“América Armada”: o cotidiano de três ativistas e a mão violenta e invisível do capitalismo neoliberal

Policiais em mais uma operação nas favelas do Rio. A polícia é só um pequeno ator dentro da estrutura de poder violenta e desigual que existe no Brasil. Crédito: divulgação/Pablo Baião.

A violência armada, o poder daqueles que lucram com o comércio de armas e a realidade das áreas mais economicamente desprovidas que sofrem com o resultado deste cenário no Brasil e em outros países da América do Sul, Central e México é um tema bastante documentado para àqueles que acompanham a cinematografia dos países da região, assim como pelos centros de estudo que abordam estas questões. Em especial, para os que se prontificam a tornarem-se especialistas em assuntos destas nações, a abordagem destes problemas é bastante recorrente. Contudo, infelizmente para uma ampla parte da população brasileira, as conexões entre os problemas existentes na região ainda são desconhecidas, o que também, em si, não é novidade.

Em um país, cuja população ignora a própria realidade sócio-política, é de esperar que exista a falta de informação básica sobre a situação de outros países, ou mesmo da conjuntura internacional. Não é de causar espanto. O documentário “América Armada”, dirigido por Pedro Asbeg e Alice Lanari, filmado em uma favela no Rio de Janeiro, em Medellín na Colômbia, e em Michoacán no México, acompanha o trabalho de três ativistas que lutam por direitos e confrontam todos os dias o aparato policial, ou militar em suas respectivas localidades.

Assim, o espectador tem a chance de interar-se sobre o cotidiano de Raull Santiago, um jovem que nasceu e cresceu no Complexo do Alemão, membro do Coletivo Papo Reto, que munido de seu celular transmite em lives as ações e os abusos da polícia em sua comunidade. Paralelamente, a colombiana Teresita Gaviria, que teve o filho assassinado há dezoito anos e, desde então, tornou-se militante do grupo Madres de La Candelária, promovendo encontros entre outras mulheres que compartilham da mesma dor. Por fim, o mexicano Heriberto Paredes, um jornalista que, mesmo ameaçado de morte, documenta a luta de grupos de autodefesa compostos por indígenas, objetivando defenderem seus territórios e suas vidas contra o narcotráfico.

Crédito: divulgação.

Segundo afirmado por Asbeg: “Em relação ao tema central do filme, acredito que a principal descoberta tenha sido a confirmação de que a violência é um fenômeno regional e que afeta todos os países da América Latina, em particular os três em que filmamos: Brasil, Colômbia e México”. Segundo noticiado pela assessoria da obra, que contribuiu com informações para a estruturação deste texto, o processo de filmagem exigiu a construção de uma confiança mútua entre a equipe e o trio de ativistas, para que os profissionais do cinema e sua câmera não interferissem na realidade que se apresentava, podendo registrar o trabalho dessas pessoas em campo.

Como ainda relata a diretora através de seus assessores: “O ‘América Armada’ ajudou a compreender o fenômeno que estamos vivendo no Brasil – de militarização da sociedade civil – como algo que vai muito além do nosso país, e que está intrinsecamente ligado ao que vem ocorrendo em outros países da América Latina, nos últimos anos”, explica Lanari. Ela ainda complementa que a estrutura do longa pode ser comparada a uma rede, onde “as diferenças históricas e culturais de cada país estão presentes, mas os processos sociais são vistos como peças de um mesmo jogo que se repete, em distintos tabuleiros.”.

De acordo ainda com o informado, a pesquisa para a filmagem começou em 2016, quando os documentaristas e o diretor de fotografia, Pablo Baião, viajaram para os três países. Assim, ao longo do ano, mergulharam no dia-a-dia de luta daquelas pessoas, para em 2017 registrar as atividades desses ativistas durante dois meses. Como salientado pelos organizadores da produção, o documentário “faz conexões que em princípio não estão claras, porque para os que lucram com a violência, não interessa que elas estejam nos holofotes. O filme, porém, não tem a presunção de querer mudar o rumo das coisas, mas de jogar luz a um assunto pouco pautado até então e mudar a forma de compreender o Brasil, além do jogo de forças que está acontecendo literalmente no presente momento”.

Exército privado dos indígenas no México. Crédito: divulgação Pablo Baião.

Existem diversas elementos políticos, econômicos, históricos, sociológicos, culturais, geopolíticos e ideológicos que explicam o contexto do cenário apresentado no documentário. Das diversas questões que se pode levantar, talvez a mais primordial seria a perpetuação de uma ideologia capitalista neoliberal, que insiste na primazia de um Estado mínimo, controlado, econômica e politicamente, pelos conglomerados privados, em diversas áreas, da indústria bélica à mídia. Tal condição tem sustentação na lógica neoliberal de que as regras do mercado são o suficiente para trazer o desenvolvimento e a prosperidade necessários a uma nação, ou a uma região.

