“Te Falo com Amor e Ira”: os diferentes níveis de poder nas relações homem-mulher e a censura à voz e à sexualidade feminina

Crédito: Facebook “Te Falo com Amor e Ira”.

O único lugar onde as mulheres têm liberdade sexual é na cadeia”, disse uma vez o médico Drauzio Varella, com sua vasta experiência em atender a população carcerária. A sociedade é uma construção humana essencialmente política. Todas as relações que nela ocorrem, baseiam-se em algum nível de poder. A relação homem e mulher não seria diferente. A frase do também apresentador parece ser bastante ilustrativa do cenário de correlação de forças, que ao longo dos séculos, foi estabelecido entre o gênero feminino e masculino, ao menos na maioria dos povos que hoje existem. É verdade que ambos foram enquadrados para seguir um certo modelo de vida, conforme as regras sociais formatadas, mas coube às mulheres o papel de obrigatoriamente realizar a autocensura necessária para caber em uma imagem praticamente sacralizada e submissa.

E tal imagem não está apenas presente nas sociedades ocidentais judaico-cristãs, mas nas orientais também, cada uma a sua forma. Qualquer humano do sexo feminino que ousar ser o que realmente é, apenas um humano, está propenso a sofrer os maiores estigmas, mesmo em países, onde as desigualdades de gênero diminuíram ao longo dos anos.

Não é por nada que se teme, ou ao menos causa grande desconforto, na maioria da população, quando alguém decide falar sobre a sexualidade feminina. Afinal, na equação social: mulheres são mães e, portanto, devem ser essencialmente santas, puras. A peça online  “Te Falo com Amor e Ira”, com direção de Fernanda Bond (“A Menina e o Pote”) e atuação de  Branca Messina (“A Divisão” e “Genêsis”), que hoje, 25 de abril, tem sua última exibição pelo YouTube, às 21h, aborda esta e tantas outras temáticas. O ingresso pode ser adquirido através da plataforma Sympla (clique aqui), a partir de R$ 20 reais.

Crédito: Veronica d’Orey.

No espetáculo, acompanhamos o encontro de um casal, através de uma videochamada. Em um monólogo da parte feminina, diversas questões históricas e atuais são levantadas e expõe a constante desigualdade de poder dentro da relações homem-mulher. Desta forma, com a câmera de seu celular, a personagem convida o homem, seu interlocutor, a ver novos pontos de vista sobre temas como família, maternidade, sexo, trabalho e subjetividade. A ideia é original, e Branca Messina consegue prender a atenção do telespectador mesmo na sua reflexão individual, ao mesmo tempo que percorre os diferentes cômodos de sua casa.

Contudo, ao menos para a autora deste texto, a figura do outro masculino e suas reações deixam um vazio que ressoa, especialmente, quando em vários momentos todos os pensamentos e sentimentos da personagem parecem, na realidade, estarem presos em uma introspecção, onde ela fala para si, sem a possibilidade de ser realmente ouvida e levada em consideração. Como se ali estivesse expressando aquilo que gostaria de dizer ao outro, mas não o faz. Seria em si uma intenção da própria diretora?

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Se for, não deixa de ser uma construção interessante de mostrar os anseios e as angústia de quem reprime todos os dias quem é, ou o que deseja no seu íntimo. De uma forma, ou de outra, “Te Falo com Amor e Ira” faz provocações importantes, como: o que leva o pensamento coletivo geral a pensar que uma mulher só é completa ao ser mãe? São questionamentos profundos e que tocam a essência de muitos problemas e conflitos e que claramente almejam fazer pensar.

Porém, outro elemento ainda incomodou a autora deste texto, para além da ausência da outra parte masculina e suas reações ao que está sendo dito, a falta de relatos concretos dos feitos da personagem, comprovando que colocou suas reflexões em prática. São inúmeros os relacionamentos onde se tenta conversar e discutir tais questões, mas elas pouco são consideradas.

Mesmo assim, muitas mulheres ainda insistem, por variados motivos conscientes e inconscientes, permanecer em um relacionamento que as deixa insatisfeitas, o que leva a seguinte conclusão: mais do que esperar ser ouvida, é preciso agir independente do que os outros venham a dizer, ou fazer. Não há nada pior do que estar presa em uma relação, onde só existem monólogos e as paredes são os nossos ouvidos.

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