“China no Brasil”, de José Teixeira Leite – Pontos de encontro entre a cultura chinesa e a brasileira

Quiosques dos Rio de Janeiro no início do século XX, cujas formas basearam-se nos pagodes chineses. Crédito: Rio Memórias.

Certamente, ninguém pode negar a importância que a influência europeia, africana e, obviamente, indígena exerce na formação social e cultural do Brasil. Ainda que existam disparidades de abordagem, os estudos acerca da alta relevância cultural, social, política e econômicos destes diferentes povos para o país foram e seguem sendo documentados, analisados e debatidos entre os diversos pesquisadores, provenientes de variadas áreas do conhecimento. Contudo, no complexo quadro da história do Brasil e de sua sociedade falta um ponto ainda pouco abordado: a Ásia; mais especificamente, a China e sua presença em nosso passado histórico.

Aos que pensam estarmos falando da contemporaneidade, no pós-guerra, enganam-se. Falamos de um passado mais longínquo desta jovem nação de apenas 520 anos -, isso claro seguindo a contagem do tempo estabelecida pela historiografia clássica que inicia com a chegada dos portugueses. O que ocorreu antes disso, ainda está para ser melhor desvendado pelos cientistas, de historiadores a arqueólogos, e assim esperamos que ocorra.

Porém, traços sociais e culturais de origem chinesa entre os brasileiros que viveram durante os períodos colonial, imperial e parte da república já sobressaltam em obras e registros deixados por estudiosos renomados do país, de Gilberto Freyre a Luiz Edmundo. Um outro trabalho que resume e traz indicações destes traços socioculturais é o livro “A China no Brasil: influências, marcas, ecos e sobrevivências chinesas na arte e sociedade brasileiras”. Trata-se de uma extensa pesquisa realizada pelo jornalista, professor, curador, historiador e crítico de arte José Roberto Teixeira Leite para sua tese de doutorado, apresentada ao Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas em 1992, onde ele também lecionou até a sua aposentaria em 2000.

Crédito: reprodução da internet.

Dos costumes, passando pela imigração, comércio, arquitetura e artes em geral, o especialista concentra em tentar trazer ao público acadêmico e geral diversos aspectos desta influência chinesa que, segundo ele, foi preponderante no Brasil até meados do século XIX, quando a Inglaterra e a Europa, com o advento da Revolução Industrial e o progresso da ciência, acabaram por substituir e apagar esta marca chinesa e asiática que a sociedade brasileira apresentava até então. Muitas destas semelhanças foram, em grande parte, trazidas pelos próprios portugueses que tinham, conforme Teixeira Leite, uma capacidade única de locomoverem-se rapidamente entre os territórios que compunham seu império, da América do Sul à África e Ásia -, levando em conta as capacidades logísticas da época, obviamente.

O intercâmbio cultural, segundo o professor, fora muito mais intenso do que se podia imaginar no período colonial, correspondente aos séculos XVI, XVII e XVIII, principalmente. A documentação que auxilia e aponta para a afirmação desta situação é encontrada não apenas em arquivos oficiais de navegação e da coroa portuguesa, mas também através de diários e outros escritos pessoais não apenas dos lusitanos, mas de navegadores europeus, assim como de asiáticos que passaram pelo Brasil e deixaram suas impressões para a posteridade.

Ilustração da obra “O Rio de Janeiro do Meu Tempo”, de Luiz Edmundo. Conforme Teixeira Leite, assim era vistos caricaturamente os chineses no Rio do início do século XX. Crédito: Alessandra Scangarelli Brites

De acordo com o Teixeira Leite, muitos oficiais e outros cargos foram ocupados por asiáticos nas embarcações, já que as tripulações tinham alta rotatividade, muito em decorrência das condições extremamente difíceis que as longas viagens pelos continentes impunham. Portanto, como o autor coloca, resumidamente, na introdução de sua tese, nas páginas 12 e 13, escritas no início da década de 1990:

Nesse início de década, ao mesmo tempo fim do século e do milênio, o nome ‘China’ há de por certo suscitar noções confusas e de significar de qualquer modo bem pouco a 99,9% de nós brasileiros, acostumados a associá-lo a um país nebuloso, tão desconhecido e quase tão remoto quanto Marte ou a Lua. No entanto, nos cerca de 300 anos que vão do começo da colonização a independência, durante aos quais passou do estágio edênico em que o encontraram em 1500 os portugueses para se transformar – não sem traumas de paraíso perdido – em país ocidental, foi o Brasil sucessiva ou cumulativamente aborígene, lusitano, – e por conseguinte também semita e já negro -, africano, indiano e… chinês: chinês em numerosos usos e costumes, em certos requintes da civilização material, em pormenores de arquitetura e artístico; chinês em muitas forma de pensar, viver, agir e sentir.

