O vinho de 李白 Lǐ Bái

Crédito: China Daily.

Bebo sozinho ao luar

“Entre as flores há um jarro de vinho. Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo. Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua: com ela e a minha sombra, já somos três pessoas. Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço. A sombra e a lua, companheiras casuais, divertem-se comigo, na primavera. Quando canto, a lua vacila. Quando danço, a minha sombra agita-se em redor. Antes de embriagados, todos divertem-se juntos. Depois, cada um vai para a sua casa. Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis: nossos encontros são na Via Láctea…”, (李白 Lǐ Bái traduzido por Cecília Meireles)

Versos tão atuais poderiam ilustrar as noites de confinamento de 2020, mas trata-se de uma obra do célebre poeta chinês 李白 Lǐ Bái (701-762). Seu amigo 杜甫 Dù Fǔ (712-770) o homenageara em sua poesia “Os oito imortais do vinho”, descrevendo-o como aquele que “toma uma jarra e lança uma centena de poemas”, sendo “possível encontrá-lo cochilando em uma taverna na cidade de Chang’an”. Sob o pretexto de “entra vinho, sai poesia”, 李白 Lǐ Bái garantia uma taça onde quer que fosse.

Outros contemporâneos também seriam celebrados por 杜甫 Dù Fǔ por “beber como uma baleia” ou “ingerir três jarras antes de se encontrar com o Imperador” e no caminho deparando-se com a carroça de um produtor de vinho e “salivando abundantemente”. Sim, as evidências sugerem que todos estavam com sede durante a próspera dinastia 唐 Táng, marcada pela proliferação artística e o acesso facilitado ao vinho.

Atualmente, a China está na boca do trombone por seu potencial como mercado consumidor e país produtor de vinho. Ao investigar este futuro promissor, encontrei um passado igualmente imensurável de reis amantes da bebida, cerâmicas e jarras de bronze ornamentadas, poetas cantando odes ao vinho e parreiras e viticultores percorrendo longas distâncias até chegar à Chang’an, capital do império.

Enquanto se tomava vinho em Roma em honra a Baco, o imperador 漢武帝 Hàn Wǔ Dì (156 – 88 a.C.) enviara expedições para abrir uma via de 7000 km de longitude que ficaria conhecida posteriormente como Rota da Seda, favorecendo trocas culturais e comerciais, incluindo a importação de videiras do atual Uzbequistão. Ao longo de séculos, houve a introdução de castas forâneas, mas é importante ressaltar que a China já tinha uma variedade imensa de Vitis – hoje estão registradas 40 espécies e 13 variedades, sendo considerada um dos maiores polos genéticos de uva do mundo.

O frio que chega a marcar menos de -20°C em algumas regiões do país exige que as plantas de Vitis Vinifera sejam enterradas todos os anos durante o inverno para que possam sobreviver. A hibernação forçada – por sinal, muito custosa – não é necessária nos vinhedos de Vitis Amurensis, espécie autóctone resistente às baixas temperaturas que deu origem a híbridos como a casta 龙眼 Lóng Yǎn. As brancas mais plantadas são Chardonnay, Riesling Itálica e Muscat. Entre as tintas, há Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Gernisch (Carmenére) e Marselan. Na verdade, é possível encontrar também alguns vinhedos com Rkatsiteli e Saperavi, fruto dos laços estreitos com a Geórgia no século XX e uma entre tantas surpresas que a China vitivinícola oferece.

Ainda não pude concluir com precisão qual era o vinho, 酒 jiǔ, que 李白 Lǐ Bái tanto tomava, já que se fermentavam grãos, flores e outras frutas além de uva. Reza a lenda que após beber umas taças e ver o reflexo de sua amiga lua na água, o poeta morreu afogado ao tentar tocá-la. Tudo indica que para conhecer a atualidade da China precisamos recorrer várias dezenas de séculos para trás. E pesquisar essa história é compreender a máxima de 老子 Lǎo Zǐ de que um longo caminho começa com um só passo, mas hoje 李白 Lǐ Bái não teve que beber sozinho e juntos demos o primeiro.

Fonte: texto originalmente publicado no site do Tribuna da Imprenssa Livre
Link direto: https://tribunadaimprensalivre.com/o-vinho-de-li-bai/

Samara Portela
Sommelier carioca residente em Buenos Aires. Formou-se na Escola Argentina de Sommeliers e também em História da Arte. Já trabalhou na área gastronômica e atualmente é consultora e pesquisadora em cultura do vinho

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