
“The human race is an integral community, and the Earth is our common homeland.” (“The Governance of China IV, Xi Jinping, pag. 552)
A importância de Lǎozǐ e Confúcio transcendeu a Cultura que os originou. Já no século passado, um e outro eram reconhecidos e admirados mundo afora, muito além do nicho acadêmico dos orientalistas. Cada um dos dois luminares deixou um único livro e o exemplo de vida. A única obra inconteste atribuída a Confúcio não foi escrita por ele. Os discípulos escreveram os Analectos. Conhecemos apenas o que Confúcio disse. Podemos supor o estilo em que escreveria a sua obra? Talvez sim, talvez não. Há quem fale de um jeito e escreva de outro. As suas frases revelam ensinamentos inesquecíveis. A narrativa dos contextos e das atitudes desvela um Mestre inesquecível.
Ao ler “Muito mesmo envelheci! Já faz tanto tempo que não revejo em sonho o Duque de Zhou”, vemos Confúcio sereno ante a tragédia da obra irrealizada e a inexorabilidade da hora de partir que se avizinhava (7.5, Os Analectos, Giorgio Sinedino, p. 215). Ao ler “Ai que o Céu me dane! Que o Céu me dane!”… Yan Yuan morreu, o Mestre chorava inconsolável. “Se não fosse por ele, por quem eu ficaria assim?” vemos Confúcio desesperado, a soluçar inconsolável pelo discípulo inigualável que morreu jovem (11.8 e 11.9, Os Analectos, Giorgio Sinedino, p. 333).
Graças aos Analectos, conhecemos os ensinamentos e conhecemos o exemplo vivo do Mestre a interagir com a vida. A autoria da única obra atribuída a Lǎozǐ não é inconteste. Há quem duvide que ele seja o autor. Há quem duvide que a obra tenha sido escrita por um só autor. Há quem duvide que Lǎozǐ tenha existido. Há quem confie que ele viveu e duvide que morreu, como mencionado no artigo anterior.

Graças ao “Dao De Jing”, 道德经, conhecemos os ensinamentos, mas nada sabemos sobre o autor. Tudo quanto sabemos sobre a sua biografia é controverso, fabuloso, incrível para uns num sentido, e incrível em sentido oposto para outros. Quem segue a passar impassível por todas as controvérsias, milênio após milênio, é a imagem do Velho Lǎozǐ placidamente conduzido por um amigável búfalo branco ao deixar a China rumo ao Oeste.
As diferentes versões da história registradas na obra do pai da Historiografia Chinesa, Sima Qian, 司馬遷, mencionam o pedido do guarda de fronteira Yǐnxǐ, no Passo de Hángǔ Guān, 函谷关, para que o Velho Lǎozǐ escrevesse os seus ensinamentos. Assim teria surgido o “Dao De Jing”, 道德经. A existência da fábula é incontestável. Uma análise cultural não pode ignorar o único dado inconteste na biografia de Lǎozǐ: a fábula que segue a ser contada e pintada. Antes de percorrermos a história, vejamos o que ela provocou no futuro, bem mais de um milênio depois de começar a ser contada. O Grande Historiador Sima Qian não registava a véspera.
Vamos ao século XI d.C., quando a história era já notória e havia educado gerações. Foi essa a hora que a História escolheu para a história de Lǎozǐ fecundar outra história. Para vermos as razões de origem dessa fecundação, precisamos recuar até ao século VI a.e.c. Enquanto nasciam ao norte do Himalaia Lǎozǐ e Confúcio, nascia ao sul do Himalaia o príncipe Siddharta, que descobriu a origem do sofrimento do seu povo e de todos os povos em todos os tempos. Ele a chamou de apego, Trishna, a ilusão de permanência que nega a Mutação, Yi. Descobriu o Caminho do Lótus, que nasce enraizado no lodo, precisa crescer através da água, depois cresce através do ar, para desabrochar ao sol.

No esforço para se libertar das ilusões, Siddharta precisou transcender o modelo monárquico em que nasceu. Precisou transcender o modelo isolacionista da ascese que o educou. Ao ver que já não era quem tinha sido, abandonou o nome Siddharta e adotou como nome a função que descobriu ser o seu modo de fluir em harmonia com o Dharma — leia-se Dao. “Buda” significa receber Luz para partilhar Luz. Descobriu a autoridade benigna. Descobriu o Caminho do Meio, que havia sido ensinado do outro lado do Himalaia, quinhentos anos antes, pelo Rei Zhōu Wén Wáng, 周文王, no seu testamento, “Instruções para Preservação”, Baoxun, 保訓, como agora podemos saber graças às escrituras em bambu da Universidade Tsinghua.