Com efeito ao longo de quatro séculos – do segundo terço do séc. XVI até pelo menos o segundo quarto do séc. XIX (quando o país de repente e quase à força se converte ao Ocidente, afrancesando-se e se inglesando da noite para o dia, arrependido de ter permanecido por tanto tempo índio, africano e asiático e envergonhado de ter sido se não na epiderme mentalmente vermelho, negro e amarelo antes de tentar ser branco), ponderável influência chinesa atingiu o Brasil, assumindo entre nós formas específicas e conotações inconfundíveis, que se traduziram no devido tempo em hábito, modos de viver e fazer que mesmo hoje longe estão de se terem esgotado, fundamente arraigados como se acham na alma nacional.

E nota-se não estarmos tratando aqui de chinoiseries ou chinesices, China de fantasia ou mentira, invenção de europeus que também tivemos em dado momento, porém de influência autêntica chinesa, do impacto de ideias, hábitos, técnicas, e modos de vida chineses sobre o Brasil colonial ou já de tempos do Império; sob tal aspecto, quer-nos parecer que o Brasil constituí caso único no mundo”.

Cristos chineses, em peça de mobiliário no Museu da Ordem Terceira do Carmo
de Cachoeira (BA). Crédito: Adélia Soares/Outras Palavras.

Para muitos pesquisadores em estudos asiáticos e até os que procuram o título de especialistas em assunto da China no Brasil, algumas questões levantadas por Teixeira Leite, assim como os documentos que consulta de europeus, podem conter o que se chama hoje de orientalismo na academia. Contudo, características levantadas pelo estudioso são de uma riqueza única para promover novas pesquisas e debates em torno de temáticas importantes e bastante em voga para a sociedade atual.

Por exemplo, no capítulo dois, especificamente, sobre usos e costumes, o autor traz informações sobre a posição submissa da mulher na sociedade patriarcal, em que sua função é ter filhos e viver enclausurada em sua casa, já que não pode sair desacompanhada e, ou estar na companhia de homens que não pertencem à família. São elementos culturais que remontam a China e ao oriente de forma geral, segundo o autor, mas que a sociedade brasileira também incorporou ao seu código social e moral.

Outra questão digna de nota é o casamento arranjado entre homens adultos, ou já idosos, e meninas de 12, 14, 15 anos, algo comum nos séculos passados na China antiga, onde imperava uma sociedade dividida em estamentos e extremamente desigual, e também no Brasil colonial e imperial. No entanto, é importante lembrar que tal traço cultural foi comum também na Europa, onde, dos pobres aos monarcas, o casamento entre pessoas adultas e menores, ou entre menores, também foi bastante comum.

Dragão de luminária na Igreja do Pilar, Ouro Preto, com evidente influência chinesa. Nas artes, ela está presente em especial no barroco miniero. Crédito: Outras Palavras/ artigo de Alexandre G. de B. Figueiredo.

Teixeira Leite salienta ainda alguns hábitos que os brasileiros cultivaram passado, e outros que permanecem atualmente. Em ambos os casos, há uma possível ou constatada origem chinesa, como o usar unhas compridas para mostrar status, social e enfatizar que pertence a uma classe superior, desprovida da necessidade de viver do trabalho braçal, visto com repulsa na época. De acordo com Teixeira Leite, entre a classe de mandarins, isso era um hábito comum, assim como entre a elite brasileira.

O costume de ter unhas compridas, em geral, desapareceu, ao longo dos anos no Brasil e na China.  Hoje talvez apenas os que apreciam tocar violão deixam suas unhas crescerem. No entanto, a desvalorização do trabalho braçal continua bem presente. Então, seria esta uma provável explicação para o costume que ainda se perpetua entre os ricos e a classe média alta no Brasil? O autor parece indicar que sim. De uma forma ou de outra, estas são discussões frutíferas e que podem levar a reflexões significativas para o país.

Afinal, até a China milenar, com a sua revolução, conseguiu, de certa forma, não totalmente, superar esta questão. O que nos leva a insistir com tal preconceito ainda no século XXI? O debate segue aberto e espera respostas. Enquanto isso, seguimos indicando neste curto texto outros casos apontados pelo professor. Assim, soma-se à lista a adoração por pés femininos de tamanho pequeno. Para exemplificar como eles foram famosos no passado, Teixeira Leite traz citações de grandes escritores brasileiros, de José Alencar a Machado de Assis, que deixam explícito o fetiche da época e que continua vivo para alguns nos dias de hoje.

