
Durante os dias 21 e 22 de outubro, a Revista Intertelas foi convidada a participar do “Fórum Nuclear Latino-Americano de Jovens: Capacitando a Ação Juvenil com Ciência e Tecnologia Nuclear”, organizado em conjunto pela Rosatom, o Observatório Latino-Americano da Geopolítica da Energia e a Eletronuclear, com o apoio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e do Parquetec-Itaipu. O ano de 2024 está comemorando o 70º aniversário da primeira usina nuclear construída na cidade de Obninsk, na Rússia.
Durante o Fórum, houve debates sobre como a ciência e a tecnologia nucleares trouxeram muitos benefícios para os povos, em especial nas áreas ambiental e da saúde. Contudo, foram feitos também questionamentos sobre o alto investimento que precisa ser realizado para o avanço da construção de usinas nucleares em países que possuem grandes problemas sociais, como também as questões de segurança que tanto preocupam a sociedade brasileira que já sofreu bastante com acidentes nesse campo.
Para aprofundar o debate, a Intertelas teve a oportunidade de conversar com o professor associado I na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), do Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea na América Latina (PPG-ICAL), coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos, Geopolítica e Integração Regional (NEEGI), do Observatório Latino-Americano da Geopolítica da Energia, do Observatório da Geopolítica Energética, do Observatório da Geopolítica da Integração e vice coordenador do Observatório dos BRICS e das Relações Sul-Sul, Lucas Kerr Oliveira. Para além de desfazer mitos sobre o uso da energia nuclear, o também pesquisador salientou a urgência do Brasil e dos demais países da América Latina de retomarem o debate sobre soberania, fortalecimento dos Estados nacionais, segurança energética e, principalmente, de reaprender a barganhar com as potências mundiais em prol dos seus interesses.
Como você avalia a liderança da Rússia na área de energia nuclear e como os países da América Latina poderiam cooperar com os russos nesta área?
A Rússia é um país que tem uma experiência na área nuclear fantástica. Foi o primeiro país a desenvolver usinas nucleares para uso civil, para geração de energia elétrica. A Rosatom, por exemplo, é a maior empresa nuclear do mundo e eles têm interesses em expandir investimentos na América Latina. Há projetos muito interessantes como escolas de formação para a área de engenharia nuclear, no intuito de formar técnicos neste setor. Só para dar um exemplo, no Paraguai, os russos estão investindo em um hospital radiológico na área de medicina nuclear. Há um espaço importante para ser preenchido que, muitas vezes, é negligenciado no Brasil por vários motivos, como culturais e históricos.
Quais as razões da energia nuclear ser tão negligenciada no Brasil? Seriam as questões relacionadas à segurança?
Temos um preconceito muito grande em relação à energia nuclear, pois tivemos acidentes graves no passado. Contudo, é preciso avaliar bem o contexto para não distorcer a percepção sobre o risco das coisas. Por exemplo, a energia termoelétrica, a base de carvão, ainda é a mais gerada no planeta. Os combustíveis fósseis ainda correspondem a mais de 80% da matriz energética mundial. E quando eu digo ainda é porque na primeira crise do petróleo era 95%. Em 50 anos, a gente conseguiu reduzir 15% da matriz energética mundial. No entanto, hoje, consumimos mais do dobro de carvão do que naquela época, porque a matriz energética cresceu.
A quantidade de pessoas que morrem por ano na mineração de carvão no planeta é muito maior do que todas as pessoas que já morreram em todos os acidentes nucleares da história. Se você pensar, por exemplo, em emissão de gases tóxicos como um todo, não só carbono ou metano, as pessoas esquecem muitas vezes, por exemplo, que as termoelétricas, em geral, liberam metais pesados na atmosfera. Porém, não contamos isso como poluição normalmente. Só nos preocupamos com o carbono. O carvão é o grande vilão da poluição global na área de energia. Esta fonte energética libera um monte de metais pesados, inclusive radioativos, na atmosfera o tempo todo. E as pessoas não estão preocupadas com este problema, até nem conhecem este fato.
De qualquer forma, é preciso compreender que todas as atividades humanas são perigosas. A energia nuclear é muito mais segura do que muitas outras fontes energéticas que as pessoas acreditam ser mais seguras. O ciclo de vida da energia nuclear é muito limpo, porque libera pouquíssimos gases estufa, em geral. Pouquíssimos metais pesados vão parar na atmosfera. E o ciclo de controle dos materiais perigosos é super rígido no mundo inteiro. E tem um detalhe que geralmente as pessoas esquecem ou não conhecem, que 90% do material radioativo que sai de uma usina é reciclável.
O problema maior é que se trata de processo caro. Então, há países, como a Suécia, que decidem enterrar seus materiais nucleares e esperar para ver se no futuro vai ser mais barato reciclar. Outra questão, geralmente, em torno de 5 a 10% desse material pode ser reciclado para produção de radioisótopos que são usados em diversas áreas, como medicina, indústria, agricultura e geologia. Atualmente, o Brasil e a América Latina são dependentes da importação de radioisótopos. Estamos perto de sermos 100% dependentes de radioisótopos importados, que são produzidos nos Estados Unidos, na Rússia, na China, no Japão, na Alemanha, na Inglaterra e na França.
