
Pode não parecer, mas cerca de 25 milhões de brasileiros vivem em áreas rurais no Brasil de acordo com o Censo de 2022. Isto é mais, por exemplo, do que a população de alguns países, como Chile, Equador, Bolívia, Cuba, Paraguai ou Portugal. Nossa área cultivada tem aproximadamente 63 milhões de hectares, o que equivale à área total de países como: Costa Rica, Dinamarca, Bélgica ou Suíça.
Dizemos que pode não parecer, pois os homens e mulheres do campo são praticamente ignorados em debates importantes, tanto no campo progressista quanto em políticas públicas. Que este fato ocorra na falta de investimentos Estatais à população rural pobre não é nenhuma novidade, haja vista os bilhões de reais investidos no agronegócio, enquanto a produção familiar que alimenta nossas bocas vê a reforma agrária avançar a passos de tartaruga. Porém, quando o assunto é a prática política de socialistas e comunistas, esta não deveria ser a realidade, afinal o maior dos revolucionários da América nos deixou um legado de valorização e busca do diálogo com esta população.
Ernesto “Che” Guevara cresceu em um mundo marcado pelo imperialismo e pela Guerra Fria, e desenvolveu seu pensamento buscando superar a dicotomia que marcava as disputas entre os EUA e a URSS. Para tanto, criou e desenvolveu conceitos que ultrapassaram sua breve vida e alcançaram a eternidade, como o chamado “homem novo”. Baseado em suas experiências dentro da América Latina, e especialmente em Cuba, Che defendia que a partir da proximidade dos trabalhadores com a terra, poderia ser criada uma nova mentalidade revolucionária. Segundo o argentino, os latino-americanos eram homens e mulheres que possuíam diferenças significativas em relação aos europeus, e se pareciam mais com africanos e asiáticos. Isso conferia a eles (nós!) a oportunidade de desenvolver uma mentalidade mais humanizada de acordo com os preceitos socialistas que advogava.

Dessa forma, o “homem novo” nasceria a partir da luta contra os preconceitos e cobiças materiais típicos da sociedade capitalista, criando um senso de coletividade e altruísmo que só seria valorizado de fato em uma experiência socialista. O reconhecimento entre os pares revolucionários então se tornaria a busca dos trabalhadores, e não mais as compensações materiais presentes no capitalismo. Para Che, o desenvolvimento desse “homem novo” seria realizado através do incentivo dos homens e mulheres da vanguarda socialista, onde ficou consagrado seu experimento com o trabalho voluntário em Cuba e a doação de tempo de serviço em nome da sociedade que se queria construir.
O Che reservava um lugar especial para os camponeses nesse processo. Para ele, tanto durante a revolução, quanto na consolidação do Estado socialista, esta classe seria parte fundamental na luta por uma sociedade mais justa. Sua visão mirava a China e principalmente o Vietnã, que tanto o inspirou para construir focos de resistência em dois continentes diferentes: África e América. Na época, esta afirmação se tornara necessária, pois apesar do protagonismo camponês na Revolução Russa, o processo de urbanização trazido pelo capitalismo pós-guerra já ameaçava relegar ao ostracismo novamente o camponês, processo freado pela Revolução Cubana que Che ajudou a fazer triunfar. Dessa forma, percebemos o potencial que Che via nos camponeses quando escrevia em seu diário na Bolívia, que, sem a participação destes, nenhum foco guerrilheiro sobreviveria à repressão do Estado capitalista.
Mas apesar de toda deferência ao Che no movimento comunista mundial, onde estará o camponês brasileiro nas discussões de nosso campo? Qual o papel reservado aos homens e mulheres do campo na luta contra o imperialismo e a exploração do homem pelo homem? Essas perguntas são profundas e requerem debates alongados que infelizmente não tem sido recorrentes entre a esquerda brasileira nos grandes centros urbanos (onde se concentra a população brasileira de fato).