Tal contexto atual está ainda vinculado ao papel que o passado exerce nestes países, formalmente independentes, porém ainda indiretamente submissos ao domínio colonial, aos ditames das elites que compõem as regiões conectadas pelo Atlântico Norte, em especial Estados Unidos e Europa Ocidental. Em outras palavras, as elites nacionais sul-americanas e a mexicana, assim como as da América Central, ou grande parte delas, até o presente momento histórico, por diversos motivos, continuam a convergir seus interesses particulares com os de grupos dominantes dos países que compõem o centro de poder no Ocidente.

Paredes furadas por balas de armamento pesado na favela do Brasil. Crédito: Crédito: divulgação/Pablo Baião.

Um exemplo prático e bastante registrado e analisado foi a aplicação, nos anos 1990, das regras neoliberais impostas pelo Consenso de Washington, promovido por instituições financeiramente controladas por países ricos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, e que resultaram na fomentação, no mundo em desenvolvimento, de Estados reduzidos, pouco eficientes, que não realizam intervenção econômica e, certamente, não estão propensos a promover políticas sociais, ou públicas que venham diminuir as injustiças inerentes ao sistema capitalista. É preciso dizer ainda que, apesar dos clamores e do teatro realizado por algumas figuras públicas, tais regras não tem nada de nacionalistas.

Um Estado diminuto é um Estado que não paga bem seus policiais; que não investe em infraestrutura, no desenvolvimento nacional e que está cooptado por um pequeno grupo poderoso, cujo principal objetivo é fazer valer seus interesses, em conjunto com os de seus mandachuvas do Norte. Assim, as consequências dessas escolhas são: o surgimento de exércitos privados indígenas que tentam defender o próprio território, na falta de um governo que lhes dê proteção e garanta os seus direitos; resultam ainda em uma polícia que se torna mafiosa, ou tem vínculos com o narcotráfico, como ocorre nos três países mencionados.

Alguns dos parentes assassinados na Colômbia. Crédito: divulgação/Pablo Baião.

Estas e outras análises e reflexões não estão explícitas  em “América Armada”, já que a escolha dos diretores, como dito acima, foi documentar o cotidiano do trabalho de alguns indivíduos que tentam atuar de alguma forma em prol de quem ficou à margem, em um cenário de extrema opressão. Não há dúvida que requer muita coragem para tanto.

Contudo, trata-se de um universo micro, a ponta do iceberg em um oceano de problemas estruturais e históricos seríssimos, perpetuados por uma correlação de forças políticas monstruosa. Porém, a proposta continua importante e válida, em razão da condição vivenciada por grande parte da população brasileira, que praticamente não tem acesso à informação, conhecimento e a um ambiente capaz de promover debates e reflexões. Somasse a isso, a existência de um conglomerado de mídia, financiado por esta estrutura de poder descrita acima, que não irá informar, ou esclarecer como dão-se as relações de poder que possibilitam às injustiça sistêmicas perdurarem por décadas e séculos.

Desta forma, ainda sobrevive por estas terras chamadas latino-americanas uma estrutura socioeconômica dominada por poucos e que explora de forma brutal. Portanto, para aliviar a culpa, começam a serem estabelecidas ONGs, ou pequenas atividades sociais e culturais promovidas por grandes empresas, no intuito de maquiar e convencer gente muito humilde e desesperada que os líderes destes grupos dominantes são exemplos de sucesso, modelos a serem seguidos e gente de bem e de confiança… Todas estas questões são elementos que fazem parte do sistema de opressão e que os ativistas enfrentam diariamente.

Paredes furadas por balas de armamento pesado, durante troca de tiro nas favelas do Rio. Crédito: divulgação Bento Fábio.

Contudo, fica apenas evidente, como em outras produções já realizadas, como mostrado na mídia televisiva, a parte mais básica do pobre soldado, ou policial explorado que atua em regiões pobres e acaba, além de impor a violência sistêmica, também a ser um novo agente explorador, política e economicamente, desta imensa estrutura de poder opressora internacional. Não há dúvida que são assuntos complexos e difíceis de serem abordados de uma forma mais compreensível à grande população.

No entanto, só é possível transformar a situação presente com um povo que entenda um pouco como a estrutura do poder funciona; que ao menos saiba quem realmente o explora. O cinema pode ser ferramenta essencial para tanto e deve auxiliar na luta destes ativistas, aproveitando o exemplo de suas lutas para realizar as devidas explicações e relações da origem destes problemas.

Caso contrário, daqui a anos, estes bravos heróis serão substituídos por outros indivíduos que poderão ter de enfrentar situações piores ainda de conflito e caos generalizado, como já se vê em muitos outros países, em outras regiões do mundo, onde a fraqueza, ou a ausência do Estado resultou na criação de abismos sociais, falta de unidade nacional e em longos anos de guerras civis, ou convulsões sociais violentas intermináveis. “América Armada” já está disponível no NOW, Vivo Play, Oi Play e, posteriormente, será exibido dia 25 abril na Globo News.

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