O Buda e o seu modo de seguir o Dao eram plantas nascidas em estufa. A obra e o exemplo eram destinados a terras alheias. Na sua própria terra natal, o Caminho Búdico de Libertação pouco tempo viveria. Completaria apenas um milênio. Cinco séculos depois de o Buda se tornar invisível, era preciso transplantar o Lótus. Coube à China acolher e ajudar o Budismo a desenvolver-se. Vários reinos vizinhos ajudaram nessa tarefa.
O Céu inspirou um sonho, e o Imperador Míng, 汉明帝 (15 de junho de 28 d.C. — 5 de setembro de 75 d.C.), assessorado pelos seus ministros, enviou emissários à região Oeste. Em algum lugar do Oeste, na Ásia Central, a missão encontrou os monges Kāśyapa Mātaṇga (Jiā Shèmó téng, 迦叶摩腾) e Dharmaratna (Zhú Fǎlán, 竺法兰), que aceitaram o convite do Imperador Míng. Em torno de 67 d.C., chegaram à então capital, Luòyáng. Cavalos brancos traziam textos budistas, imagens e objetos de ritual. O Imperador Míng mandou erigir o primeiro mosteiro budista, o Templo do Cavalo Branco, 白马寺.

Poucos séculos depois, dois heroicos monges ajudaram a adaptação e assimilação das doutrinas budistas indianas à Cultura Chinesa. Kumārajīva, Jiūmóluóshí, 鸠摩罗什 (344 – 413 d.C.), estabeleceu o padrão de excelência para a tradução de textos. Junto com a sua equipe, Kumārajīva criou um modelo para a transcrição de termos em sânscrito e prácrito. Usou a sonoridade de um caractere chinês para cada sílaba da palavra estrangeira. Mil e quinhentos anos depois, outro herói, Zhōu Yǒuguāng, 周有光, junto com a sua equipe, seguiu um caminho análogo para a criação do Pīnyīn, sistema adotado oficialmente pelo Governo da República Popular da China em 1958 para a romanização dos caracteres chineses.
Sessenta anos depois, a cultura hegemônica ainda resiste e insiste em grafá-la no arremedo criado às pressas (Wade-Giles) para vencer outra cultura hegemónica (a França), que também criava o seu próprio sistema de transcrição da língua alheia. Venceram os ingleses, e por isso o amigo leitor ainda lê “Pequim” onde se deve ler “Beijing”. O segundo heroico monge foi Xuánzàng, 玄奘 (6 de abril de 602 – 5 de fevereiro de 664 d.C.), que saiu de Luoyang na direção do Oeste, rumo à Índia. “Em meu país a doutrina é imperfeita, as escrituras incompletas. […] Arriscarei a minha vida para que a sublime verdade do Mahayana possa ser conhecida no Leste.”
Na longa e perigosa viagem, guiaram-no pessoas e sonhos. Atravessou desertos. Perdeu-se. Perdeu a água que restava. Enfraquecido, adormeceu e sonhou. Acordou revigorado. Ao montar, o cavalo chinês em disparada levou-o à fonte que ambos desconheciam e de que precisavam. Atravessou montanhas de neves perenes. Aprendeu com ladrões a perdoá-los e ensinou-lhes a se arrependerem. Aprendeu com eremitas desconhecidos e com mestres célebres como Śīlabhadra em Nalanda, a primeira Universidade de que se tem notícia no mundo.
Na sua peregrinação, aprendeu com as principais tradições budistas — Theravada, Mahayana, em especial Yogakara, 瑜伽行派. Trouxe para a China 657 volumes, entre os quais o Mahāprajñāpāramitā, Móhē Bōrě Bōluómìduō Jīng, 摩訶般若波羅蜜多經, texto que influenciou múltiplas escolas. Ao voltar à China, não aceitou os cargos oficiais importantes oferecidos pelo Imperador. Recolheu-se a um templo e dedicou-se a traduzir os textos que trouxera. O seu mais importante legado foi ter, ao longo da sua vida, exercido a autoridade que transcende o hegemonismo: a autoridade benigna, aquela que oferece o exemplo.
