
Segue em cartaz em cinemas de algumas cidades o longa “Tia Virgínia”, protagonizado por Vera Holtz, Arlete Sales, Louise Cardoso e Vera Valdez, e com roteiro e direção de Fábio Meira. Premiada e aclamada pelo público do 51º Festival de Cinema de Gramado, a obra é forte e bonita. A estreia no circuito comercial foi em novembro.
Assistimos ao filme em uma sessão no Cine Brasília, na capital federal, ainda nos primeiros dias de exibição. A sala não estava lotada, até porque é um espaço grande, mas um público considerável acompanhou. Em alguns momentos, a plateia soltou risadas diante de situações inusitadas do enredo. Em outros, pairou o espanto; também foi possível ouvir fungadas de choro.
Porque “Tia Virgínia” é isso mesmo, trata de temas profundos, com certa dose de comicidade, como na vida real chegam a ter situações em torno de tais temas. Contudo, a comicidade é só uma carapuça, um invólucro frágil – a crueza e crueldade de momentos da vida por vezes se derramam. Tia Virgínia, interpretada por Vera Holtz, é uma mulher de 70 anos, solteira, sem filhos, encarregada de cuidar da mãe (Vera Valdez), quase centenária, de saúde debilitada. É noite de véspera de Natal, e chegam para a ceia as irmãs Vanda (Arlete Salles) e Valquíria (Louise Cardoso). Será o primeiro Natal depois da morte do pai delas.
A história se passa durante todo o 24 de dezembro. Vêm à tona conflitos antigos; problemas de relacionamento enfrentados por Vanda e Valquíria em suas respectivas famílias são camuflados por essas irmãs, que tentam transmitir imagem de normalidade. As três veem e apontam os defeitos e incoerências uma das outras, todavia nunca reconhecem os seus.
Além de escancarar feridas de relações interpessoais e familiares, “Tia Virgínia” expõe também uma mazela da nossa sociedade, em particular a brasileira. Vejamos. De cada 100 habitantes, pelos 15, no Brasil, já passaram dos 60 anos. E a curva é de crescimento dessa população. O Brasil está envelhecendo, e não está se dando conta de cuidar disso. De se auto cuidar.
Tia Virgínia tem 70 anos. Cuida da mãe de quase 100. E quem cuida de quem cuida? Tia Virgínia e as irmãs são de classe média, média alta. Dispõem de patrimônio, aposentadoria, pensão. Conseguem pagar uma funcionária para dar suporte a Tia Virgínia. E a absoluta maioria da população brasileira, que, principalmente depois da reforma da previdência, terá dificuldades para chegar à aposentadoria? Como é que fica? Mesmo alcançando-a, o que receberá de proventos mal será suficiente para o autossustento – que dizer, então, de ter dinheiro para pagar profissional de cuidados, para casa de repouso. Quem vai cuidar de quem precisar cuidar?
Na temporada deste ano do excelente Profissão Repórter, um episódio tratou do tema (ver aqui). Entre tantas histórias emocionantes – algumas tristes, outras não -, o semanário mencionou o programa “Agentes Experientes”, da Prefeitura do Rio de Janeiro. A iniciativa envolve a contratação de pessoas com mais de 60 anos para visitar idosos que moram só. Vai completar duas décadas em 2024.
Merece muito ser olhada pelo governo federal para se tornar política pública interdisciplinar (saúde, assistência social, direitos humanos) em esfera nacional. Tia Virgínia dá um desfecho surpreendente a suas angústias. As irmãs, na trama, e o público, do lado de fora da telona, ficam de queixo caído. E com muito para pensar também.

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