Especial Intertelas – EMATER-RIO: a educação no campo em Magé
Comprar camisetas e bonés do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) não nos parece ser suficiente para considerarmos este assunto bem encaminhado. O conhecimento requer mais. Porém, nos limites de nosso espaço, refletimos sobre outros aspectos que nos parecem relevantes e que podem contribuir para abrir novos questionamentos. O que pensa o camponês? Qual a relação destes com a (pouca) terra que possuem? Como veem seu passado? Estas são algumas questões que levantamos com entrevistas realizadas no Distrito Agrícola de Magé, na Baixada Fluminense, em parceria – mais uma vez – com o Escritório Local de Magé da EMATER e seus servidores.
As entrevistas foram realizadas em julho de 2025 e contaram com a participação de três famílias de agricultores. O tema das mesmas foi variado, desde a origem familiar até as perspectivas de futuro, onde selecionamos os trechos mais ilustrativos dessa pequena fração do pensamento campesino, com um pouco de suas esperanças, orgulhos e temores. Propriedades que não ultrapassam os 10 hectares, quando a média nacional brasileira está em torno de 70 hectares e com exemplos de fazendas de 100 mil, dão uma mostra da luta diária desses camponeses para manter sua renda e ainda lutar por melhores condições de vida e de trabalho.
A cultura voltada a frutas e legumes, como goiaba, aipim, batata-doce, palmito e pimentão deixa claro o quanto estamos distantes do tão badalado agronegócio brasileiro que faz propaganda no intervalo do telejornal de maior audiência do Brasil, produz para exportar e ganhar em dólar, enquanto estes trabalhadores buscam seu sustento na venda de sua produção na feira regional ou na Central de Abastecimento do Rio de Janeiro (CEASA).

A mão de obra, em grande parte familiar, também demonstra o tamanho do desafio e da luta na manutenção da terra, o que torna o trabalho muitas vezes um “negócio de família”, como percebemos na fala de Felipe Matre, quarta geração na agricultura que, junto do irmão gêmeo Fernando, assumiram o negócio legado por seu pai, Célio, que ainda trabalha na lavoura: “Desde pequenos a gente já acompanhava ele (pai) na roça para trabalhar. Nós escolhemos estar aqui (grifo nosso). E ele já está cansado, resolvemos assumir de vez”.
Este trabalho voltado quase que exclusivamente para a família fica mais evidente quando percebemos a dificuldade para a fixação da mão de obra no campo, resultado do intenso processo de êxodo em direção às grandes cidades. Este deslocamento, no entanto, não se traduz necessariamente em melhores condições de vida, quando observamos o processo de favelização crescente na malha urbana brasileira. E isto é observado na prática pelos pequenos produtores, que não conseguem contratações temporárias ou permanentes para além de parentes, como Rodrigo Santos da Rosa, que discorre de maneira objetiva: “Hoje em dia o que está muito ruim na agricultura é a falta de mão de obra. (…) É uma coisa que demanda muita mão de obra.(…) É uma geração que não quer trabalhar. Principalmente na roça, onde o serviço é mais puxado”.
Felipe Matre reforça a fala do companheiro na agricultura ao se queixar dos mesmos problemas na propriedade vizinha: “Serviço tem, mas é difícil gente pra querer trabalhar. (…) O pessoal sai daqui para trabalhar no Centro do Rio e não tem transporte, é uma dificuldade. A pessoa sai de madrugada, chega tarde da noite. Aqui eu levanto de madrugada? Levanto sim, mas aqui eu faço meu horário, quando dá eu paro mais cedo. (…) Mas aqui não tem braço”.
No entanto, apesar dos problemas enfrentados, é possível perceber que os agricultores não possuem apenas uma relação comercial com a terra. Sua vida se confunde com a produção e seu caráter se molda a partir do trato com o roçado. Quando questionados sobre a relação com o que produzem, as respostas de Felipe e Rodrigo se aproximam: “Nunca pensamos em sair. Sempre tivemos em mente que a gente ia continuar. Nós escolhemos estar aqui (grifo nosso)”. “Tem que trabalhar, batalhar honestamente para conseguir as coisas. Quando a gente é pequeno, não entende. Vai obrigado. Mas quando você cresce e entende, vai por amor. Eu peguei por amor (grifo nosso). A agricultura ainda é uma opção”.