Na Índia, ladrões roubaram-no. Decidiram matá-lo como oferenda. Montavam às pressas o altar para a execução, pois nuvens começavam a encobrir o Céu. Era preciso terminar rápido. Xuánzàng meditava, impassível. O ladrão que o vigiava observava, mesmerizado, a respiração quase imperceptível de tão lenta. A violenta tempestade eclodiu antes de o altar estar pronto. Árvores arrancadas pelo vento estrondavam. Ladrões em desespero. Em meio ao vendaval, não muito distante, viram uma grande pedra. Em primeiro plano, viram Xuánzàng a meditar. Ambos imóveis. Os ladrões se atiraram ao chão. Imploraram a bênção de quem pretendiam matar.
O Caminho do Buda, que desapareceu na Índia em apenas um milênio, já completou dois milênios na China. Segue a florescer, enriquecido por quem o acolheu, o fortaleceu e o partilhou mundo afora. Os ascetas Digambaras e Śvētāmbaras da tradição Jaina, e os seus opostos Lokāyata, do sensorialismo Carvaka, foram contemporâneos de Sidharta Gotama. Nunca saíram da Índia. Mundo afora, só uns poucos orientalistas os conhecem.
Agora podemos voltar à China e compreender o que sucedeu no século XI d.C. Após sucessos e insucessos no processo de adaptação da flor transplantada, era chegada a hora de o Budismo Chinês consolidar a sua identidade e enceleirar frutos para partilhar nas viagens e intercâmbios no milênio que começava. Precursores como Kōbō-Daishi, 弘法大師 (774–835), vinham de diferentes partes da Ásia estudar Budismo na China. Chegava o tempo em que a China deveria levar o filho adotivo rumo a terras distantes.
Foi no século XI que a história de Lǎozǐ montado no búfalo branco relembrou aos budistas chineses ensinamentos do Budismo Indiano que associavam a disciplina da mente à doma de animais bravios: elefantes, cavalos, macacos. Muitos pintores devem ter retratado o Velho Lǎozǐ a caminho do Oeste durante o milênio que antecedeu o século XI. Talvez pinturas ou grafismos mais antigos tenham desaparecido para respeitar o protagonismo da hora azada.
A pintura mais antiga da cena de Lǎozǐ a caminho do Oeste que sobreviveu às intempéries do tempo é obra de Chao Buzhi, 晁補之 (1053-1110 d.C.). No mesmo século XI, o Mestre budista Ching-chu, 清居, pintou a primeira versão conhecida da “Doma do Touro”, em cinco estágios, na qual o touro vai aclarando até se tornar branco. Talvez porque os budistas descobriram que domar o touro fosse mais difícil do que imaginavam, o Mestre Zìdé Huì, 自得慧 (1090-1159 d.C.), pintou uma versão que acrescentou mais um sexto estágio. A doma continuou tão complicada que, no século XII, o Mestre Kuòān Shīyuǎn, 廓庵师远, pintou uma versão de Dez Estágios.

O futuro então advertiu aos budistas chineses que era melhor olhar o passado e estabelecer um limite, como ensinou Huángdì, 黄帝, o Terceiro Herói Fundador da Cultura Chinesa. Os budistas reconheceram a sábia sugestão. Pinturas posteriores respeitaram os dez estágios. Trezentos anos depois, no século XV, quando o monge budista japonês Tenshō Shūbun, 天章 周文, aprendeu pintura com um imigrante chinês, ao pintar a primeira versão japonesa da Doma do Touro, seguiu a tradição chinesa e respeitou os dez estágios.
Nunca se ouviu dizer que Lǎozǐ tivesse domado o búfalo branco. Lǎozǐ e o bondoso búfalo eram amigos desde sempre. Gostavam muito de viajar juntos. Até hoje viajam para inspirar pintores a pintar a cena em que os dois fluem juntos no Dao em puro Wúwéi, 无为. Os chineses são amigos de todos, inclusive tigres, que gostam de os levar em cavalgadas. Agora que percorremos os fatos desencadeados, voltemos à história que os inspirou. Em nenhuma das versões que narram a partida de Lǎozǐ consta que houvesse um escriba de plantão no posto de fronteira em Hángǔ Guān. O fato cultural, então, deve ter sido primeiro contado, e só depois escrito por alguém que ouviu a história. Qual das testemunhas teria contado o que sucedeu?