Cristo chinês. Museu da ordem terceira do Carmo de Cachoeira (BA). Crédito: Outras Palavras.

Os tais pés pequenos, ou os também conhecidos como pés de lotus, na China dinástica, não republicana, são vinculados a um passado de bastante dor e sofrimento. Como explica Teixeira Leite, citando registro deixado pelo diplomata brasileiro Henrique C. R. Lisboa que secretariou, em 1880, a primeira missão oficial do Brasil ao país asiático:

Inicia-se essa mutilação aos três ou quatro anos de vida das crianças. Dobra-se para baixo, sem forçá-los, quatro dedos do pé, deixando-se apenas em sua posição natural o dedo polegar e envolve-se o pé todo em várias voltas de uma comprida tira de algodão. Todos os dias vai-se comprimindo os dedos contra a planta do pé e apertando mais a ligadura, de modo a conter o natural crescimento. No fim de poucas semanas a criança já está acostumada e não sente dor nem incômodo algum; até aos vinte anos deve, porém, cuidar diariamente da ligadura para não deixá-la afrouxar e conservar desse modo ao pé um comprimento de cinco a seis polegadas. Dessa paulatina operação resulta um pé que, nu, nada tem de bonito…”.

Os pés de Lotus. Para saber mais, clique na foto. Crédito: Aventuras Histórias Uol.

Este costume só terminaria definitivamente com as revoluções do século XX, com a fundação da Nova China, a China republicana. Em especial, a partir de 1949, quando Mao Zedong e seus segudores equiparam os direitos de homens e mulheres e proibem tal prática, punindo severamente as famílias que insistissem em continuar tal prática, afirmando ser parte da tradição.

Agora, vamos focar um pouco em costumes que superaram a passagem do tempo e encontram-se ainda entre nós, a exemplo do beijo chinês, o chamado cheiro. Conforme o autor, na China antiga, o toque físico entre os amantes simplesmente não ocorria, ou não era permitido. De forma que os apaixonados contentavam-se em aspirar o cheiro da pessoa amada. Isso resultou no Brasil na famosa expressão um cheiro para você (um beijo), muito presente ainda no Nordeste. Podemos também citar outros costumes brasileiros: o hábito de comer e depois arrotar, uma forma de mostrar contentamento por ter realizado uma boa refeição; a adoração por papagaios de papel (pipas), foguetes, girândolas, briga de galo, jogo do bicho, café com leite e tantas outras questões levantadas nesta obra e que são, ou foram provenientes da China.

Nesta breve menção ao conteúdo do livro, já pode ser constatado a importância da obra. Independente dos questionamentos que possam surgir no futuro. Infelizmente, o livro não teve novas edições e acabou saindo de circulação, restando apenas a tese do autor no banco de trabalhos científicos da Unicamp. De qualquer forma, uma questão é comprovada: sabe-se pouco do Brasil como realmente foi e é.

Nesta mesma linha, é possível afirmar que apenas recentemente pesquisadores ao redor do globo começam a ter uma noção mais ampla das relações estabelecida entre as diferentes regiões do mundo e culturas em séculos e milênios passados. Em primeira análise, algo já é sabido: a conexão entre os diferentes povos e a influência que exerciam um sobre o outro foi mais diversa e plural do que as visões Europeia e Estadunidense, centros do conhecimento que acabam impondo formas de se fazer ciência e pensar o mundo, querem fazer crer.

Telhados em forma de pagode, Rio de Janeiro, 1818. Ilustração de Jean Baptiste Debret. Crédito: reprodução da internet, Outras Palavras.

Por isso, em especial em ex-colônias europeias como o Brasil, ou até partes da própria China e de em outros países da Ásia, faz-se necessária a construção de laços e parcerias diretas entre centros de estudos e pesquisa, assim como de uma aproximação das nações, de forma a conhecerem-se melhor e saberem mais sobre um passado que partilharam, em aspectos positivos e negativos. Assim, quem sabe, seja possível evitar visões preconcebidas, conflitos futuros e a diversidade cultural mundial seja finalmente revelada.

Chang Dai Chien viveu no Brasil e sua obra também é analisada por José Teixeira Leite no livro recomendado neste texto. Ele criou diversas obras inspiradas na paisagem chinesa montada em Mogi das Cruzes, em São Paulo. Saiba mais no vídeo abaixo

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por Anders Noren

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