Célio Matre, ao refletir sobre o futuro de sua propriedade nas mãos de seus filhos gêmeos nos dá alguns indícios dessa relação complexa e cheia de nuances, onde o trabalho muitas vezes se confunde com a afetividade e a brincadeira: “Hoje nós já temos um contrato de parceria, onde cada um tem sua movimentação no banco. Tem que fazer o inventário, eu vou deixar na mão deles. (…) Se você tem 60, não faz como fazia com 30, 40 anos. Mas eu vou parar com 80 anos. Daí é só futebol e praia. (…) Tudo tem seu tempo e o meu já chegou. Já estou com 61 anos. Está na hora de passar pra eles. Eu comecei cedo, eles também. Eu vinha e me divertia, eles também. Quando chegavam da escola, pegavam a bicicleta e vinham correndo pra cá. Trabalhavam e se divertiam”.
E a dificuldade no acesso à terra é percebida pelo patriarca como um dos principais problemas que contribuem para a já comentada dificuldade em se obter mão de obra, haja a vista a falta de perspectivas para aquisição do terreno próprio para aqueles que ainda não possuem seu pedaço de chão: “Se eu não tivesse adquirido isso aqui (a propriedade), é quase certo também deles não terem ficado, porque você tem que ter onde trabalhar, senão… Eu trabalhava de meia, de arrendamento, e tinha que trabalhar muito pra sobrar uma fatia pequena pra gente. Então, muita gente, nossos amigos, muitos saíram da roça por isso, porque não tiveram uma oportunidade. (…) Passar o que eu passei, eu ia ser o primeiro a incentivá-los a sair”.
Além destes problemas, outro ponto que demonstrou incômodo foi o preconceito sofrido em relação às suas escolhas profissionais quando comparadas com atividades tipicamente urbanas, o que deixa claro o desconhecimento do mundo rural por parte da própria população, como Rodrigo Rosa explicitou: “Sofremos muito preconceito até hoje. É de chegar e falar: o que tu faz? Sou um agricultor. Não, tu não é ninguém. Às vezes uma pessoa que não tem as coisas que eu tenho, a renda mensal que eu tenho, se acha superior só pelo fato de eu ser agricultor”.
O que dizer então dos desafios de uma mulher responsável por uma pequena propriedade? É o caso de Marcilene Morais Salmeron, que toca os negócios da família e ainda ajuda a cuidar dos sítios da família na vizinhança. Em uma chácara de 4 hectares, Marcilene produz mais de 20 variedades de vegetais, da goiaba, típica da região, e até alguns pés de café para consumo próprio. Ela trabalha com plantas ornamentais, verduras exóticas, trabalho na feira municipal, desenvolvimento de técnicas de plantio e manejo próprias. Esta produtora pode ser considerada um exemplo da força da mulher na terra.
Descendente de italianos e alemães, é a quarta geração voltada para a agricultura, que se estabeleceu na produção cafeeira do Espírito Santo. Sua migração é emblemática pela busca ao acesso à terra, onde a família inicia sua trajetória em Magé com apenas 1,5 hectares de posse, fugindo do declínio na produção capixaba. Com 55 anos de idade, a agricultora já tem mais de 4 décadas no trabalho da roça, como sempre iniciado e mantido na família: “Sempre trabalhei com o meu pai. Eu não saí de casa. Me casei e permaneci aqui ajudando ele. Comecei a dirigir caminhão com 14 anos. (…) Comecei com 16 pés de goiaba há 20 anos atrás, hoje tenho mais de 80. Ele (pai) já fez a divisão, já deu a minha parte em vida. Eu fui me construindo desde nova na agricultura (grifo nosso)”.
A preparação para a sucessão já aparece nas palavras da lavradora, que apesar do pequeno porte, investiu boa parte de suas economias na ampliação e diversificação da produção: “Eu reformei casa, construí galpão e estufa, fiz telado para plantas ornamentais, tudo para que minha filha visse… E ela gosta. Que ela tenha uma qualidade de vida. Porque aqui você não vai precisar de um ônibus pra trabalhar, não vai correr risco. (…) Mas você tem que estudar. Porque o conhecimento é tudo. Pra trabalhar aqui ou não”.