Lǎozǐ não foi. Pois, após escrever o “Dao De Jing”, montou no búfalo, partiu para Oeste e nunca voltou. A única outra testemunha era o guarda de fronteira Yǐnxǐ. Ele pode ter contado o que sucedeu a algum interlocutor desconhecido. Como não há registro disso, podemos supor também que a história foi criada por alguém e depois contada, não se sabe onde, quando, nem por quem. Disso também não há registro. Na biografia de Lǎozǐ só há mistérios. Vejamos como desconhecidos contaram a partida de quem dizem não ter morrido.

Em todas as versões a que teve acesso o digitador do presente artigo, um dado irrelevante aparece omitido. No tempo em que Lǎozǐ é suposto ter vivido, o papel ainda não havia sido inventado. Para escrever os 5.000 caracteres do “Dao De Jing”, Lǎozǐ precisaria dispor de bem mais que uma centena de bambus previamente cortados, secos, postos a “suar” para serem libertados do verde, polidos na área a ser escrita, amarrados com tiras de couro etc. Como apareceram no ermo do último posto de fronteira tantos bambus prontos para acolher palavras?
O digitador procurou evidências da pergunta em armários eletrônicos de registros antigos e não encontrou. Procurou evidências de informação sobre o omitido, e nada encontrou. Como não se sabe se alguém fez a pergunta, nem se alguém preencheu a lacuna onde ainda mora o ignorado, só restava ao digitador cumprir o seu dever. Era preciso encontrar uma solução e tapar o buraco que apareceu na estrada da narrativa.
Foi então que o digitador lembrou de uma antiga receita que salvou alguém que vagava faminto no descampado. Só encontrava temperos, nada que pudesse temperar. A fome lhe sussurrou ao ouvido a imprevista solução. O faminto acendeu fogo com gravetos. Levou ao lume uma panela com água do córrego desabitado de peixes. Acrescentou temperos vários. Acrescentou então o ingrediente central: a mais bela das muitas pedras que encontrou. Esperou o tempo de as fragrâncias apurarem a fome. Tirou a panela do fogo. Sob o céu estrelado, sem nuvens nem lua, sorveu, maravilhado, a inesquecível sopa de pedra. Ao partir, deixou próximo ao rio o ingrediente principal para que o próximo faminto se fartasse.
A pergunta inútil fez nascer a resposta que será acrescida à história antiga. A resposta será útil por três razões. A primeira utilidade é nos trazer temporariamente de volta à atualidade — razão e destino contributivo da série de artigos “China e Superação do Hegemonismo”. O texto que irá narrar a partida de Lǎozǐ rumo ao Oeste incluirá uma breve ficção brasileira inspirada pela ausência da informação irrelevante. A segunda utilidade é reverenciar Zhuāngzǐ, 莊子 (476-221 a.e.c.), que por mais de seis décadas tenta ensinar ao digitador do presente texto a importância do inútil, sem o qual o útil não pode ser útil.
A terceira utilidade é possibilitar à Cultura mais jovem oferecer uma pequena homenagem à Cultura mais velha. Uma história brasileira criada no século XXI como introito à multimilenar história chinesa soa, no mínimo, estranha e inusitada. Os próximos parágrafos nos ajudarão a entender que algo semelhante, no futuro, será corriqueiro.
Um diálogo entre culturas radicalmente distintas no tempo e no espaço, que flua com a intimidade amorosa natural entre irmãos, é ainda um fato raro e estranho. O hegemonismo cultural insiste em dividir culturas e pessoas entre superiores e inferiores, para assim justificar o injustificável: a exploração do outro em benefício próprio. A Primavera do convívio fraterno e igualitário entre culturas mais idosas e mais jovens virá adiante, com a superação do hegemonismo.

As culturas mudam à medida que metabolizam experiências no espaço-tempo. O processo histórico de superação do hegemonismo está já em curso. A etapa atual corresponde ao que a Cultura Chinesa identificou na breve Quinta Estação, entre Primavera, Verão, Outono e Inverno. Nessa estação intermediária, as energias se reconfiguram. A transição consiste na mudança do modo como as energias fluíam numa estação para o modo como fluirão na estação seguinte.