Quero aproveitar esta questão de dependência. Creio que ela esteja no centro do debate. Nossa região aderiu à linha neoliberal do Ocidente sem muito refletir sobre isso. Hoje temos setores estratégicos nas mãos do setor privado e até de empresas Estatais estrangeiras. Em um mundo turbulento e conflituoso como o atual, isso me parece algo preocupante para a segurança nacional e regional. Como nós devíamos planejar o nosso futuro no uso dessa fonte energética?
O primeiro passo é buscar mais soberania. É preciso repensar a forma como nós lidamos com a nossa soberania. Há muito tempo a América Latina deixou de pensar sobre este assunto. Nós caímos, entre aspas, desculpa o termo, no conto do vigário. Acreditamos na falácia de que o neoliberalismo e a globalização no estilo estadunidense iam mudar o mundo para melhor. E, na realidade, foi uma catástrofe. Só os estadunidenses e os europeus ganharam com isso. Nós não apenas perdemos 20, 30 anos de tempo, de planejamento, mas nós regredimos em muitas áreas. Eu gosto de citar sempre o caso da indústria naval. Desculpa mudar um pouquinho o assunto. No final do governo Sarney, a indústria naval no Brasil gerava 100 mil empregos.
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No final do governo Fernando Henrique, depois de uma década de neoliberalismo, tinham apenas 3 mil pessoas trabalhando na indústria naval. E então começamos a importar praticamente tudo, até o que produzíamos em casa. Isso é um grande problema, pois ficamos dependentes de engenheiros do exterior. Quem é que vai fazer a manutenção de equipamentos caríssimos? Às vezes, muitos desses equipamentos importados, a manutenção é mais cara do que o próprio equipamento.
Depender de engenheiros estrangeiros, técnicos estrangeiros, é muito arriscado num mundo que não é aquele dos sonhos da globalização neoliberal. O mundo real é onde continuam existindo guerras, sanções entre os países, bloqueios econômicos. Poucos param para pensar sobre isso, mas entregar setores estratégicos para o setor privado é permitir que empresários possam fazer o que quiserem para ter o máximo de lucro possível, e o povo que se vire. E isso é catastrófico.
É importante salientar que não é ser contra estrangeiros, mas nós estamos num momento complicado global.
A questão é puramente estratégica. Temos empresas Estatais estrangeiras fornecendo energia, sendo que temos capacidade técnica, econômica e financeira para fazer isso. Entregar setores estratégicos ou básicos, tipo água, luz, telecomunicações para empresas estrangeiras é um risco absurdo que o país aceitou correr por interesses que não são nacionais. Alguém que diga que está fazendo isso por nacionalismo está mentindo descaradamente, porque isso é a coisa mais antinacional possível. Então, nós precisamos repensar mesmo conceitos básicos: O que é nacional? O que é importante para o povo?
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Hoje estamos vivendo na América Latina e no Brasil uma disputa sobre o conceito de nacionalismo. Na minha visão, o nacionalismo deve ser o que é melhor para a maioria, para o povo e não para uma minoria de milionários e bilionários. Aqueles que chegam a literalmente comprar votos de congressistas parlamentares e políticos por aí afora para aprovar, por exemplo, privatizações completamente desnecessárias. Os ricos não estão verdadeiramente preocupados em acabar com as guerras, eles não estão preocupados em melhorar a vida das pessoas. Por exemplo, há um bilhão de pessoas no mundo passando fome.
E não é falta de comida. Produzimos o suficiente para alimentar de 10 a 12 bilhões de pessoas. Se temos 7 bilhões de habitantes, como é possível ter 1 bilhão de humanos passando fome? O problema é a má distribuição e a desigualdade. As pessoas não têm renda, não conseguem comprar comida e ninguém distribui comida de graça. Quando distribui é em razão de outros interesses. Com a energia, é muito parecido nesse sentido.
Ninguém distribui energia de graça. Toda vez que você investe no setor energético, tem interesses muito claros, ou de lucro, obviamente, ou de longo prazo. Quando uma empresa estrangeira investe em construir redes de energia no Brasil, eles pensam que vão fornecer os transformadores para aquele sistema, aquela rede elétrica, eles vão fornecer as turbinas, eles vão fornecer o serviço de manutenção, que é sempre muito caro. Pensam no que vão ganhar em 20, 30, 50 anos.
Como é que você acredita que deve ser as nossas relações com países que têm grande poder global?
No mínimo é preciso reaprender a barganhar melhor com as grandes potências em geral, porque o Brasil sabia fazer isso no passado. Nós perdemos essa capacidade, eu diria, do ponto de vista político, diplomático, estratégico. Nós passamos a acreditar nesse neoliberalismo da globalização selvagem, de um mundo unipolar, em que os Estados Unidos iam mandar e ninguém mais ia questionar. Aquele conceito sobre fim da história do Fukuyama contaminou a mente das nossas elites políticas, econômicas, estratégicas, intelectuais, até as burocracias críticas. Hoje vemos grupos de militares que defenderam e continuam a defender a privatização de serviços críticos. Energia não é uma coisa que você pode deixar na mão de qualquer um. Se você deixa na mão de um outro país e há conflito mundial, o que pode acontecer?
