
A 27ª edição do Festival do Rio entra na sua reta afinal. Durante essa semana, a capital carioca festejou o audiovisual e as diversas possibilidades que este setor promove para a economia e os laços culturais entre os povos. A China mais uma vez marcou presença no RioMarket, espaço de negócios do festival, com a Cerimônia de Lançamento dos Programas de Cinema e Televisão de Alta Qualidade do China Media Group (CMG) no Brasil e a Conferência de Promoção dos Filmes de Alta Qualidade do CMG no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, que foram realizadas na sexta-feira do dia 3 de outubro de 2025 e apresentadas pela atriz Tatiana Dangelloe por seu colega André Lemos.
Assim, durante o festival, ocorreu a quinta temporada de exibições de obras chinesas. Neste ano foram 11 produções com legendas em português, cujas temáticas focaram no desenvolvimento do país asiático, sua cultura e artes, além do cotidiano das pessoas daquele povo. Entre os títulos destacaram-se: “A afinidade cultural de Xi Jinping”, “O Caminho Chinês para a Modernização”, “Paisagens”, “Belas Artes na China II”, “A Música das Pinturas: Instrumentos Musicais de Dunhuang” e “Três Refeições, Quatro Estações”, todos lançados em plataformas de mídia tradicionais, como o Box Media Group do Brasil. “O objetivo desse evento é mostrar a alta qualidade da programação de TV da China e filmes para o público brasileiro. Isso é de extrema importância para o intercâmbio cultural sino-brasileiro e para a troca de conhecimento entre os dois países”, disse à Intertelas o diretor da produtora Cultural Bridge e idealizador da Mostra de Cinema ChinaBrasil no Rio, Arthur Chen.
No lançamento, também ocorreu ainda a cerimônia de troca de acordos de cooperação entre o CMG e o Box Media Group para a exibição de conteúdos audiovisuais. Em entrevista à Intertelas, o vice-diretor do Centro de Dublagem de TV e Cinema da China Media Group, Guangwei WEN, também praticante de caligrafia chinesa e cujo trabalho artístico foi apresentado ao público presente no dia 3 de outubro, disse que nos últimos anos a CMG empregou muitos esforços nos intercâmbios audiovisuais com o Brasil e a América Latina. “Esses intercâmbios são um passo importante para concretizarmos o apelo que está no acordo iniciado pelo presidente Xi Jinping. No ano passado, quando o presidente visitou o Brasil, foi firmado um acordo entre os dois países sobre o intercâmbio cultural, em que consta o programa ‘The Bond’, iniciativa que integra o Projeto de Aproximação entre os Povos. Parte dessa medida é de responsabilidade do CMG”.
Ainda de acordo com Guangwei WEN, para além do intercâmbio audiovisual, é possível considerar o intercâmbio de mídias. “Por exemplo, podemos mandar uma delegação de jornalistas de cada país para conhecer mais profundamente a cultura e a vida cotidiana do outro povo. Ainda temos as áreas que exploram as possibilidades de cooperação como literatura, revistas, esporte e ainda a caligrafia chinesa que é uma das artes que mais representam a cultura da China”.
Segundo Guangwei WEN, os caracteres chineses são mais quadrados, mas através da caligrafia é possível consegue sentir as linhas, as curvas das palavras. “Um dos tipo de caligrafia chinesa se chama Cǎoshū (草書) (estilo que emprega o caractere na forma cursiva, caracterizada por traços fluidos e simplificados que se conectam). Através dessa forma de escrever consegue-se sentir a beleza estética dos caracteres”. Ainda quando questionado sobre onde as culturas brasileira e chinesa se encontram, Guangwei WEN afirmou que são dois países com histórias ricas, mesmo estando em dois hemisférios diferentes. “Há muitos pontos em comum. E o ponto que mais chama atenção é que os povos dos dois países amam e tem esperança de construir uma vida melhor”.
O Ano da Cultura China Brasil
Nessa linha de pensamento, a cônsul geral da China no Rio, Tian Min, destacou que o audiovisual é uma janela importante para o intercâmbio cultural e, ao mesmo tempo, uma sólida ponte para uma aproximação entre os povos. “Em maio deste ano, o presidente Xi Jinping anunciou na cerimônia de abertura da 4ª Reunião Ministerial do Fórum China-CELAC cinco grandes iniciativas para a construção conjunta da comunidade de destino comum China/América Latina. Uma das medidas é realizar a mostra de audiovisual, para apresentar anualmente 10 excelentes séries de TV e programações audiovisuais na região latino-americana”.

