Carlos Saldanha: “o mundo precisa de uma mensagem de paz e tolerância”.

Crédito: Lui Azevedo.

A animação o “Touro Ferdinando” carrega uma mensagem bastante clara sobre paz, tolerância e aceitação do próximo do jeito que ele é, com suas qualidades e defeitos. Em um início do século XXI, onde os ânimos estão cada vez mais tensos e os confrontos levam as pessoas a vislumbrar a possibilidade de futuras guerras mundiais, obras como esta vem tentando trazer uma ideia oposta ao sentimento de que estamos rodeados de inimigos, e de precisamos ser fortes e lutar. Ferdinando é um touro de dimensões físicas grandes, mas ao mesmo tempo possui uma personalidade suave e amiga. A inspiração original veio do livro “A História de Ferdinando”, publicado em 1936, ano em que eclodiu a Guerra Civil Espanhola. Após o conflito o ditador Francisco Franco, de inclinação fascista, iria governar a Espanha por 35 anos. Três anos mais tarde, o mundo vivenciaria a Segunda Guerra Mundial.

Obra escrita por Munro Leaf e ilustrada por Robert Lawson em 1936 que inspirou o diretor Carlos Saldanha traz mensagens bastante atuais.

Escrito por Munro Leaf, autor de literatura infantil nascido nos EUA, e ilustrado por Robert Lawson, a história é um apelo ao pacifismo. Este e outros princípios representados na história inspiraram Carlos Saldanha no decorrer do processo criativo de Ferdinando. O diretor, que esteve apresentando seu longa na 26ª edição do festival Anima Mundi (2018), explanou aos presentes que as curvas deste personagem são inspiradas no relevo da vegetação da Espanha. Segundo ele, elas expressam uma percepção de suavidade neste animal considerado forte e feroz. Já o toureiro/matador tem uma forma retilínea, como um retângulo, lembrando a rigidez de uma parede. Através destes detalhes, Saldanha deseja repassar a compreensão de que nem tudo é o que parece. Uma visão mais tolerante, pacífica e de aceitação das pessoas é o que precisamos em tempos tensos como este.

A seguir, você confere a entrevista que o diretor concedeu à Revista Intertelas.

Na sua palestra, deu para perceber que a questão da paz foi um dos princípios primordiais para você fazer o filme Ferdinando. Em razão do contexto político tenso que estamos vivendo atualmente, não apenas no Brasil, mas no mundo, você acha que animações como a do Ferdinando podem proporcionar uma mensagem que, aos poucos, vai ficando na cabeça das pessoas e as tensões políticas possam diminuir de alguma forma?

Com certeza! O que me inspirou na história foi esta ideia do ser gentil. Ou seja, você pode ser grande, mas não precisa ser violento. Você pode ter a aparência de um touro bravo, mas ser suave, ser sensível. Por isso, focamos nossos esforços em trabalhar em uma história que repasse esta mensagem de paz, de tolerância, que o mundo mais do que nunca está precisando.

Temos atualmente um certo retorno ao fascismo e ao nazismo. O livro que inspirou a animação foi escrito na época da Segunda Guerra. Isso teria servido como um estímulo principal também para a construção da obra?

A principal coisa do filme é a questão da tolerância, de você ser aceito por quem você é, e não pelo que as pessoas querem que você seja. Foi o ponto mais importante para mim. E dentro deste contexto, há a questão do pacifismo. Claro que vivemos em uma época diferente da que o livro foi escrito, mas estamos observando esta volta da falta de tolerância, do sentimento de violência e o filme traz esta mensagem contrária a esta situação, traz uma mensagem de paz!

Como você vê a animação brasileira neste mercado internacional da animação que expandiu muito?

Está forte e crescendo. O AnimaMundi já está com 26 anos, tendo uma grande recepção do público. Há muitas pessoas fazendo projetos no Brasil. Na minha época, contava-se nos dedos o número de profissionais que trabalhavam na área. Agora, são centenas! Eu acho muito legal isso!

Você está familiarizado com o conceito de Soft Power?

Não.

Diferente do Hard Power, que é o uso do poder militar no cenário internacional, o Soft Power, também chamado de poder suave, é quando se utiliza de ferramentas como o cinema para, aos poucos, de forma persuasiva, incutir nas pessoas os seus interesses, os seus valores e fazer com que elas acabem aceitando os seus objetivos como delas também. O Estados Unidos tem uma indústria cultural fortíssima, há muitos filmes sobre liberdade e democracia, mas a realidade não é bem assim.

Cada pessoa é cada pessoa, cada grupo é um grupo. Apesar de o país ter uma política tal, conduzida de tal forma, não quer dizer que as pessoas que vivem lá compartilhem da mesma opinião daqueles que implementam este tipo de política. Por isso, todos os criadores, artistas e profissionais têm a oportunidade de criar projetos que sejam contra esta política, o que é importante. Claro, que também há projetos a favor deste governo atual. Mas depende de cada profissional trazer uma mensagem positiva que influencie o público a não violência, à tolerância, à convivência entre os povos, a viver de forma mais democrática.

Uma última pergunta, o Rio tem uma imagem sempre bastante negativa não apenas impulsionada pela mídia brasileira, mas pelos veículos de comunicação internacionais também. Você acha que filmes como o Rio trazem uma outra faceta da cidade? Este foi um dos seus objetivos ao criar este longa?

Foi! Eu queria mostrar o outro lado. Eu acho que tem sempre os dois lados da moeda. O Rio é violento? É violento! É uma realidade o problema das drogas, do tráfico, o que é uma pena, mas não é só isso. Há uma outra faceta da cidade. Então, eu quis mostrar o lado que acho valer a pena mostrar. Não quero fazer uma propaganda enganosa, mas há este lado bastante positivo da cidade que as pessoas muitas vezes esquecem que existe! Então é uma lembrança a todos, que temos de viver o dia-a-dia, temos de ver a beleza, tem que ver a contrapartida. Eu quis mostrar este Rio que tem várias facetas, se o jornal quer apenas contar um tipo de história, eu quero contar outra.

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