Alberto Cavalcanti e as multiversões: análise de “A canção do berço”

A atriz Esther Leão assina o contrato ao lado do diretor Alberto Cavalcanti e Ressano Garcia, gerente da Paramount portuguesa. Crédito: Revista Cinearte

Resumo:
Este artigo apresenta o contexto em que foram realizadas as multiversões ou Multiple-Language Version (MLV) pelos estúdios de Hollywood, com especial atenção à produção da Paramount na cidade de Joinville, na França, onde foi realizada a versão do primeiro filme sonoro em língua portuguesa: A canção do berço (1930), dirigido por Alberto Cavalcanti. Também analisa a repercussão do longa-metragem na revista brasileira Cinearte.

Palavras-chave: Alberto Cavalcanti, A canção do berço, Paramount, cinema sonoro, multiversões.

 

INTRODUÇÃO

A passagem do cinema silencioso para o cinema sonoro nos Estados Unidos não implicou apenas uma revolução tecnológica, mas também influenciou a maneira de se produzir e exportar os filmes para outros países, com idiomas completamente diferentes. Se nas primeiras décadas –entre 1895 e meados dos anos 1920– os curtas, médias e longas-metragens circulavam por todos os continentes e eram exibidos sem qualquer som ou acompanhados por orquestras locais, a chegada do filme falado no final da década de 20 também acarretaria um grande desafio para os estúdios de Hollywood: como tornar esta nova obra cinematográfica compreensível tanto para os espectadores norte-americanos e ingleses quanto para os franceses, italianos, espanhóis, suecos e brasileiros?

Antes mesmo da dublagem ou da legendagem dos filmes –recursos tão comuns e aceitos pelo público atual, dependendo da técnica usada em cada país–, uma das soluções encontradas pela indústria dos Estados Unidos nos primeiros quatro anos do cinema sonoro foi adotar as multiversões ou Multiple-Language Version (MLV). Os filmes originalmente falados em inglês seriam, então, refilmados em uma nova versão, em uma outra língua, com elenco proveniente do país correspondente à nova obra que estava em produção –às vezes o diretor também–, respeitando o roteiro e toda a estrutura originais.

De acordo com a pesquisadora francesa Ginette Vincendeau (1999: 207), “os estúdios de Hollywood se viram obrigados a produzir filmes adaptados aos mercados nacionais para conseguirem satisfazer a demanda por filmes falados nas línguas europeias”, principalmente. Duas estratégias foram as mais utilizadas pelas majors: importar diretores, roteiristas e atores para os Estados Unidos, ou implantar centros de produção em países europeus.

Em 1929, Jesse Lasky, um dos fundadores da Paramount, anunciou a sua intenção de fazer filmes em língua estrangeira na França e a cidade de Joinville, localizada nos arredores de Paris, foi a escolhida para sediar os seus estúdios. A Warner Bros deu início às suas operações na Alemanha e na Inglaterra e, até setembro de 1931, “todos os grandes estúdios norte-americanos estabeleceram sua presença de produção na Europa” (Vincendeau, 1999: 213).

Para conquistar os diferentes mercados nacionais com os filmes falados, o plano de ação dos estúdios era produzir as multiversões em um intervalo curto, adaptando o mesmo texto para os diversos públicos simultaneamente, na maioria dos casos, o que tornou esse sistema de produção um fenômeno. Em outras palavras, o mesmo filme poderia ser rodado em outras línguas ao mesmo tempo, intercalando a filmagem da mesma cena em diferentes idiomas e no mesmo cenário. No caso específico da Paramount, para um número maior de versões, cada uma delas poderia ter um diretor diferente e cuja nacionalidade eventualmente poderia ser a mesma da nova refilmagem.

O cotidiano das gravações também acabava tornando a pequena cidade francesa em uma grande babel multicultural, integrando profissionais internacionais que dificilmente se reuniriam de outra forma em uma localidade que não tinha uma vocação natural para se tornar uma metrópole. Como nos relata Vincendeau (1999: 214), “as equipes de todas as nacionalidades compartilhavam as mesas das cantinas e também os estúdios de som, trabalhando vinte e quatro horas por dia”.

Um desses diretores era o brasileiro Alberto Cavalcanti, que já tinha realizado filmes importantes na avant-garde francesa antes de assinar o contrato com a Paramount para dirigir o primeiro filme falado em língua portuguesa: A canção do berço.

Leia o artigo completo, publicado na revista Imagofagia, de Buenos Aires (Argentina), em abril de 2017: http://www.asaeca.org/imagofagia/index.php/imagofagia/article/view/1135

 

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