Não se joga bola em Gaza

Bandeiras russas exibidas por torcedores na partida do Grupo C da Euro 2024 entre Sérvia e Inglaterra, em 16 de junho de 2024. Crédito: Aleksei Filippov/Sputnik.

Os padrões duplos do Ocidente são bem conhecidos nas relações internacionais. Quando falam de Direitos Humanos em países do Sul Global, quase sempre usam essas discussões para deslegitimar governos que são contrários aos seus interesses. Enquanto sua população carece de direitos básicos, como assistência médica e moradia digna, os mesmos países ocidentais se veem no direito de criticar práticas consideradas pouco democráticas de acordo com sua visão eurocêntrica.

Os exemplos se multiplicam: criticam o Brasil pela tentativa de regular as big techs, enquanto cassam o direito de jornalistas atuarem junto a departamentos governamentais; argumentam que a imprensa na China não é livre, enquanto dezenas de países proíbem a atuação de veículos russos de informação. Assim, para os observadores mais atentos, é óbvio que não é séria a preocupação desses países ricos com a população do mundo.

Um desses casos, porém, chamou a atenção pelo fato de ter sido acompanhado por pessoas que, a princípio, não seguem os noticiários das relações internacionais: a exclusão da Rússia das competições esportivas. Copa do Mundo, Olimpíadas, campeonatos de futebol continentais, entre outros. Até mesmo a transmissão do Campeonato Russo foi simplesmente extinta da televisão brasileira. A Rede Bandeirantes cessou a reprodução dos jogos de um campeonato recheado de atletas brasileiros e se recusa a negociar os direitos de transmissão para outro canal. Porém, a pergunta que fica é a seguinte: onde estava o escândalo internacional contra atletas de países envolvidos em conflitos no momento em que EUA e Europa atacavam Iraque e Afeganistão?

Talvez essas questões estejam distantes demais da memória do grande público. Vinte anos se passaram e muitas notícias soterraram a nossa capacidade de analisar fatos no longo prazo. Mas um ponto é atual e digno de nota e revolta: por que Israel segue competindo com seus atletas normalmente quando promove a maior barbárie do século XXI, enquanto os desportistas russos são punidos como se fossem os executores da guerra contra a Ucrânia? Não é nossa intenção fazer uma análise sobre a legitimidade do ataque russo contra um país que o gigante euroasiático alega ter se tornado uma ameaça contra seus cidadãos. Nossa discussão é sobre o duplo padrão do Ocidente. Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a (minha) lei.

Suspensão russa por doping acaba, mas país segue punido pela guerra“. Essa foi a manchete de uma notícia do GE, site esportivo do grupo Globo, publicada no dia 19 de dezembro de 2022. Tal suspensão foi homologada em dezembro de 2017, após escândalos de manipulação por parte dos russos nos controles antidoping. O ponto principal desse artigo não é esse, mas é preciso traçarmos uma linha do tempo para entendermos, ou ao menos tentarmos, os moldes atuais da punição ao país eslavo.

Durante a penalidade por escândalos de doping, os atletas russos disputaram as Olimpíadas e Paralimpíadas de Tóquio, em 2021 e os Jogos Olímpicos de Inverno da China, em 2022, embora não pudessem utilizar uniformes e bandeira oficial do país. Uma forma de “você (atleta) pode jogar, mas sem estampar o lugar de onde vem“. Ao fim desta punição, outra ganhou força. Desde fevereiro de 2022, quando a guerra contra a Ucrânia tomou maior proporção, a Rússia foi alvo de sanções de grande parte das Federações Internacionais. Tais sanções eram ainda mais rígidas que àquelas que foram impostas em 2017, há 8 anos. Desta vez, nem com bandeiras neutras os atletas russos poderiam competir. 

Além dos esportes olímpicos, um dos fatores que mais chamam a atenção são a ausência da Seleção Russa nas classificatórias da Copa do Mundo; o ostracismo que clubes russos enfrentam (Zenit e Spartak Moscou, por exemplo) e a definição de “acabou com a carreira” quando um jogador brasileiro se transfere para um clube russo. O motivo? A mesma punição que os atletas olímpicos e paralímpicos russos também serviu para o esporte mais conhecido no mundo. 