Isso é uma questão interessante, as grandes potências colocam seus setores estratégicos mas mãos de empresas estrangeiras?
Vou usar o caso do país que mais defendeu o neoliberalismo nos últimos 30 anos, que é os Estados Unidos. Eles bloqueiam investimentos de empresas estrangeiras na área de energia com a maior naturalidade. Tem inclusive uma lei de proteção à segurança nacional para investimentos estrangeiros que permite bloquear qualquer compra de setores estratégicos da área de energia, militar ou de telecomunicações por empresas estrangeiras. A China nesse sentido tem um grau de soberania muito grande, que temos dificuldade de entender às vezes. Isso ocorre porque abandonamos a ideia de soberania e eles fortaleceram tanto que criou uma dissonância cognitiva, digamos assim.
Se já é difícil a gente entender os Estados Unidos que protege os seus setores estratégicos, imagina a China que tem uma preocupação secular, digamos assim, de se recuperar das guerras que eles sofreram, da Guerra do Ópio e a Segunda Guerra Mundial. Um exemplo de país que também vem perdendo soberania é a Alemanha, pois ela fechou seu programa nuclear. A Alemanha está numa situação complicadíssima.
A coligação de partidos que governam o país hoje inclui um partido muito forte, o Partido Verde, que é anti Alemanha. Eles fizeram campanha por décadas contra a questão nuclear em razão da Guerra Fria, o que era até compreensível na época. Contudo, é importante lembrar que estes movimentos foram financiados e apoiados por Inglaterra, França e Estados Unidos, que eram países que nunca quiseram uma Alemanha nuclearizada.
Então, como deve ser, na sua opinião, a nossa cooperação com outros países nesta área da energia nuclear?
Veja, os Estados Unidos têm 140 usinas nucleares, a França tem 60 usinas nucleares, a China hoje tem mais de 70, ou em torno de 70, e está construindo uma por ano. Nós estamos há 40 anos tentando construir Angra 3. Os chineses também têm 10 modelos diferentes de usinas de quarta geração. É para testar mesmo, para ver qual é mais eficiente. Então, são usinas muito mais seguras, muito mais limpas em todos os sentidos, deixam menos resíduo perigoso, como o plutônio. Há usinas que os chineses estão desenvolvendo que usam outros combustíveis nucleares, como tório em vez de urânio, ou misturas de tório com urânio. Essas tecnologias que estão sendo desenvolvidas em outros países, que são de ponta, vão mudar o século XXI como a gente entende até agora.
Então, a nossa relação com as grandes potências tem que ser de barganha, em primeiro lugar. Barganha mesmo, como o Getúlio Vargas fazia, como outros governantes fizeram na nossa história. Barganhar para conseguir transferência tecnológica e implementá-las em programas de longo prazo. Para tanto, precisamos reaprender a defender os nossos próprios interesses, que é um problemão para o Brasil hoje. E os países que querem cooperar conosco são os países do Sul Global, do sul geopolítico, se você preferir chamar. São os países dos BRICS, por exemplo. Que também enfrentam problemas de embargos tecnológicos e econômicos. São os países que estão desenvolvendo tecnologia por conta própria, justamente para fugir dos bloqueios, dos embargos e outras restrições técnicas e tecnológicas que as grandes potências impõem a todo o resto do mundo.
Acha que é possível cooperar com países como China e Rússia, sem repetir o histórico de exploração como ocorreu com os EUA e a Europa Ocidental?
É possível sim. São países que têm uma experiência muito grande em transferir tecnologia para outros. As experiências da Rússia e da China, nesse sentido, são fantásticas. E acredito que eles vão transferir tecnologia, mas precisamos mudar nossa postura. Afinal, a Rússia só vai transferir tecnologia nuclear se tivermos um planejamento para construir umas dez usinas nucleares pelo menos aqui, o que era o plano com a Alemanha lá atrás. Contudo, o acordo foi sabotado, de cima a baixo. De qualquer forma, é preciso pensar em acordos desse tipo com os países que estão na ponta do desenvolvimento tecnológico. E esses países não são a Inglaterra, a França, ou a Alemanha.
A China forma hoje cinco vezes mais engenheiros por ano que os Estados Unidos. É preciso conseguir a tecnologia de outros países e ter controle sobre ela. Nós não podemos cometer o mesmo erro de Angra 1. Nesse caso, simplesmente importamos uma usina pronta e os estadunidenses não transferiram tecnologia. É preciso ter controle dos recursos humanos, da formação de pessoal, fazer investimentos maciços em educação, em ciência e tecnologia, em inovação, que a gente não está fazendo. O que não falta é gente criativa nesse país e nessa região. Há muita gente inteligente, com boas ideias. O que nos falta muitas vezes é soberania.

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