Hoje, um modelo de autoridade anoitece; outro modelo alvorece. A Reforma e Abertura das relações entre nações e seus povos convive com o anoitecer de alianças por conveniência, ambição ou temor, e com o alvorecer de cooperações em que todos se esforçam para que todos se beneficiem. A Reforma e Abertura das instituições mundiais existentes convive com o anoitecer de privilégios em prol de poucos, e com o alvorecer de regras e decisões aprovadas por maioria, em resposta às necessidades prioritárias dos desprovidos, para que uns ajudem outros rumo à prosperidade de todos.
À medida que a superação do hegemonismo se consolidar, um modelo antiquíssimo de autoridade pelo exemplo será redescoberto e surgirá renovado, pois responderá a tempos novos. As culturas poderão inspirar umas às outras, livres dos ditames que a pretensão de superioridade da Cultura hegemônica insiste em impor, na velha lengalenga do “maior & melhor sistema político, econômico, religioso, maior & melhor cientista, escritor, poeta, pintor, filósofo”, etc. e tal. Quando nos envergonharmos da ilusão de superioridade, estaremos livres do hegemonismo. Vide o décimo quinto hexagrama no código binário legado por Fuxi, como mencionado no artigo CSH II.
Na atual disputa tecnológica, a tal da superioridade evapora a cada dia mais rápido que na véspera. O modelo de disputa coexistirá amistosamente com o modelo de cooperação quando a Cultura do Hegemonismo for superada pela autoridade benigna. Todos disputarão consigo mesmos na busca de melhorias sem fim em prol de todos, e cada nova conquista será celebrada por todos.
O pós-hegemonismo abrirá um diálogo criativo, respeitoso e igualitário entre diferentes culturas, no qual todas se enriquecerão e cada uma produzirá a sua expressão própria e ímpar. Todas serão incomparáveis. Estaremos livres do orgulho pretensioso do primeiro lugar, e da frustração triste do último lugar. Saberemos ajudar-nos uns aos outros, como a família que descobriremos que sempre fomos, ainda que antes só poucos o soubessem.
“Precisamos tanto preservar a vitalidade vigorosa da nossa própria civilização quanto criar condições em prol do desenvolvimento de outras civilizações, de modo que o jardim das civilizações mundiais permaneça colorido e reflorescente.” (“The Governance of China III, Xi Jinping, pag. 601)
Concluída a visita ao tempo da transição, voltemos aos dias longínquos quando ainda não tinham acrescido a um dos vários nomes do Velho Sábio Lǎo o sufixo honorífico Zǐ. Voltemos à história conhecida, em companhia do introito contado por um cantante bem-te-vi semanas antes do Equinócio de Verão do ano da Serpente de Madeira no hemisfério Sul. A história conta que Lǎo era já muito idoso. Partia rumo ao Oeste — direção do poente, símbolo dos términos — montado num búfalo branco, símbolo da mente vazia, pura, livre de propósitos próprios.
Era incomum que desde cedo ninguém viesse àquela última fronteira do reino de Zhou, nem para entrar, nem para sair. O sol tornava pequeninas as sombras que haviam surgido longas na direção do Oeste quando o dia amanheceu sem nuvens. O Céu seguia descoberto, e o guarda Yǐnxǐ, 尹喜, seguia atento. Espreitava a estrada que trazia quem buscava entrar e a estrada que trazia quem buscava sair. Foi na estrada que vinha da China rumo ao estrangeiro que Yǐnxǐ viu ao longe um vulto incomum. À medida que se aproximava, viu um búfalo branco montado por alguém. Moviam-se lentamente, na marcha que aprazia a ambos. O guarda, intrigado, espreitava. Quem será que vem partir, a sós com o búfalo branco? A curiosidade que ao início durava rápido se converteu em dúvida, e essa desapareceu logo após surgir. O pasmo chegou veloz como o estrondo que acompanha o raio próximo. Yǐnxǐ reconheceu. Era o Velho Sábio Lǎo!