Sua perspectiva é de busca do conhecimento técnico, que obviamente modificou radicalmente o cenário das propriedades da região, principalmente pela atuação da EMATER, que tem como uma de suas funções principais assessorar os donos dos sítios na elaboração de projetos para que os mesmos consigam financiamento na melhora da infraestrutura: “Se você só se colocar aqui e não procurar conhecimento nenhum dentro de alguma coisa, você também está perdido. Porque quem não tem conhecimento está perdido. Você tem que ter a prática, mas se não tiver o conhecimento…”.
E como não poderia deixar de ser, Marcilene reconhece as dificuldades do trabalho rural e principalmente do favorecimento dos grandes proprietários para financiamentos e aquisições: “O que falta pra gente aqui é uma facilidade de implementos pequenos para agricultura familiar com um preço melhor. (…) Eles estão pensando muito no agro, lá em cima. Pra mim (sic) comprar uma máquina pequena pra trabalhar não vale a pena o investimento, de tão cara que é. E assim eu dependo de muita mão de obra pra trabalhar. Eu planto inhame, batata-doce, aipim. E em outros países isso está tudo mecanizado. E ainda elimina o herbicida! Estão mecanizados para eliminar o herbicida. É uma consciência que eles querem botar aqui no Brasil, mas não querem investir na mão de obra. Aqui dentro (na propriedade) não tem herbicida”.
Concluindo, seus desafios como mulher são elencados, assim como seu papel de liderança em meio a uma comunidade dominada por homens e ainda patriarcal e predatória em vários segmentos, o que tem sido uma luta para a proprietária: “A pessoa não acredita que você é agricultora. Não acredita. Mas tem uma coisa: eu tenho uma turma de 8 meninos que podiam ser meus filhos, e a gente vende junto e negocia junto. Mas só tem eu de mulher. (…) E aqui eu não corto pé de árvore: só se poda. Antes não tinha essa mentalidade da sustentabilidade, de diversificar”.
Debates sérios e aprofundados têm como premissa a escuta das partes interessadas. E não podemos cair na armadilha de romantizar grupos e classes sociais como se fossem o tipo ideal que se comporta sempre da mesma maneira e, principalmente, de acordo com nossas expectativas. A discussão em torno do camponês brasileiro vem sendo dominada por duas correntes opostas e que pouco contribuem para o real conhecimento sobre essa parcela da população: uma visão ligada ao agronegócio, que cria a imagem do camponês de sucesso com suas caminhonetes novíssimas movidas a diesel e seu maquinário de última geração; e uma visão idealizada e fatalista do camponês como a eterna vítima da violência e encurralado nos acampamentos do MST.
É preciso superar essas idealizações e procurar entender melhor outros aspectos importantes, como a grande quantidade de pequenos produtores, a relação destes com a terra e mesmo as problemáticas enfrentadas por aqueles que conseguiram sua terra por meio da luta, mas ainda precisam se manter no campo. Dessa forma, inspirados pela valorização que Ernesto “Che” Guevara e a Revolução Cubana deram a essa classe, é dever histórico daqueles que se dizem socialistas buscar entender mais profundamente as dinâmicas envolvendo o mundo rural. Que a inspiração do “homem novo” sirva para lembrarmos que a luta na América Latina quase sempre começou e frutificou no campo.
Bibliografia
DE SANTIS, Daniel. ⸘Por qué el Che fue a Bolivia?La estrategia revolucionaria de Ernesto Guevara. Temperley: Estación Finlandia, 2014.
GUEVARA, Ernesto Che. O socialismo humanista; tradução e introdução de Emir Sader. Petrópolis: Vozes, 2020.
Relatório da CIA, Che Guevara: Documentos inéditos dos arquivos secretos. Introdução e Notas de Maurício Dias e Mario Cereghino. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.

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