“Alvorada”, um revisitar a um episódio crucial da história recente do Brasil

“Alvorada”, de Anna Muylaert e Lô Politi. Crédito: divulgação.

Uma pena que “Alvorada”, de Anna Muylaert e Lô Politi, tenha ficado tão pouco tempo disponível no “É tudo verdade” deste ano, festival realizado de forma remota entre 8 e 18 de abril últimos. Foram só duas sessões, muito perto uma da outra: na terça-feira, dia 13, às 21h; e na quarta, dia 14, às 15 horas.

Recomendei a colegas, amigos, familiares, alunos… No entanto, poucos conseguiram conferir, dada a rapidez com que saiu de cartaz. Uma pena, repito, pois muita, mas muita gente não pôde ter a oportunidade de revisitar, sob a mirada de “Alvorada”, um episódio crucial da história recente do país.

O abismo em que a nação está metida e perdida hoje decorre daquela ruptura na democracia ocorrida cinco anos atrás, e registrada de dentro do Palácio da Alvorada pelas documentaristas. Anna Muylaert e Lô Politi mostram como Dilma Rousseff e pessoas bem próximas viveram, dentro da residência oficial da Presidência da República, aqueles meses em que, por meio de impeachment, consolidou-se um sofisticado, mas explícito, golpe de Estado.

A câmera ora faz-se discreta, ora é notada e incomoda, por vezes é procurada, em certas ocasiões é percebida e bem-vinda. Dilma sempre demostrou não ser afeita a atos dramáticos, a gestos de impactos, a falas de efeito. Então, em certos momentos, criamos a expectativa de que assistiremos a uma cena épica, e o que vemos é nada além de uma situação cotidiana.

“Alvorada”, de Anna Muylaert e Lô Politi. Crédito: divulgação.

A força de “Alvorada” está justamente aí: contrapõe o corriqueiro de dentro de casa ao surreal que acontece do lado de fora. Não que a vida no interior do palácio estivesse alheia, indiferente à explosão de boçalidades que já marcavam a rotina nacional, em 2016. Não. O misto de tensão, tristeza, ansiedade e sentimentos similares que emergiam das reuniões das quais o Alvorada foi palco naqueles últimos meses de Dilma por ali é flagrado pelo documentário. Nada, contudo, de acontecimentos chocantes, do tipo “coisa de cinema”. (O que choca mesmo é o que está para além do filme).

Talvez por isso tenha caído bem a distribuição, ao longo da narrativa, de trechos da conversa que Dilma mantém com as documentaristas. As rotinas – do Alvorada, palácio, e de Alvorada, o filme – são quebradas pelas reflexões que a então presidente faz – e traz. Ressalto a passagem em que Dilma discorre sobre seu ponto de vista acerca do conceito de equilíbrio emocional. Expressada pelas falas e imagens registradas pelas documentaristas, é uma análise admirável. “Alvorada” deve entrar de vez no circuito de exibição (plataformas e cinema) em maio. Tomara. Será fortemente recomendado. Precisamos.

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