Conforme a diplomata o evento da CMG no Festival do Rio desse ano é uma prática dessa iniciativa no Brasil. Nas palavras dela, desde 2021, a temporada de exibição de audiovisuais chineses tem sido realizada no país sul-americano por quatro anos consecutivos, apresentando mais de 40 obras, amplamente acolhidas pelo público local. “Através das imagens o público brasileiro pode apreciar não apenas as magníficas paisagens da China, sua cultura tradicional e sua fisionomia contemporânea, como também sentir as emoções e aspirações comuns dos dois povos. As obras audiovisuais com sua linguagem artística singular apresentam histórias, realidades e sentimentos de diferentes países em uma mesma tela, permitindo que os espectadores, mesmo distantes, experimente uma ressonância espiritual”.
Para Tian Min, o intercâmbio cultural entre a China e o Brasil encontra-se em um novo ponto de partida. “Em 2026, será celebrado o ‘Ano da Cultura China Brasil’ que será o maior, mais diversificado e mais abrangente evento cultural desde o estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países. Na ocasião mais obras artísticas da China e do Brasil ocuparão as telas e palcos de ambos os países”.
Para o diretor do CMG, Zhu Boying, a parceria estratégica global entre os dois países aprofunda-se cada vez mais. Ele lembrou que, em 2024, China e Brasil celebraram 50 anos de relações diplomáticas e que os presidentes Xi Jinping e Luiz Inácio Lula da Silva, nas relações bilaterais, iniciaram uma nova fase áurea ao abrir o capítulo da comunidade de futuro compartilhado. “Para implementar o consenso alcançado pelos dois presidentes e aproximar os nossos povos, a CMG trabalha com parceiros brasileiros da mídia e da cultura. Nossas relações buscam dar nova energia aos intercâmbios culturais e às relações econômicas e comerciais”.
Segundo ele, durante a visita do presidente Xi ao Brasil em 2024, a CMG assinou memorandos e acordos com o Ministério da Cultura do Brasil, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência e a Empresa Brasileira de Comunicação. “Esses documentos criaram uma garantia sólida para cooperação, produção audiovisual, exibição de programas e intercâmbio jornalístico. Na mesma época, lançamos em São Paulo a exibição de filmes e séries selecionados no CMG. Durante a visita do presidente Lula à China em maio deste ano, o CMG assinou novos acordos com instituições brasileiras para criar mecanismos institucionalizados de cooperação e coprodução de conteúdo. Assim, a cooperação audiovisual entre China e Brasil entra em uma fase mais sistemática e profunda”.

Construindo uma ponte de compreensão e amizade mútua
Tal cooperação teve impacto significativo em como os brasileiros percebem a China. Nas palavras da head de aquisições e parcerias internacionais do Box Brazil Media Group, Cláudia Dreyer, há seis anos, o país asiático parecia um outro planeta que está longe demais. “Hoje, não apenas eu, mas vejo que o público brasileiro se aproxima, entende e compreende melhor a China, a cultura chinesa e o desenvolvimento tecnológico chinês com a ajuda do conteúdo audiovisual. Hoje somos colegas que juntos estamos construindo uma ponte de compreensão e amizade mútua, sempre com muito respeito. Nesse ano, trazemos mais uma seleção de belíssimas produções de alta qualidade, tanto com séries de ficção, quanto com séries documentais que têm grande relevância para o público brasileiro e que abre oportunidades de coprodução entre Brasil e China. Hoje o público jovem do Brasil entende e busca cada vez mais estar relacionado com os conteúdos chineses e com a cultura chinesa e o audiovisual propicia isso”.

