indígenas ou da fauna e flora amazônica, a única intenção é garantir a propriedade dessa reserva biológica, essencial para empresas de cosméticos e farmacêuticas, parceiras da biopirataria, um conceito que muitos esquecem. As maiores empresas dos ramos citados são sócias e parceiras de diversos estudos na região amazônica para mapeamento e roubo desses recursos de maneira ilegal pelas Guianas. Casos tão escandalosos que durante os anos 2000 o Brasil teve de estudar políticas para patentes e proteção do bioma.

Mas voltando aos Estados Unidos, o ambientalismo, assim como a política de direitos humanos na América Latina- leia-se Venezuela-, são os grandes temas onde os democratas tem debruçado seus esforços. Alexandria Ocasio-Cortes, congressista democrata de Nova Iorque ganhou fama em setores liberais após propor a ideia de um Green New Deal, cujo programa Barack Obama, Kamala Harrys– atual candidata a vice do candidato a presidente Joe Biden– e outros do Partido Democrata, com ecos pela Europa e Brasil, tem como centralidade o tema do ambientalismo dentro da ideia de desenvolvimento. Mas, falar disso sem citar o tema Amazônia não é racional, ainda mais porque a Venezuela é considerada pelos Estados Unidos desde 2015 uma ameaça à segurança do país. (Portanto dois dos principais temas eleitorais acabam por envolver de maneira direta a Amazônia, logo, a América do Sul.)

Aliás, insegurança que já se percebe pela quantidade de bases militares na Colômbia, cujas bases foram lançadas durante a guerra contra o Cartel de Medellín na década de 1990, e que agora, com a conexão Brasília-Washington devem estender-se para o Brasil, onde o primeiro passo foi dado em Alcântara. Este sonho antigo dos Estados Unidos, obtido a ’’toque de caixa’’, não é apenas decisivo por ser um importante ponto de lançamento para missões espaciais, mas sobretudo por localizar-se na fronteira com Amazônia, capacitando melhor mapeamento da maior reserva de recursos naturais do mundo.

Neste sentido, não se pode deixar de citar o ’’Plano Nacional de Defesa’’, que para além de retrógrado do ponto de vista militar, pois localiza no exército seus principais setores para investimento futuro, e que ao citar focos de tensão na América do Sul dá importância ao Brasil como ’’guardião’’ do hemisfério ocidental na área. Esta política agressiva, como a muito tempo não se via pela parte brasileira- desde a Guerra do Acre (1901-1903)-, não é fruto apenas de uma ’’ameaça bolivariana’’, mas sobretudo com olhos para a importância futura da Amazônia- aí diga-se não para o Brasil ou o povo brasileiro, mas as corporações e indústrias estadunidenses. É impossível não citar o que o CEO da Tesla, Elon Musk disse sobre o golpe na Bolívia de novembro de 2019- outro país amazônico!

Aí chegamos ao grande foco de tensão no Novo Mundo, a Venezuela, uma esquina perigosa para os povos latino americanos, mas sobretudo para o próprio Brasil. Os defensores da guerra, cujo vociferar diário cresce desde 2019 no Brasil e Estados Unidos, estão preparando-se para o momento ideal, e contam com parceiros locais para a consecução de seu objetivo que não é destruir a Venezuela apenas, mas trazer uma coalizão de ocupação para a Amazônia, onde franceses, belgas e britânicos somariam-se sem pestanejar.

Mesmo com o Estado venezuelano destruído e desestruturado- algo incerto-, as ameaças da Milícia Bolivariana– que seria tratado como uma nova Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC)-, assim como a política ambiental de péssima qualidade do Brasil, somado ao corredor do tráfico de drogas, seriam suficientes para garantir motivações para uma ocupação militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), ou o acionamento do próprio Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR).

Os militares brasileiros, assim como o governo- se é que há como diferenciar a ambos no momento- acreditam que o país pode vir a ser um importante aliado dos Estados Unidos a exemplo do Canadá. No entanto, essa ideia de uma aliança hemisférica, cuja origem data do resgate da Doutrina Monroe pelo presidente Donald Trump, a partir de 2017, não hesitará em por o Brasil em completa desestabilização- aqui se leia entrega-lo a grupos criminosos e uma plutocracia Estatal capitaneada por instituições empresariais/religiosas, onde o Bispo Edir Macedo é o maior exemplo. Esta desestabilização, e a consecutiva ocupação de uma das áreas mais importantes na geopolítica mundial, a Amazônia, representa uma grave ameaça não apenas para os países da região, mas sobretudo para o ecossistema do nosso hemisfério, sujeito a uma espécie de repetição do cenário líbio com consequências maiores nos mais diversos aspectos possíveis.

Este convencimento histórico por parte dos setores sociais que hoje compõem o governo brasileiro desta prioridade não é apenas oriunda do golpe de Estado de abril de 2016, mas sobretudo de um projeto histórico de membros da Aliança Renovadora Nacional (ARENA)– partiu da reação no período da Ditadura Militar-, cujo apoio ideológico e financeiro advém de setores políticos e religiosos do Partido Republicano nos Estados Unidos. Este germe esteve sobretudo com o ditador Emílio Garrastazu Médici, entre os formados na Academia Militar de Agulhas Negras, e que tiveram como expoente em um período o general Silvio Frota– cuja figura chegou a preparar um golpe contra o governo de Ernesto Geisel em 1976 em resposta as medidas de transição política adotada pelo mesmo.

Esta armadilha, preparada há décadas, e que hoje encontra sua oportunidade com a guerra híbrida contra a Venezuela, não pode ser subestimada e mesmo direcionada de maneira unilateral a Brasil e Colômbia, mas a todo um projeto político e social. Entender a Amazônia dentro da ótica de uma luta ambiental sem luta de classes, é jardinagem como já disse assertivamente Chico Mendes há anos atrás. Da mesma forma, entender a Venezuela e a Amazônia hoje, sem discutir a segurança e soberania regional, como certos setores cosmopolitas tem proposto é um grave equívoco.

No fim, todos os caminhos levam a Amazônia. Se a América do Sul e seus líderes não entenderem isso, o risco da guerra com a Venezuela não apenas terá grande chance de se efetivar, como se tornará um grave risco a soberania de toda a região. A Amazônia é uma questão grave de segurança e soberania regionais, e a Venezuela não é o principal foco de tensão na região por causa de seu processo revolucionário apenas, mas por ser uma porta de entrada para uma guerra de claros vernizes de um trampolim estadunidense.

Fonte: texto originalmente publicado no site do Cotidiano.
Link direto: http://bit.ly/cotidiano-OlhoNaVenezuelaOutroNaAmazonia

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