Os clubes russos não jogam mais as competições da UEFA (Champions, Europa League e Conference), assim como a Seleção está proibida de participar de qualquer competição oficial. Por isso, após a Copa do Mundo de 2018, realizada no país eslavo, o esquecimento tomou conta. Eurocopa? Impedida de participar. Eliminatórias da Copa do Mundo? Muito menos. Desde 2022, os jogadores de futebol russos não sabem o que é sentir orgulho de vestir a camisa da seleção e disputar uma partida oficial.

O acesso ao Campeonato Russo é quase zero. Jogadores que saíram do Brasil para jogar no futebol russo,  como Luiz Henrique, ex-Botafogo, são tratados como mercenários e burros. Porque, em tese, jogaram a carreira fora. É fato que o Zenit, principal clube do futebol russo na atualidade, tem um poder financeiro superior aos clubes brasileiros. Por isso, logicamente, os salários na Rússia são maiores. Para se ter uma noção, Gerson, jogador de Seleção Brasileira e ex-jogador do Flamengo, recebe R$ 6 milhões por mês

O “jogar a carreira fora” parte de um ponto principal e que foi citado no parágrafo anterior: quase ninguém assiste aos jogos dos clubes russos, haja vista que só podem participar dos campeonatos nacionais. Antes, quando disputavam os torneios da UEFA, essa opinião não era tão dominante. A questão é uma só: Por que apenas a Rússia sofre com punições? Seria o lado ocidental, mais uma vez, tendo mais forças em campos geopolíticos e esportivos? Nós sabemos a resposta e isso não é novidade para ninguém. Os Estados Unidos nunca receberam punições parecidas. Será que os ataques a Paquistão, Afeganistão, Líbia, Irã, entre outros países, são esquecidos? Provavelmente sim.

Porém, os dados que trazem mais de 65.000 mortos, a maioria civis, 165.000 feridos, fome e desnutrição não podem e não serão esquecidos. Sabem de onde vem esses números? Uma dica: não tem relação com a Rússia. Essas estatísticas vêm da Faixa de Gaza, onde, desde 7 de outubro de 2023, palestinos são cruelmente assassinados e torturados pelas forças israelenses. E aqui fica um questionamento para você, leitor: Israel sofreu alguma punição esportivamente falando?

Se você leu até aqui, a resposta é óbvia. Atualmente, a Seleção de Israel é a terceira colocada do grupo I (i) das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026, que, por coincidência ou não, terá jogos nos Estados Unidos. Nesses grupos, o primeiro lugar se classifica direto para a competição mais desejada do mundo. Já o segundo passa por uma repescagem, o destino mais provável de Israel. Tendo isso em vista, o porta-voz do Congresso da Espanha, Patxi López, anunciou, no dia 16 de setembro de 2025, que o país europeu pode desistir da Copa do Mundo 2026, caso Israel se classifique para a competição mundial. “O que queremos é que, se as equipes israelenses não puderem participar de eventos esportivos, algumas pessoas comecem a abrir os olhos. Porque, claro, os nossos estão abertas e não toleram o que veem”, declarou. 

Além disso, recentemente, o portal BBC Sport noticiou que 48 atletas assinaram uma petição que pede a exclusão de Israel de todas as competições internacionais. Paul Pogba (Monaco) e Hakimi (Paris Saint-Germain), são os mais conhecidos. Seguindo o raciocínio de Patxi, é bom que algumas pessoas comecem a abrir os olhos. Os nossos já estão. 

A dubiedade em que os países do Ocidente construíram (e mantém) as relações internacionais tem ramificações em todos os aspectos políticos e econômicos. Da alta tecnologia informacional até o futebol, que encanta meninos e meninas pobres do mundo inteiro. Os brasileiros precisam reconhecer os indícios de que, em caso de se posicionar contra os interesses da hegemonia burguesa euro-atlântica, estará da mesma forma aberto a ataques como estes. Resta saber como queremos nos posicionar no segundo quartel do século XXI: como potência soberana ou satélite de Estados decadentes.

Vinícius da Silva Ramos
Doutor em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisador do Integralismo e da II Guerra Mundial. Autor do livro “Páginas verdes de uma imprensa marrom”.

Cauê Rodrigues
Estudante de jornalismo pela UFRRJ, cronista esportivo e fundador do “Colina 1927”.

Deixe seu comentário

Acima ↑

Descubra mais sobre Revista Intertelas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading