
“Precisamos estudar a origem e as características da civilização e da cultura chinesas e formar um sistema abrangente de ideias enraizadas na cultura chinesa.” (“The Governance of China IV, Xi Jinping, pag. 359.)
Yi, 易, Mutação, a origem
Um trecho do Baihu tongyi (白虎通义), obra do historiador e poeta Ban Gu 班固 (Fuleng, 32-Luoyang, 92 e.c.), descreve o contexto e o evento extraordinário que deu origem à civilização e Cultura na China. “Àquela época, as pessoas viviam sem regras morais e não havia laços familiares. Vestiam-se com peles de animais. Viviam como animais. Caçavam quando tinham fome. Consumiam pele e sangue de suas presas. Abandonavam o que sobrava pois não sabiam como os manter”.
Era assim quando um ser celestial, Fuxi, 伏羲, primeiro Herói Fundador, veio ajudar essa comunidade de homo pré-sapiens na região da atual província de Gansu, para que se tornassem homo sapiens. Seus corpos já os havia distinguido dos demais hominídeos. Estavam fisicamente prontos. Faltava-lhes o saber. O que a expressão “ser celestial” simboliza ao referir a Fuxi? Símbolos reúnem significados para gerar descobertas que transcendem os significados utilizados como meio. Um provérbio antigo diz: “O sábio aponta a lua, o tolo olha o dedo”.

Alguns significados do caracter Fu伏 (deitar, prostrar-se, submeter-se) sugerem o sentido de “profundezas”, “fundamento”. Alguns significados de Xi 羲 (luz solar e vapor) sugerem o efeito da luz solar ao transformar o mais denso no mais sutil. Ou seja, podemos compreender Fuxi como uma forma da vida que nos transcende, e se manifestou em nível sutil, não denso como o que chamamos de corpo físico. E o fez com propósitos educativos. A intenção e ação de Fuxi milênios depois inspiraria o ideal Chinês de liderança Benigna que abordaremos no próximo artigo. Fuxi ensinou os homo pré-sapiens a sair das cavernas e construir moradas. Ensinou-os a cozinhar alimentos. Ensinou-os a pescar com rede e anzol, a caçar com arco e flecha. Ensinou-os a reconhecer o pai.
Os ensinamentos de Fuxi começavam a abrir espaços de escolhas que os instintos já não alcançavam. O instinto de sobrevivência assegura aos animais reconhecer a mãe, pois sacia a fome. Fuxi percebeu que precisava prover, aos que saiam gradualmente da condição de homo pré-sapiens, um modo de se orientarem para que, em suas escolhas, pudessem se mover em harmonia com o modelo Celeste, tal como se movem as quatro estações na terra em correspondência com o movimento dos astros no Céu. Fuxi então ergueu seu olhar ao Céu e viu oito trigramas, conjuntos de linhas inteiras e partidas combinadas por superposição, Baguá八卦, e as viu combinadas entre si por superposição em sessenta e quatro hexagramas. Em seguida Fuxi baixou seu olhar à terra, e viu que os Guá tornavam compreensível a aparição, a duração mutante, e a desaparição das aparências que chamamos de fenômenos.
Fuxi entregou o que hoje sabemos ser o primeiro código binário, as figuras lineares, Guá, 卦, aos homo pré-sapiens para ajudá-los a se tornarem sapiens. Assim o modelo Celeste seguiria a orientar os que buscam fazer escolhas em harmonia com a vida que nos transcende, nos perpassa, e também nos responsabiliza ante as formas que nos precedem: outros animais que ainda não se conscientizaram do Céu, vegetais, e minerais. A Cultura Chinesa nasceu em harmonia com a natureza, ou seja ecológica.

A origem da Cultura Chinesa é misteriosa pois surgiu antes da escrita, com algo ainda mais complexo, o primeiro código binário. Milênios depois, quando surgiu a escrita, cunharam um caracter para escrever o nome do código binário: Yi, 易, Mutação. A etimologia do caracter Yi é controvertida. Alguns estudiosos defendem que o caracter Yi surgiu do desenho de camaleão por mimetismo, e agilidade de movimento dos lagartos. Outros sustentam que surgiu com a combinação do caracter sol acima e abaixo nuvens. Há várias hipóteses. Escolho seguir os estudiosos que defendem a hipótese de que a parte superior do caracter Yi, 易, corresponda ao Sol 日e a parte inferior derive do caracter Lua 月.