O impacto da visão catapultou Yǐnxǐ ao dia longínquo quando ainda jovem assumiu o seu posto. O guarda anterior transmitiu-lhe o que ouvira do seu antecessor, que ouvira do antecessor, que ouvira de quem viveu o fato contado. O guarda que se aposentava contou ao jovem Yǐnxǐ que houve um dia quando veio de além do reino de Zhou um jovem estrangeiro. Não veio para entrar. Veio para reverenciar e preparar a saída de um Velho Sábio Chinês que um dia partiria para a região Oeste. O jovem estrangeiro disse ao guarda de então que a região onde o sol nasce, o Leste, era mais velha, experiente e, por isso, sábia. Os seus habitantes já tinham concluído o dia e se recolhido para dormir quando os habitantes do Oeste ainda acordavam para começar. No Leste, o amanhã já é hoje.
O estrangeiro deixou instruções para quando o dia futuro chegasse. O guarda da fronteira que ali estivesse, de coração puro, deveria pedir ao Velho Sábio que, antes de partir, por favor escrevesse os seus ensinamentos. O vento do tempo apaga os rastros da memória. Palavras que ressoavam em misteriosas profundezas internas naqueles que tinham méritos para as ouvir desapareceriam com quem as ouviu. Era preciso escrever. O guarda de então perguntou como ele sabia desse fato do futuro. O jovem respondeu que, antes de nascer no estrangeiro, já tinha sido chinês e discípulo do Velho Sábio. Vinha para deixar-lhe um presente de agradecimento.
Yǐnxǐ, no agora do instante em que vivia, reconheceu o Velho Sábio Lǎo porque o admirava. Nunca havia imaginado que ele deixaria a terra onde nascera e à qual retribuía ao educar o seu povo. Yǐnxǐ havia pressentido que era destinado ao magno encontro desde um dia quando sonhou acordado, à noite, ao contemplar a lua quase cheia, o breu e as luzes que cintilavam. De repente, surgiu do nada, caiu no céu, e desapareceu na brevidade silente do imprevisto, uma estrela cadente. Foi naquele instante que Yǐnxǐ fez a soma que nunca havia somado. Ele era o quinto guarda da fronteira. Quatro quadrantes e o centro somavam cinco, como ensinou Huángdì. Desde então, Yǐnxǐ redobrou o esforço para manter puro o seu coração.
Antes, Yǐnxǐ imaginava como seria o fato. Sempre sonhou viver o fato. Após aquela soma, todos os dias, ao acordar, perguntava se seria hoje. Ao adormecer, perguntava se seria amanhã. Sabia que seria. Não sabia quando. Uma estrela cadente o ensinou a confiar no Dao. No agora de então, diante do Velho Sábio Lǎo, ele concluiu: para quem sabe esperar, sem desistir nem esmorecer, “a hora tarda, mas não falha”.

Num instante sem duração, Yǐnxǐ rememorou tudo. Lembrou inclusive quando ouviu que o estrangeiro havia construído o pequeno casebre, semioculto entre folhagens, na floresta. Os guardas anteriores mantiveram sempre limpos o casebre e o caminho. Trocavam madeiras e telhas que envelheciam, tal como eles próprios envelheciam e se aposentavam. Yǐnxǐ também já havia aposentado madeiras exauridas.
Guardas, pedras, córrego e peixes, floresta com lebres, aves e tigres — todos esperaram o Sábio que viria para seguir rumo ao Oeste. Só pedras e córrego envelheceram sem se aposentar. Yǐnxǐ lembrou que ouvira do guarda antecessor que o primeiro guarda contara ao segundo qual era o presente que o jovem estrangeiro havia deixado para o Velho Sábio. Bambus. Ele havia plantado bambus próximos ao córrego, para proteger as margens. Havia também montado encanamentos com bambus silvestres que encontrara na floresta. Assim, o córrego ajudava os bambus mais velhos a saciar a sede dos bambus jovens. Eles cresceriam saudáveis e fortes para receber a sabedoria que alimentaria gerações futuras de chineses e estrangeiros em busca do imperecível.
“Bambus ajudam bambus para ensinar os Aprendizes de Humanidade a ajudarem-se uns aos outros.” O estrangeiro chamava o casebre onde dormia de “Palácio dos Bambus Celestiais”. Bambus cresceram. Ele os cortou. Bambus secaram, ele os trabalhou. Eliminou o verde. Lixou, poliu, preparou a área que receberia as palavras. Atou-os com couro. O estrangeiro acordava pouco antes de o sol nascer. Ao poente se recolhia. À noite, enquanto dormia, lia no Mundo dos Imortais o que adiante seria escrito nos bambus.