Outro parceiro da CMG presente nesse lançamento foi o Grupo Bandeirantes, representado pelo diretor geral no Rio de Janeiro, André Marini. Conforme ele, trata-se de uma parceria construída sob valores comuns: confiança, respeito e crença no poder transformador da comunicação e da cultura. “Essa colaboração foi renovada em novembro do ano passado, durante a realização do G20 aqui no Rio e ganhou novas dimensões. Além da exibição de conteúdos chineses no Brasil como novelas, séries e documentários que aproximam os nossos povos, passamos a explorar os intercâmbios tecnológicos e de coproduções audiovisuais que abrem caminho para iniciativas inovadoras e projetos em conjunto”.
De acordo com Marini, o Ano Cultural Brasil China em 2026 será um convite para aprofundar os laços de amizade sino-brasileiro, criando uma ponte para que ainda mais pessoas conheçam e se encantem com a cultura alheia. “A cultura é a linguagem mais universal que possuímos. E, através do audiovisual, é possível viajar e perceber que, apesar das diferenças, compartilhamos emoções e sonhos semelhantes. Assim, iniciativas como essa possibilitam também o fortalecimento e servem como referência para a cooperação entre América Latina e Ásia. Dessa forma, ampliam-se horizontes culturais, enriquecem as nossas sociedades e inspiram novas gerações, contribuindo para um mundo mais conectado e colaborativo”.

Por fim, a diretora do Festival do Rio e do RioMarket, Walkiria Barbosa, relembrou que durante a realização do G20, em Brasília, o Festival do Rio assinou um acordo de cooperação com a CMG para desenvolver uma ação de troca de conhecimento, de cultura e, principalmente, também uma forma de aproximar os dois países através da indústria audiovisual. “A China é o maior mercado audiovisual atualmente. Quando estivemos lá em 2008, o país asiático possuía 3.500 salas de cinema e hoje a eles têm mais de 90 mil salas e tornaram-se um exemplo importante do que nós também almejamos ter no Brasil”.

De acordo com Barbosa, a China conseguiu tamanho resultado através da implementação de modelo muito diversificado, que leva em consideração cada região do país e cria oportunidades para a implementação e crescimento desse setor de acordo com a realidade de cada região. “A nossa história com a China começa em 2008, quando recebemos a maior delegação que o Brasil já recebeu de representantes do audiovisual. Foram 50 pessoas, representantes do governo, do Partido Comunista Chinês, de atrizes, atores, diretores e produtores. Em 2018, retomamos esses trabalhos em parceria com o Grupo Band quando realizamos uma mostra de filmes que foi exibida na Rede Bandeirantes e tivemos a oportunidade de ter a presença de produtores chineses no festival, com quem começamos esse intercâmbio. Os nossos planos com a China são grandes, pois Brasil e China têm hoje muita identidade. O formato das novelas chinesas tem muitas semelhanças com o formato das novelas brasileiras”.
Produções chinesas e coproduções audiovisuais sino-brasileiras
O site Geekpopnews publicou no dia 4 de outubro, em texto de Gabriel Gameiro, que além da exibição de filmes como “Shenzhou 13”, a primeira obra 8K do país filmado no espaço, o Festival do Rio serviu como uma plataforma para coproduções entre Brasil e China. “A LC Barreto, do Rio, e a CCTV Animation, subsidiária da CMG, estão desenvolvendo projetos conjuntos que incluem tanto uma série de animação quanto um longa-metragem”, escreveu Gameiro. Segundo ele, a série ‘HoHo & The Tropical Sound Clash’ terá quatro temporadas de 13 episódios de 10 minutos cada e será exibida em canais de TV aberta no Brasil e na China… Conforme ele informa: “o personagem Panda HoHo embarca em aventuras pelo Brasil acompanhado de um mico-leão-dourado e uma capivara, explorando biomas, tradições culturais e promovendo lições sobre preservação ambiental”.
Gameiro ainda incluiu o longa “Amazonika – A Origem” em sua postagem, explicando que a produção apresenta a Floresta Amazônica como um elo entre a cultura asiática e indígena brasileira. “Nesse enredo, Panda HoHo se junta a Zo, um jovem que fala com a natureza, e à princesa guerreira Nika. Juntos, eles têm o objetivo de restaurar a harmonia em um mundo em crise… Dessa forma, com o foco no cinema chinês e nas coproduções nacionais, o Festival do Rio de 2026 se consolidará como um espaço estratégico para fortalecer a presença do Brasil na indústria audiovisual internacional. Além disso, pretende ampliar a circulação de conteúdos nacionais e estimular o intercâmbio cultural entre os dois países”, finalizou.

Deixe seu comentário