O primeiro trigrama, Qián乾, Céu, função de paternidade, tem como principais atributos força, criatividade, luz, e é associado ao Sol. O segundo trigrama, Kūn坤 , Terra, função de maternidade, tem como principais atributos maleabilidade, receber, acolher, e é associado à lua que não tem luz própria, reflete em fria claridade, a luz que recebe do sol. O significado de Mutação viria do movimento recorrente no céu do Sol e da Lua, e o movimento recorrente na terra dos dias e das noites.
O mesmo código binário Chinês, Mutação, Yi, 易, muitos milênios depois inspirou Leibniz a concluir a versão que, no sempre mutante aqui-agora, comanda os algoritmos que fazem aparecer o texto na tela do computador enquanto o digito. Num outro aqui-agora, o código binário comanda os algoritmos para que o mesmo texto apareça na tela em que você, meu caro amigo desconhecido, lê no seu aqui-agora o que foi escrito no meu aqui-agora. E você verá também abaixo a mesma imagem que Leibniz viu no aqui-agora em que ele vivia no ano de 1701, enviada da China pelo amigo Padre Joachim Bouvet. Na instantaneidade irreversível do aqui-agora fluem aparências mutantes. Não há algo ou alguém que mude, só há mutação. A mutação é imutável.
“O Dao que é o Dao não é o Dao.”
Laozi

O arranjo dos hexagramas em círculo refere ao Céu, simbolizado pela forma como percebemos o que chamamos de abóboda celeste. O arranjo no quadrado refere à Terra simbolizada pela forma que surge da interligação dos pontos cardeais. Funções e nomes atribuídos aos trigramas e hexagramas surgiram milênios depois das figuras lineares, já na Dinastia Zhou (1046-256 a.e.c.). As funções dos trigramas são interdependentes. Só existe paternidade se existir maternidade e vice versa. Se existe paternidade-maternidade, existe filiação e vice versa. A interdependência dos opostos expressa no símbolo gráfico do Yin Yang deriva do Yi.
A combinação de linhas inteiras e partidas por superposição descreve dois movimentos primordiais. O primeiro é o movimento do Céu acima que desce para ajudar o que surge na terra a subir. Assim Fuxi, um ser celestial, desceu para trazer o Yi para os homo pré-sapiens terráqueos ascenderem ao saber que desconheciam. O segundo movimento responde ao primeiro e busca galgar acima a fonte do saber. O que está abaixo evolui ao se mover em direção ao alto. O homo pré-sapiens já havia conquistado a verticalidade física quando recebeu de um ser celestial a escada da ascensão cognitiva.

Fuxi, 伏羲 preparava a comunidade de homo pré-sapiens não apenas para a etapa em que ingressavam. O código binário contêm todo o caminho para as etapas adiante. Caçadores-pescadores-coletores ainda não sabiam que traziam em si as possibilidades de seus próprios mutantes futuros. Eram dependentes de achar o alimento que necessitavam. Não sabiam que poderiam produzi-lo. Esse potencial estava latente. A primeira chave para a descoberta da presença interna do futuro ainda oculto no mundo interior é a relação entre os dois trigramas básicos que formam um hexagrama. Cultivar o futuro será ensinamento que começará mais tarde com o segundo Herói Fundador, Shénnóng 神农.
As linhas que vemos num hexagrama estão em movimento. Elas entram nos hexagramas pelo portal da primeira posição, movem-se em direção ao alto, e saem pelo portal de saída na sexta e última posição. As linhas um, dois e três (à contar de baixo para cima) formam a etapa do mundo interno. As linhas quatro, cinco e seis formam o mundo exterior. Sementes germinam protegidas e nutridas no interior da terra. No abrigo da obscuridade deitam suas primeiras raízes. Lentamente o talo cresce e ascende. A semente precisa cumprir a fase de sua germinação no resguardo, para poder surgir ao mundo exterior quando estiver pronta para sol, vento e chuva.
