O obstrucionismo dos EUA em Israel e na paz palestina

Fumaça e chamas aumentam durante ataques aéreos israelenses, enquanto a violência na fronteira entre militares israelenses e militantes palestinos continua, na Cidade de Gaza, em 14 de maio de 2021. Crédito: Reuters.

As tensões entre Israel e Palestina não mostram sinais de diminuir, causando mais de uma centena de mortes de civis, principalmente do lado palestino. O conflito está rapidamente se transformando em uma das piores violências entre os dois lados desde a guerra de Gaza em 2014. O obstrucionismo dos EUA na rápida desaceleração do conflito encontrou um retrocesso da comunidade internacional, revelando a fraqueza moral de sua liderança global professada.

Obstrucionismo dos EUA

Os EUA há muito desempenham um papel obstrucionista no conflito israelense-palestino. Apesar da retórica sucessivamente elevada da administração dos Estados Unidos, o país provou repetidamente sua indiferença ao negociar um acordo de paz genuinamente viável e durável. Para a consternação do mundo, os EUA usaram desenfreadamente seu poder de veto para obstruir uma declaração conjunta em 12 de maio, preparada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas pedindo restrições a todos os lados em Jerusalém Oriental. O EUA é o único outlier (significado do termo: uma parte que se diferencia tanto das outras que causa suspeita) no Conselho de Segurança da ONU de 15 membros a opor-se a essa medida. Também bloqueou uma reunião do Conselho de Segurança planejada para sexta-feira.

Os EUA são especialmente pró-ativos na promoção de uma narrativa pró-Israel. Tanto o presidente dos EUA, Joe Biden, quanto o secretário de Estado, Anthony Blinken, correram para apoiar o “direito de Israel de defender-se”, mas minimizaram visivelmente o sofrimento dos palestinos. O apoio unilateral dos EUA a Israel às custas do povo palestino expôs como os EUA estão praticando dois pesos e duas medidas no cenário mundial e como são indiferentes à violação grosseira dos direitos humanos. Seu obstrucionismo contra o esforço coletivo da ONU em direção à paz também revelou a hipocrisia da chamada adoção do multilateralismo pelo governo Biden e a natureza inerentemente unilateralista da política externa dos EUA.

A explosão após um ataque israelense teve como alvo um edifício na Cidade de Gaza, 14 de maio de 2021. Crédito: Mahmud Hams /AFP.

Cálculo nos EUA

Parecia ultrajante para os EUA ir contra a comunidade internacional na resolução desta crise humanitária, mas é um movimento racional no cálculo estratégico do governo Biden tanto em casa, quanto no exterior. No front doméstico, a postura pró-Israel tem sido “politicamente correta”. Grupos de interesse pró-Israel exerceram influência na política dos EUA, onde mesmo uma postura relativamente equilibrada sobre os conflitos árabes-israelenses provocaria reações por parte deles. Como a atmosfera política em Washington D.C. está ficando tão tóxica que a bipolaridade política anula a tomada de decisões racionais, o governo Biden não arriscaria dar forragem ao Partido Republicano ao desviar-se da postura pró-Israel.

Na frente internacional, ao escolher um lado no conflito Israel-Palestina, os EUA levaram em consideração sua grande estratégia. Por muito tempo, a estratégia dos EUA no Oriente Médio é garantir que nenhum país ou grupo jamais possa desafiá-lo. Ao mesmo tempo em que reorienta sua prioridade estratégica para a região da Ásia-Pacífico, o governo Biden não quer que nenhuma força desfavorável aproveite-se do vazio que deixou em outras partes do mundo. Portanto, seria do interesse dos EUA apoiar seus aliados na região como forma de manter sua hegemonia.

Sob pressão da comunidade internacional, os EUA provavelmente apoiarão uma reunião de portas abertas sobre este assunto no Conselho de Segurança da ONU no início da próxima semana. No entanto, sua intenção é mais fortalecer a vantagem israelense no campo de batalha do que pressionar sinceramente por uma solução rápida. Os EUA estão jogando um jogo perigoso aqui, já que qualquer atraso em uma ação da ONU apenas prolongaria o conflito sangrento.

Irresponsabilidade dos EUA

As ações irresponsáveis ​​do governo dos EUA colocaram a paz e a estabilidade regionais em jogo. Em primeiro lugar, o apoio inquestionável a Israel e a falta de empatia pelos palestinos apenas mostram um risco moral para os Estados Unidos, o que encorajará ações agressivas dos israelenses e instigará queixas entre os palestinos. Como resultado, corre o risco de provocar uma guerra total entre os dois lados e interromper o processo de paz árabe-israelense.

Em segundo lugar, iria incitar ainda mais o ódio racial e conflitos religiosos. Conflitos violentos entre residentes judeus e árabes estão espalhando-se por Israel, quebrando anos de harmonia entre as duas comunidades. Pode até inflamar o barril de pólvora na região ao envolver as nações árabes vizinhas na turbulência. Por último, mas não menos importante, à medida que a crise fica fora de controle, ela se transforma em uma grave crise humanitária — um excesso de refugiados tornaria os esforços de combate à pandemia COVID-19 mais difícil; também criaria um terreno fértil para o terrorismo, desestabilizando ainda mais a região e o mundo em geral.

Agora mesmo, a comunidade internacional precisa intensificar e intermediar uma solução de redução da escalada. É também um pré-requisito para as partes interessadas trabalharem em direção a uma “solução de dois Estados” viável para garantir a coexistência pacífica entre os dois lados, o que é essencial não apenas para o bem-estar das duas nações, mas também para o mundo em geral.

Fonte: Texto originalmente publicado em inglês no site do CGTN.
Link direto: https://news.cgtn.com/news/2021-05-15/The-U-S-obstructionism-on-Israel-and-Palestinian-peace-10hAZoZJpxS/index.html

Tradução do inglês para o português: Alessandra Scangarelli Brites, editora da Revista Intertelas

Yuan Sha

Pesquisadora assistente no Departamento de Estudos Americanos, Instituto de Estudos Internacionais da China. Ex-bolsista da Fulbright na Columbia University, ela tem PhD em Política Internacional pela China Foreign Affairs University. Yuan publicou vários artigos sobre a China-EUA, relações de segurança em revistas acadêmicas chinesas e é colaboradora regular de muitos meios de comunicação chineses. O artigo reflete a opinião do autor, e não necessariamente a visão da CGTN

 

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por Anders Noren

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