Vietnã ultrapassa Brasil em exportações e segue fortalecendo seus campeões nacionais!

Crédito: Custom News/Vietnam Times.

Vietnã ultrapassa o Brasil entre os maiores exportadores do mundo. A complexidade produtiva do país já é igual a do Brasil! É um dado chocante, mas é mais chocante ainda sabendo que a população do Vietnã é metade da brasileira e seu território é 66 vezes menor… Ou seja, qual foi o grande acerto do Vietnã para esse sucesso? Já tendo as mínimas condições de sobrevivência, em 1986, o Partido Comunista do Vietnã, inspirado no socialismo de mercado chinês e preocupado com o fim da URSS, resolve também abrir o país para a competição mundial, tal qual a China tinha feito em 1978.

Em 1990, o PIB per capita do Vietnã era de 200 dólares, mas já em 2017, ele saltou para 2400 dólares. Desde as reformas, o Vietnã socialista cresce a uma média de 7,2%, sendo que as exportações crescem a uma média de 20% ao ano. Atualmente, 20% do PIB vietnamita é composto pela indústria, que cada vez mais tem tornado-se complexa, nacional e competitiva. O país também ostenta uma expectativa de vida de 76 anos, que é maior que a do Brasil.

O Vietnã está seguindo não apenas a Coréia do Sul – provavelmente o país que mais admira -, mas a sua vizinha e rival China, que priorizou a criação de grandes grupos domésticos e estabeleceu regras estritas sobre o que os estrangeiros poderiam fazer” 

Financial Times

De sua população total, 92% têm acesso à eletricidade e 80% à água potável. A pobreza caiu drasticamente, saiu de mais de 50% para 15% da população em somente 20 anos. O Vietnã está saindo da periferia mundial para a relevância geopolítica e competição em tecnologias, um líder regional notável. De exemplo, a Viettel, uma empresa estatal do Vietnã, está lançando a Internet 5G em países como Laos, Camboja e Mianmar.

O Vietnã é um dos casos mais bem-sucedidos de integração às cadeias globais de valor (CGVs). Especificamente, encaixa-se bem no chamado paradigma dos gansos voadores, o desenvolvimento sequencial de indústrias característico da integração regional asiática. Trata-se de um processo de industrialização liderado pelas economias + dinâmicas da região. Teria iniciado com o “ganso” líder Japão, que deslocou atividades produtivas mais simples, maduras e padronizadas p/ um 2º nível de países seguidores (os tigres asiáticos).

Este modelo depende do Investimento Estrangeiro Direto (IED) proveniente das nações mais desenvolvidas da região. De fato, as principais origens do IED no país são os tigres asiáticos e o Japão. Aproximadamente 1/3 da produção global dos smartphones da Samsung (Coreia) ocorre no Vietnã. Em 1986, ano das primeiras reformas, o país exportava apenas bens primários. Trinta anos depois, eletrônicos e têxteis dominam a pauta exportadora.

Em um contexto de avanço das CGVs, o fato do Vietnã ser um país pobre com grande população tornou-se um atrativo. Portanto, o que vem acontecendo naquele país é uma brusca e clássica mudança estrutural. Nada menos do que ¾ da mão de obra vietnamita estava empregada na agricultura em 1991. Em 2017, caiu para 41%. O emprego na indústria, por sua vez, subiu de 9% para 25% no mesmo período.

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O sucesso da política educacional do país é impressionante (21º entre 70 países no Programme for International Student Assessment PISA). Porém, ainda é alto o desemprego entre graduados e 70% trabalha no setor público, indicando uma estrutura produtiva com limitada capacidade de absorção da mão de obra qualificada. Assim, o caso vietnamita precisa ser devidamente contextualizado. Fatores como a dinâmica da integração produtiva regional e o estágio inicial de desenvolvimento tornam o Vietnã um caso muito peculiar, não podendo ser automaticamente replicado em outros contextos.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do economista e professor Paulo Gala.
Link direto: https://www.paulogala.com.br/evolucao-da-estrutura-produtiva-do-vietna-nos-ultimos-50-anos/

Paulo Gala

Graduado em Economia pela FEA-USP. Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY. É professor de economia na FGV-SP desde 2002. Brasil, uma economia que não aprende é seu último livro

Co-autores: Daniel Bispo e Felipe Augusto

Referências

Vietnam to Launch 5G Technology in Laos

http://documents.worldbank.org/curated/en/965641520866682470/Employment-structure-and-returns-to-skill-in-Vietnam-estimates-using-the-labor-force-survey

https://www.scmp.com/special-reports/business/topics/go-asia-vietnam/article/2120793/fdi-has-pivotal-role-play-vietnams

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2019/04/02/brasil-ranking-exportadores-omc.htm

http://www.valor.com.br/internacional/4261670/para-o-vietna-tpp-traz-vantagens-e-desafios

http://revistaprincipios.com.br/artigos/92/cat/770/o-socialismo-no-vietn%C3%A3-de-1945-at%C3%A9-a-atual-renova%C3%A7&atildeo-.html

https://pt.actualitix.com/pais/vnm/vietna-populacao-abaixo-da-linha-de-pobreza.php

https://amp.ft.com/content/84323c32-9799-11e9-9573-ee5cbb98ed36?__twitter_impression=true

https://www.ft.com/content/fddc2a32-50e1-11ea-90ad-25e377c0ee1f?segmentid=acee4131-99c2-09d3-a635-873e61754ec6

https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2020-03-05/vietnam-and-bangladesh-can-still-get-rich-from-manufacturing

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