Os líderes que assumiram pela vontade do povo o governo da Republica Popular da China em 1 de outubro de 1949 fecharam o país para o proteger durante a delicada e arriscada etapa de cultivo interior (correspondente as posições um, dois e três dos hexagramas) após cem anos de humilhação decorrentes da derrota na Guerra do Ópio e tratados injustos impostos pelos vencedores. Cada uma das três primeiras posições do mundo interno exigiu uma década. A transição da terceira para a quarta posição coube a Deng Xiaoping com Reforma e Abertura. A origem, o Yi, inspirou e seguirá a inspirar o futuro do povo Chinês e seus líderes.
“Na velhice, Confúcio havia lido tantas vezes o Livro das Mutações (Zhou Yi) que a corda de couro que amarrava as tiras de bambu reunidas no livro, três vezes arrebentaram.”
(“A governança da China”, Xi Jinping, nota 4, pag. 74)
Incontáveis gerações de caçadores-pescadores-coletores educaram seus filhos transmitindo oralmente o Yi. Com o significado das figuras geométricas e episódios cruciais de suas próprias vidas compartilhavam o que o Yi lhes havia ensinado em alegrias e sofrimentos.
“Às vezes toca o tambor, às vezes para. Às vezes chora, às vezes canta.”
(I Ching, Richard Wilhelm, linha na terceira posição, Hexagrama 61, Verdade Interior, Zhōng Fú 中孚,ed. Pensamento).
Os caçadores-pescadores-coletores eram predadores fadados ao nomadismo. Onde paravam, logo a caça aprendia a temê-los e fugia. Nômades só contemplam terras sem memória. Suas memórias sempre estão onde eles não estão. Lá onde estiveram, só há memórias de instantes. Não há o lugar da infância nem do envelhecer. Nômades conhecem só o vagar. Desconhecem o ficar. Nômades são estrangeiros desde que nascem até quando morrem. São enterrados sem lápide. Parentes e amigos seguirão caminho sem volta. Quem não se enraíza não planta pomar.
“O viajante não tem morada fixa, seu lar é a estrada”.
(I Ching, Richard Wilhelm, pag. 172, hexagrama 56, Viajante, Lǚ旅, ed. Pensamento.)
Quando o ciclo da primeira aprendizagem se completou, surgiu o segundo Herói Fundador, Shénnóng 神农. Alguns significados do caracter Shén 神 (Deus, divindade, divino) sugerem uma forma de manifestação da vida que nos transcende. Nóng 农 designa quem trabalha no campo, na roça, os campônios. O Divino Agricultor veio ensinar a amar a terra que retribui o cuidado que os campônios lhe dedicam com dadivosos alimentos que sustentam saúde e vida para ele e a família. Shénnóng ensinou agricultura aos homo pré-sapiens.
Criou o calendário, o mesmo que até hoje determina a data variável do Ano Novo Chinês, e dos festivais que celebram eventos magnos da vida em mutação, como os Solstícios e os Equinócios. Ensinou a cavar poços e irrigar plantações. Água é essencial aos vegetais, animais, entre os quais o homo que aspira se tornar sapiens. Para nos ajudar criou também a enxada e o arado. Graças aos ensinamentos de Shénnóng os agricultores descobriram um vigor que antes desconheciam, a alegria da labuta. O trabalho gera por mérito aquilo que a sorte não alcança. O agricultor descobre gratidão à vida que doa em proporção harmônica o que ele não pode prover, sol e chuva.
Quando a vida não lhe pode prover sol e chuva em proporção harmônica, o agricultor humilde descobre seus erros e os corrige. O Mandato do Céu já estava em embrião, milênios antes dos fundadores da Dinastia Zhou o formularem. O uso de recursos não renováveis, como combustíveis fósseis em nada menos que a matriz energética, mostra que a civilização contemporânea, com todos os seus avanços, ainda é predadora, ainda não realizou plenamente a ecocivilização que Shénnóng nos ensinou.
“Devemos trabalhar juntos em busca da ecocivilização global. O meio ambiente diz respeito ao futuro da humanidade.”
(Governança da China III, Xi Jinping, pag. 470.)