Um dia, cedo pela manhã, ele se despediu do guarda de então. Aquela noite o livro havia sido concluído no Céu, e os bambus estavam prontos na Terra. Sem mais dizer, o jovem estrangeiro voltou ao Oeste de onde viera. Ao relembrar o que ouvira ainda jovem, Yǐnxǐ se deu conta de que os personagens de um fato lembrado nunca são os que estavam lá quando o fato ocorreu. Quem lembra não é mais quem era quando o fato lembrado sucedeu. Cada vez que a memória surge, o lugar e os personagens já não são os mesmos. Ao chegar, a memória muda quem lembra, e muda o recordado. Ao partir, faz o mesmo que fez ao chegar.
As memórias são aparições constituídas na hora da recordação por quem recorda. Toda memória é nova. Ninguém pode mudar o passado no passado. Todos podem mudar o significado do passado no presente, e isso os liberta para outro futuro. Ver é chama que arde. Ouvir é canto de pássaro que passa a voar. Ver é o trigrama Lí; ouvir é o trigrama Kǎn. O fato do agora de então era novo. Yǐnxǐ lembrava o fato esperado no qual vinha um sábio desconhecido, e agora via chegar o Velho Sábio Lǎo. O búfalo branco não existia no fato esperado. Yǐnxǐ reconhecia a diferença e a identidade entre o fato que sucedia e o fato recordado que esmaecia ante o que luzia. Agora cabia a Yǐnxǐ cumprir o seu dever. Como guarda de fronteira, devia verificar as condições de passagem segundo as Leis, e decidir impedir ou liberar.
Yǐnxǐ sabia que era responsável perante o Céu e perante o povo Chinês, representado pelo rei de Zhou. Num longínquo palácio, o rei nada sabia do que sucedia nas fronteiras naquele momento. Confiava que os guardas cumpririam as leis sábias que evitam o caos. Lá estavam os três. O guarda de fronteira a esperar em pé. O búfalo a chegar, lento como veio. Parou, bufou, ruminou. Lǎo e Yǐnxǐ olharam-se em silêncio. Ouviram o silêncio. Então, em voz suave e firme, Yǐnxǐ falou, e seguiu a ouvir, surpreso, a entonação e a cadência das suas próprias palavras:
“Velho Mestre, o povo da terra que reconhece o centro precisará dos seus ensinamentos para partilhar com próximos e distantes pelo futuro afora. Para autorizá-lo a partir, preciso que atenda ao pedido deixado por um jovem estrangeiro. Cento e cinquenta anos atrás ele veio do Oeste preparar bambus para serem escritos. Quatro guardas que já viajaram ao mundo dos Imortais estão aqui invisivelmente presentes. Hoje somos cinco a pedir que deixe escrito o que poucos puderam ouvir, para que muitos possam ler.“
Quem chegou ouviu tudo calado. Semblante imperscrutável. Quando Yǐnxǐ se calou, o vento ainda murmurou por instantes. Quando o vento se calou, tudo parou. O tempo sumiu. O Velho Sábio luziu como pedra incandescente. Do nada, surgiu o movimento. O couro dos arreios rangeu. O Velho desceu do búfalo branco num suave escorregar, entregue à gravidade que atrai as águas. Ao ver o Velho Sábio Lǎo descer do búfalo, Yǐnxǐ descobriu que o seu coração estava puro. Antes, duas razões o impediam de o saber: ninguém pode saber antecipadamente como estará o coração ao ser desafiado pelo instante que ainda não surgiu; ninguém pode ver a própria nuca.
Transfigurado em menino, Yǐnxǐ correu célere pela trilha rumo ao casebre na floresta. Com leve sorriso, o velho Lǎo o seguiu. Moviam-se indo e vindo, sem parar e sem falar. Trouxeram juntos a mesa antiga que o estrangeiro havia cerrado, montado e pintado com laca vermelha. Depois, trouxeram pilhas de conjuntos de bambus amarrados e enrolados. Bloco de pedra negra. Bastão de tinta. Água do córrego. Pincel. Por fim, tudo pronto. Yǐnxǐ postou-se imóvel ao lado direito do Velho Lǎo. Cuidaria de retirar os conjuntos de bambus já pintados e repor aqueles que seriam pintados. Imóvel, o Velho Lǎo contemplou a cena diante de si. Em seguida, moveu lentamente a cabeça, voltou-se à cena na lateral esquerda. Atento, Yǐnxǐ voltou-se também para ver o que atraíra a atenção do Velho Sábio.
