As duas rainhas da carreira do cineasta Shekhar Kapur

Shekhar Kapur dirige Cate Blanchett em seu filme “Elizabeth: The Golden Age” (2007). Crédito: IMDb.

Há duas rainhas na carreira do aclamado cineasta indiano Shekhar Kapur, que em setembro foi nomeado presidente do Instituto de Cinema e Televisão da Índia (Film and Television Institute of India – FTII), a principal academia de ensino cinematográfico do país. A primeira rainha o marcou profundamente. Sua história foi contada em um impactante filme que o alçou à categoria dos diretores divinos da indústria cinematográfica indiana. Trata-se de “A Rainha Bandida” (Bandit Queen, 1994), sobre Phoolan Devi, uma indiana de casta baixa que resolveu reagir às opressões e aos estupros que sofreu na vida devido à sua condição de nascimento. Esse foi o melhor filme de Kapur, segundo ele mesmo.

Seema Biswas ganhou National Film Award como melhor atriz de filme em Hindi. “Rainha Bandida” foi exibido em Cannes e no Festival de Edinburgh. O filme foi produzido em colaboração com o Channel 4 britânico. Em abril do ano passado, o diretor de Bollywood Ram Gopal Varma elogiou o “Rainha Bandida” em um tweet, afirmando que a cada vez que revê o filme o considera  mais fantástico. “Isso acontece comigo apenas com outro filme: ‘O Poderoso Chefão’”, disse Varma. Kapur respondeu ao tweet confidenciando que o considera de fato seu melhor filme porque o fez de forma intuitiva. “Eu espero conseguir fazer um filme como esse novamente”, completou.

A história de Phoolan, assim como a de muitas mulheres de casta baixa, é violenta: o pai a casou forçadamente com um homem muito mais velho quando ela era ainda uma criança. O marido abusava dela de várias formas e Pholaan fugiu de casa. Mas nos vários locais que procurou viver no interior da Índia, ela sofreu com a violência sexual cometida por homens de castas altas e policiais.

Ela acabou liderando uma gangue com qual conseguiu vingar-se de alguns de seus estupradores. Mas, depois de um tempo, sob a perseguição implacável da polícia, ela se rendeu, fazendo, no entanto, uma exigência para depor as armas: que colocassem diante dela um retrato de Mahatma Gandhi e uma imagem da poderosa deusa hindu Durga.

Phoolan Devi durante sua rendição. Crédito: https://roadsandkingdoms.com/

Após um tempo na prisão ela foi solta.  Em 1995, disputou e ganhou uma cadeira no Lok Sabha, a câmera baixa do Parlamento indiano. Em 2001, foi assassinada. Em 2018, Shekar Kapur contou, em uma entrevista ao jornal The Times of India que quando encontrou Pholaan Devi sentiu-se culpado por pertencer a uma sociedade que “te faz acreditar que as mulheres devem ser recatadas e os homens, dominantes e sedutores”. Kapur afirmou que aprendeu muito com essa experiência fundamental na sua carreira: o filme o ensinou que está tudo bem para um homem sentir-se vulnerável e fraco.

Quando o filme foi lançado, Phoolan Devi, entrou na Justiça. A obra mostra fortes cenas dos estupros sofridos por ela e por isso, Phoolan Devi procurou proibir a circulação do filme, e na época ganhou o apoio de vozes femininas importantes como a da escritora Arundhati Roy. Mas Phoolan Devi não obteve êxito. No entanto, devido a essa polêmica, a obra acabou não sendo indicada para concorrer pela Índia ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

A segunda rainha da vida de Shekhar Kapur foi Elizabeth I, a poderosa governante inglesa do século 16 que ficou conhecida como a “rainha virgem”. “Elizabeth” (1998), que Kapur dirigiu, retratou a sua ascensão ao trono e deu ao indiano a fama global: o filme foi indicado a 7 Oscars. Kapur, nascido em 1945, foi um dos poucos diretores indianos a fazer e acontecer em Hollywood.

Toda vez que é entrevistado, Kapur é perguntado sobre esse filme também. O último comentário dele, em julho desse ano, deu no que falar. A Índia vivia uma forte polêmica sobre Bollywood e as poucas chances oferecidas a talentos novos que não pertencem às famílias ligadas a essa indústria do cinema. Foi nesse contexto que Kapur contou como ele rejeitou a pressão de produtores britânicos que queriam escalar uma atriz famosa para o papel de Elizabeth.

Kapur acabou “seguindo o coração” e escolheu a iniciante atriz australiana Cate Blanchett. A decisão mudou a carreira dela. “Encontrar e trabalhar com Shekar foi uma virada na minha carreira”, contou Blanchett, em 2015, em uma entrevista para a agência de notícias indiana PTI. Ela recebeu o prêmio BAFTA por sua atuação, além de ter sido indicada ao Oscar na categoria de melhor atriz. O filme teve sequência: “Elizabeth: A era do Ouro” (2007), também dirigido por Shekar Kapur.

Mas Kapur já dirigiu também sucessos da indústria comercial de filmes em Hindi da Índia. Sua estreia como diretor foi com “Masoom” (O Inocente, 1983), com os grandes atores Naseeruddin Shah, Shabana Azmi e Urmila Matondkar. O filme é uma adaptação da novela “Man, Woman and Child”, do estadunidense Erich Segal, sobre um homem casado que descobre a existência de um filho que teve com uma mulher que morreu.

Quatro anos depois, Kapur dirigiu “Mr India” (1987), um filme de ação e aventura com as estrelas Sridevi e Anil Kapoor, baseado em um roteiro da dupla Salim Khan e Javed Akhtar. Eles foram os maiores roteiristas da história do cinema em Hindi. Salim-Javed trabalharam juntos para escrever 24 filmes entre os anos de 1971 e 1987 e revolucionaram o cinema indiano, transformando a fórmula de sucesso bollywoodiana.

Fonte: Texto originalmente publicado no Beco da Índia.
Link direto: https://bit.ly/becodaindia-asduasrainhas-kapur

Florência Costa

Jornalista freelancer, especializada em cobertura internacional e política, foi correspondente na Rússia pelo Jornal do Brasil e serviço brasileiro da rádio BBC. Em 2006 mudou-se para a Índia para ser correspondente do jornal O Globo É autora do livro “Os Indianos”. E editora do site Beco da Índia

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