Com a agricultura, as comunidades descobriram o que chamamos de terra natal: amor e gratidão pelo lugar onde nascemos, crescemos e vivemos. As primeiras vivências ensinam por toda a vida. A agricultura ama paz. Campo é o lugar de gerar alimento. É o lugar onde filhos ajudam pais a produzir prosperidade. Campo de batalha destrói vidas. É o lugar onde filhos matam filhos e destroem a prosperidade criada durante a paz. Shénnóng 神农ensinou a construir mercados onde as comunidades podiam comerciar seus excedentes de produção. Para facilitar o comércio, criou também o dinheiro. Moedas de cobre fundido eram usadas na China já no século XI a.e.c.
Shénnóng 神农 ensinou também como usar 365 ervas medicinais, agulhas e fogo (acupuntura e moxabustão) para preservar a saúde e recuperá-la quando nos falta. Nascia a Medicina Tradicional Chinesa que segue agora a evoluir com novas tecnologias. Faz mais de um século que as antiquíssimas Fórmulas Magistrais começaram a ser produzidas em glóbulos. Agora existem aparelhos para avaliação do pulso e diagnóstico. Hoje IA recupera informações de anamnese e diagnósticos registrados por médicos Chineses ao longo de milênios. Mudam as formas, surgem novas compreensões dos princípios imutáveis da Mutação.
Quando o ciclo da segunda aprendizagem se completou surgiu o terceiro Herói Fundador, Huangdi, 黄帝, para ensinar as comunidades os princípios do que chamamos Governo. O significado do caracter Huang 黄 “amarelo”, além de designar a cor, indica sua relação com a fonte da vida, o sol. Na tradição que relacionava cores aos cardeais (Wu Fang Zheng Se五方正色), o amarelo era a cor do centro, associado ao sol. O significado original do caracter Di 帝 Suprema Divindade, indica a mesma dimensão da vida que nos transcende, tal como em Fuxi e Shénnong.

Pontos cardeais surgem para quem identifica Leste e Oeste. Quem localiza os dois, descobre um outro, o Norte está adiante. Por consequência sabe que atrás está o sul, e assim completa o quadrilátero que desvela onde agora ele está, o centro. Quem assim organiza o espaço ao se centrar, pode ter rumo. Por isso se diz que Huangdi tinha uma carruagem que apontava para o sul. Governo supõe liderança que sustente o centro no curso da Mutação, e ajude a organizar os esforços para realização das tarefas que visam o bem comum. Huangdi criou as primeiras estruturas de governo, com seus cargos, para que os esforços que visam beneficiar a todos fossem coordenados e se tornassem eficazes.
No mesmo sentido de organizar o espaço habitado pelas comunidades, Huangdi criou o que chamamos de urbanismo. Cidades passaram a ser projetadas e depois construídas. Antes surgiam por mera aglomeração circunstancial. O projeto urbanístico começava na locação do espaço, segundo os pontos cardeais, para que liderança e povo vivessem voltados para o curso da eclíptica, estrada celeste onde se move a fonte de luz e vida, o sol. Insatisfeito com as limitações do sistema de preservar informações e registros com nós em cordas, Huangdi pediu ao historiador oficial, Cangjie 倉頡 que criasse um sistema de escrita.
Cangjie foi trabalhar à beira de um rio. Dia e noite as águas corriam. Tempo e esforço empenhados transcorriam, e nem sequer um caracter aparecia. Um dia Cangjie caminhava quando viu uma fênix, Fènghuáng, 凤凰, ave auspiciosa das cinco virtudes: 1. Ren, 仁, Benevolência. 2. Yi, 義Honestidade. 3. Zhi, 智Sabedoria. 4. Xin, 信Mente Confiante. 5. Li, 禮Conduta Correta. Ao sobrevoar o caminhante, a fênix deixou cair diante dele o que trazia em seu bico. Cangjie recolheu pequena placa na qual viu a marca da pata de um animal que ele não conhecia. Seguiu a caminhar levando consigo o enigma que o Céu lhe enviou.

