
No intuito de auxiliar na aproximação do intercâmbio audiovisual e cultural sino-brasileiro, nesta semana, a Estação Net Rio, localizada no bairro de Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, recebeu a II Mostra de Cinema ChinaBrasil. Ao todo, foram exibidas 14 produções cinematográficas de ambos os países. Na abertura ocorrida no dia 4 de dezembro de 2023, estiveram presentes autoridades governamentais do Rio de Janeiro e representantes diplomáticos da China, além de personalidades do audiovisual brasileiro.
A segunda edição da Mostra, assim como ocorrido na primeira, homenageou as produções dos dois países com o Prêmio Arara Azul. Idealizada pelo empresário chinês, naturalizado brasileiro, Arthur Chen, a Mostra busca aprofundar, ampliar e abrir espaço para que a produção audiovisual de ambos os povos possa cooperar e ser mais difundida.
Como informado pela assessoria do evento, na China o público prestigia os filmes nacionais e comparece em peso aos cinemas. Segundo a Administração Nacional de Cinema da China, a bilheteria total de ingressos vendidos no país em 2023 até 14 de novembro ultrapassou os 50 bilhões de yuans (cerca de R$ 34 bilhões), com um público total de 1,179 bilhão de espectadores. Dos 58 filmes com bilheteria superior a 100 milhões de yuans na China em 2023, 39 são chineses.

Em entrevista à Revista Intertelas, Arthur Chen destacou a importância estratégica da cultura para as relações bilaterais entre os dois países. “Para além do comércio, conhecer a vida cotidiana das pessoas, seus costumes e histórias ajuda na compreensão dos povos e auxilia nas demais áreas econômica e política “, disse. O empresário ainda enfatizou que as trocas culturais entre China e Brasil estão muito aquém do que já deveriam estar. “Infelizmente o conhecimento que os chineses têm do Brasil é aquele padrão: carnaval, futebol, samba etc. O conhecimento do brasileiro sobre a China também é muito raso, ficando basicamente entre Kung Fu e pandas. Nenhuma destas características descrevem quem são estes povos realmente”, disse.
Como presidente da Mostra de Cinema ChinaBrasil e uma liderança na promoção das relações culturais sino-brasileiras, a atriz e ativista Lucélia Santos, que foi amplamente reconhecida na China através do sucesso da novela “Escrava Isaura”, em seu discurso de abertura, comentou sobre os desafios que os dois países enfrentam para promover cooperações em conjunto na área do audiovisual, mas também enfatizou que a atuação conjunta será benéfica para ambos tanto direta como indiretamente.
“Levadas em consideração as limitações que nós temos para que as produções conjuntas aconteçam, visto que a cota de tela na China é muito rígida e a do Brasil quase inexistente, entregando-se praticamente 100% ao mercado internacional, em especial a produções provenientes dos EUA que ocupam grande parte de nossas salas de cinema, creio que a entrada da China poderá ser bastante saudável, eu diria quase que didática, pois poderá mudar a correlação de forças produtivas e de distribuição, equilibrando um pouco a situação atual“, explicou.

“Eu vejo com muito bons olhos essa aproximação e defendo veementemente a força que existe na produção cinematográfica brasileira que é ainda pouco ou quase nada explorada na sua real dimensão e capacidade de mercado. O mercado chinês pode ser altamente estimulante para as nossas novas produções, visando atingir a população chinesa e asiática de um modo geral. É importante explorar a economia cinematográfica e o potencial de comunicação que o cinema tem através de investimento pesado no talento e no trabalho de brasileiros e chineses”, salientou a atriz.
O curador da Mostra, produtor e documentarista, Hélio Pitanga, também enfatizou em entrevista à Intertelas sobre a importância do mercado chinês para o Brasil no setor audiovisual, assim como a troca de conhecimento e experiências que os profissionais de cinema e o público em geral podem adquirir com esta troca. “As duas nações precisam ampliar seus esforços para integrarem-se mais no setor audiovisual, já que são tão fortes neste segmento. Vamos lembrar que um acordo de coprodução foi assinado em 2017″, pontuou Pitanga.
“Através desta Mostra queremos trazer filmes chineses para o público brasileiro e promover eventos que possam ampliar debates e conhecimento. Na primeira edição, por exemplo, realizamos uma oficina de direção e um debate sobre direitos autorais. É possível observar as imensas possibilidades que a aproximação nesta área pode trazer e creio que as autoridades estão cada vez mais cientes disso. E nosso objetivo é contribuir e, de repente, transformar a Mostra em um festival, de repente até um festival itinerante, que ocorra na China também”, finalizou o curador da Mostra.
A também organizadora da Mostra, Letícia Trindade, salientou à Intertelas que para além de auxiliar a integração e fomento do mercado audiovisual, a iniciativa tem o compromisso com a educação, o conhecimento e o intercâmbio cultural entre as duas nações. “Produzir um evento como esse é maior do que somente fazer uma produção de audiovisual, é também contribuir para o mercado em geral, para o intercâmbio cultural, para o acesso ao conhecimento de pessoas que não têm a possibilidade de ter o contato com a cultura chinesa e suas tradições e vice-versa, a exemplo do público de ensino da rede pública e de projetos sociais”, explicou Trindade.

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