Ambos olhavam a mesma paisagem. O Velho Lǎo percebeu o que só ele via. Cinco detalhes premonitórios: verde descampado; pequeno vulto branco distante a pastar em paz; céu azul; áureo sol; sombras começavam sutilmente a se alongar na direção do Leste. Cada um viu na paisagem a cena que lhe correspondia. Coube ao digitador revelar os sinais e encobrir a premonição. O olhar do Velho Lǎo retornou à cena diante de si, e Yǐnxǐ o acompanhou. Sem vento, uma folha solitária soltou-se de uma árvore alta e veio a girar desde o alto. Ao vê-la tocar silenciosamente a relva, o Velho Lǎo começou a fazer o que nunca havia feito. Tornava visível o que ao longo da vida tornara audível. Trigrama Kǎn, 坎, o ouvido. Trigrama Lí, 離, a visão.
Pássaros respeitosos emudeceram. Ouviam o sutilíssimo som do pincel a acariciar o bambu. Sublime movimento e ritmo derramava a palavra pintada pelo Velho Lǎo. Ela surgia sobre o bambu com sutil brilho, breve como relâmpago. O sol que fazia brilhar, fazia secar. Yǐnxǐ via um significado que desconhecia nas palavras que conhecia. O misterioso sentido de cada termo se ampliava à medida que a frase chegava ao porto do seu destino. Um gongo soava em silêncio longo na breve pausa entre o final de uma frase e o início de outra.
A beleza das verdades bondosas libertou límpidas fontes nos olhos de Yǐnxǐ. Dois leves córregos fluíram por sinuosos declives nas margens esquerda e direita do sorriso. As flores de Dāngguī, 当归, na sebe que circundava a floresta, tremularam de emoção ao perceber que emolduravam a cena que perfumavam. O velho Lǎo pintou 5.000 caracteres. Nenhum bambu restou sem pintar. Os pássaros voltaram a cantar. O tempo, que estivera ausente, ressurgiu do Nada em que havia repousado e voltou a correr como os rios.
Yǐnxǐ, o guarda de fronteira, agradeceu em nome de todos os seres que seriam beneficiados por ler aquelas palavras. Yǐnxǐ nem imaginava que o seu agradecimento alcançaria terras então desconhecidas, e se estenderia por tantas gerações ao longo de dois mil e quinhentos anos. Nem podia supor que, na fila de incontáveis beneficiários futuros, haveria um rapaz que lhe retribuiria o agradecimento do outro lado do mundo, numa cidade e país que seriam fundados muitas dinastias mais tarde.
O tal rapaz, entre tantos livros, leria e releria o “Dao De Jing” num idioma que ainda não existia naquele tempo hoje distante. A língua portuguesa só seria criada quase dois milênios depois de Yǐnxǐ partir rumo ao mundo dos Imortais. Absorto nas suas releituras, o rapaz nem notou que seis décadas passaram desde quando leu pela primeira vez o “Dao De Jing”. Se algum admirável idoso, Mestre da tradição oracular de imagens e números do Yijing, lhe fizesse uma tal previsão, Yǐnxǐ acreditaria, por respeito ao Céu e à sábia experiência do seu interlocutor. Mas o significado de uma tal narrativa de fatos incríveis, locais distantes, épocas remotíssimas no futuro, talvez ultrapassasse a sua compreensão.
A única frase que o guarda da fronteira do Reino de Zhou compreenderia sem precisar que ninguém lhe explicasse foi aquela do presidente Xi Jinping que o estimado leitor também leu com facilidade na abertura desse artigo. Se Yǐnxǐ, guarda da fronteira, e o presidente Xi Jinping pudessem conversar, descobririam que partilhavam as mesmas raízes Culturais. Quando eram meninos, ambos aprenderam que todos, não importa onde nem quando, vivemos sob o mesmo Céu. Na despedida, ririam muito, e ficariam mais amigos que antes, como diria um amigo de Lǎozi poucos séculos depois.
Gustavo A.C. Pinto
Formado em Filosofia pela PUC-RJ e tradutor do “I Ching”. É autor dos livros “Relâmpagos”, “Gotas de Orvalho”, “Rito da Montanha Sagrada” e “Astrologia e Budismo”

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