Não tardou e na estrada adiante encontrou um caçador experiente que, ao ver a marca, reconheceu o que Cangjie desconhecia. Era marca do Píxiū, 貔貅, poderoso animal protetor dos mortos e atractor da riqueza que vem de todas as direções. Cangjie e o caçador tornaram-se amigos graças a animada conversa entretida na estrada do Dao 道 em que juntos caminhavam. Cangjie, um erudito, historiador oficial do Divino Agricultor, não sabia o que lhe ensinou um caçador. Duas pessoas conseguem o que uma só não alcança. Todos temos algo a aprender uns com os outros.
Inspirado pela dádiva Celeste, e pelo que aprendeu com o caçador, Cangjie percebeu que bastava pintar a “marca” característica de cada fenômeno e teria o caracter com o qual seria escrito. Na escrita Chinesa ver e saber nasceram amigos. Em pouco tempo Cangjie conseguiu entregar a Huangdi o tesouro que veio de todas as direções, riqueza inesgotável que cresce quanto mais se usa: os caracteres da escrita Chinesa. A escrita ideogramática gerou um pensar ímpar que reúne imagem e abstração. Mostra visível o sentido invisível que transmite. Escritas fonográficas, nos signos visíveis indicam apenas a forma de vocalização da palavra no idioma de uma Cultura. O significado será concluído por processo de abstração.
Desde quando Martin Heidegger escreveu “A linguagem é a casa do ser em cuja habitação mora o dasein” (Carta sobre o Humanismo, 1947), nenhum estudioso de seu pensamento pode ver imagem de uma casa na frase lida no original em alemão, nem em qualquer versão para línguas fonográficas, inclusive o português em que esse texto é escrito. Caso o presente artigo venha a ser traduzido para Chinês, a magia da aparição ocorrerá.

Somar aprendizagens faz prosperar saberes. O diálogo entre Leste e Oeste, entre Norte e Sul, fará nascer a Cultura da Humanidade, na qual todos os povos aprenderão uns com os outros. Os diferentes se somarão, ao invés de se dividirem. Pretensões de superioridade de uma Cultura sobre outra são desejos hegemônicos, ilusões que geram conflitos, e empobrecem diálogos. A tarefa que os ensinamentos de Huandi nos trouxe ainda requer superarmos o hegemonismo.
A transição da Cultura oral para a escrita é marco divisor de águas. No caso da China, conhecimentos acumulados oralmente nos milênios anteriores, transmitidos pelos pais aos filhos, puderam ser escritos. Começaram a nascer as obras que um dia, no século VI a.e.c. Confúcio e sua escola chamariam de “Clássicos”.
Um diálogo entre Huangdi 黄帝内经 e seu Ministro e médico, Qi Bo 岐伯, deu origem ao primeiro Tratado de Medicina Tradicional Chinesa, o Huangdi Neijing 黄帝内经.
Mesmo após a criação da escrita, o código binário Yi, formado pelos trigramas e hexagramas, seguiu em transmissão oral. Os primeiros textos acrescentados aos trigramas e hexagramas foram poemas associados aos Guá, 卦. Assim surgiu o livro Zhōu Yi, 周易. Há controvérsia sobre a autoria dos poemas. Quinhentos anos depois, Confúcio e sua escola acrescentaram comentários ao Zhou Yi nos quais analisavam os poemas, as figuras geométricas e as linhas.
Essa obra foi incluída pela escola Confucionista nos cinco Clássicos, Wujing, 五經 compêndios que reúnem textos da antiguidade coletados por Confúcio durante sua vida. Surgiu assim a obra que perdura até a atualidade, o Yijing, 易經, o Clássico das Mutações. Nas antigas bibliotecas Chinesas, era o primeiro livro. Voltar à sua fonte originária, nos ajudará a entender a continuidade da sempre mutante Cultura da China. Assim como o presente é filho do passado e pai do futuro, a compreensão do que move o presente pode nos ajudar também a pensar para onde ruma o futuro. Em ameixeiras só nascem ameixas. Nunca as mesmas. Cada safra tem seu sabor.
Gustavo Pinto
Formado em Filosofia pela PUC-RJ e tradutor do “I Ching”. É autor dos livros “Relâmpagos”, “Gotas de Orvalho”, “Rito da Montanha Sagrada” e “Astrologia e Budismo”

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