
Maior acordo comercial do mundo abre mercados, gera oportunidades e impõe riscos reais de reprimarização e perda industrial ao subcontinente. Especialmente ao Brasil. Trata-se, pois, de marco histórico com efeitos assimétricos. Há vantagens e desvantagens e os desafios são imensos para o subcontinente. Em particular para o Brasil, a maior economia regional. Vejamos então nesta análise preliminar desapaixonada e sem preconceitos.
Após 26 anos de negociações, o acordo entre Mercosul e União Europeia, aprovado pelo Conselho Europeu em janeiro de 2026 e com assinatura prevista para 17 de janeiro, no Paraguai, inaugura a maior zona de livre comércio do planeta, que reúne 722 milhões de consumidores e PIB combinado de US$ 22 trilhões. O alcance é inegável. Mas o impacto real dependerá menos da grandiosidade do texto e mais da capacidade política e produtiva do subcontinente de transformar acesso em desenvolvimento.
Para o Brasil, maior economia do bloco, o acordo representa janela rara de inserção internacional qualificada. Para países menores do Mercosul é também aposta de alto risco: sem coordenação regional e políticas compensatórias, o tratado pode aprofundar desigualdades internas e regionais.
Ganhos econômicos e novas oportunidades
Os números ajudam a explicar o entusiasmo. A eliminação de tarifas sobre mais de 90% do comércio bilateral — chegando a 95% dos produtos do Mercosul no mercado europeu em até 12 anos — tende a ampliar exportações e investimentos. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimam crescimento de 0,46% do PIB brasileiro até 2040, além de alta de 1,49% nos investimentos diretos, o que pode significar algo próximo a R$ 400 bilhões adicionais na economia nacional.
O agronegócio surge como o principal vencedor nos curto e médio prazos. Carnes, grãos, café e frutas ganham competitividade imediata, com potencial de elevar as exportações brasileiras em até US$ 7 bilhões. Isso implica aumento de renda no campo, dinamização de cadeias logísticas e geração de empregos indiretos em transporte, armazenagem e serviços.
Há também oportunidades menos óbvias. Setores como calçados, couro e têxtil, desde que modernizados, podem ampliar presença na Europa. A própria Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) projeta até 300 mil novos empregos no setor têxtil em 1 década, caso o País consiga combinar abertura comercial com política industrial ativa altiva.
Choque de competitividade
O acordo impõe choque de concorrência que pode ser virtuoso — ou devastador. O acesso a máquinas, equipamentos e tecnologias europeias tende a reduzir custos, elevar produtividade e integrar o Brasil às cadeias globais de valor. Para consumidores, isso significa preços mais baixos e maior diversidade de produtos.
Mas competitividade não nasce do nada. Sem investimento em inovação, crédito produtivo e proteção transitória bem calibrada, o choque pode se converter em desindustrialização seletiva, atingindo setores como máquinas e equipamentos, fármacos, eletroeletrônicos e partes da indústria automotiva, justamente aqueles de maior valor agregado.
Risco da reprimarização
Aqui reside o dilema central. O acordo pode consolidar o Mercosul como exportador de commodities e importador de tecnologia, o que aprofundaria divisão internacional do trabalho desfavorável ao desenvolvimento de longo prazo. Para o Brasil, isso significaria crescer exportando mais, porém gerando menos empregos industriais qualificados, com impactos negativos sobre renda média e inovação. Países como Argentina, Paraguai e Uruguai enfrentam risco ainda maior. Economias menores, com estruturas industriais frágeis, podem ser rapidamente sufocadas pela entrada de bens europeus, ampliando déficits comerciais e dependência externa.
Emprego, renda e o fator ambiental
No campo social, os efeitos serão desiguais. O agronegócio tende a criar empregos e elevar renda, mas a indústria pode perder postos em segmentos menos competitivos. O saldo líquido dependerá da capacidade de requalificação da força de trabalho e da existência de políticas de transição. No capítulo ambiental é ambíguo. As exigências europeias de sustentabilidade podem funcionar como indutor de boas práticas, e agregar valor às exportações brasileiras. Por outro lado, se mal administradas, podem virar barreiras não tarifárias, e penalizar produtores e ampliar conflitos fundiários e ambientais. Sem controle do desmatamento, o acordo pode se tornar problema — não solução.
Autonomia, soberania e coordenação regional
Outro custo pouco debatido é a perda de flexibilidade tarifária. Ao assumir compromissos de longo prazo, os países do Mercosul reduzem a margem para políticas comerciais autônomas. Isso exige maior coordenação regional, algo historicamente frágil no bloco. Sem fundos de compensação, políticas industriais comuns e mecanismos de proteção às economias menores, o acordo corre o risco de beneficiar poucos e tensionar muitos.
O acordo não é o fim. É o começo
O tratado Mercosul-União Europeia não é, por si só, bom ou ruim. Esse é o instrumento. Pode acelerar o crescimento, gerar empregos e inserir o Brasil de forma mais sofisticada no comércio global. Ou pode cristalizar modelo primário-exportador, com ganhos concentrados e perdas difusas. O resultado dependerá menos de Bruxelas e mais de Brasília. E, por conseguinte, das capitais do subcontinente. Sem política industrial, inovação, proteção ambiental real e integração regional, o maior acordo do mundo pode se tornar apenas o maior desperdício de oportunidade da história recente do Mercosul.
Fonte: Texto originalmente publicado no site do Jornal Hora do Povo.
Link direto: https://horadopovo.com.br/mercosul-uniao-europeia-salto-estrategico-ou-armadilha-de-longo-prazo-analise-preliminar/
Marcos Verlaine
Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

https://revistaintertelas.com/2026/02/03/acordo-mercosul-ue-para-alem-do-comercio-uma-disputa-pelo-senso-comum/
Percebo o ponto de vista vindo do Brasil.
Eu, e creio que outros tantos na europa, vejo isto de uma forma mais cinica.
Na europa a produção agropecuária é brutalmente cara, cheia de regulações sem sentido, obrigações desumanas e dominado pelas grandes industrias.
Prevejo que vá arruinar o pequeno produtor europeu ao ponto de ter mesmo de vender o seu terreno que, muito provavelmente, será adquirido por grandes corporações. (Blackrock?)
Como?
Os vossos produtos serão mais baratos. tao mais baratos que as grandes superfícies vao obrigar os pequenos produtores a reduzir as margens, que já sao ridiculamente baixas, para valores insustentáveis.
A UE já arruinou muitos produtores pela europa fora com a ultima entrada da polonia e agora querem a força inserir a ucrania. Fomos obrigados a destruir e privatizar industrias nos países pequenos em prol dos grandes do norte da europa.
Com este acordo, nao prevejo nada de bom para os pequenos da europa.
Mas percebo que voces entendem que será bom para o mercado sul americano. Será?
Seja como for, agradeço o artigo.
Seria ruim pedir para explorar e expandir mais este artigo com possiveis problemas e pontos de vista deste lado, com estes pontos de vista que descrevi?
cumprimentos.
Nota, nao é uma critica. voces fazem um trabalho fenomenal e ja aprendi muito convosco.