Setembro amarelo: o suicídio no Brasil, no mundo e as formas de combatê-lo

Crédito: Revista W3.

Dez de setembro é a data definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS ), como o dia mundial de combate e prevenção ao suicídio. Esta data é inspirada por uma campanha  nos Estados Unidos iniciada por amigos e familiares de Michael (Mike) Emme, um jovem de 17 anos conhecido como “Mustang Mike” por gostar muito de um carro velho que, com suas habilidades em mecânica, havia restaurado e pintado da cor amarela.

Este adolescente aparentava ser alegre, extrovertido. Ele gostava de ajudar a todos, mas surpreendeu aos que lhe cercavam, especialmente a sua família, acabando com sua vida sem  ter demonstrado qualquer anormalidade, ter abordado alguém ou pedido alguma  ajuda. Deixou um bilhete dizendo: “Pai, Mãe, não se culpem, eu amo vocês.”

Os pais e os amigos de Mike distribuíram durante seu funeral 500 cartões com uma fita da cor amarela que continha uma mensagem pedindo às pessoas que buscassem ajuda com alguém: pais, amigos, profissionais da saúde, professores… Três semanas depois um destes cartões foi enviado a um professor. Ele pode, então, socorrer uma adolescente que estava em tentativa de suicídio. Assim começou e espalhou-se pelo mundo a “Yellow ribbon”.

Conforme Harold Kaplan, o suicídio é uma prática de auto extermínio que acompanha a humanidade desde o início da sua existência e tem inúmeros fatores que o influenciam, desde hábitos, cultura, costumes, patologias e fatores associados como raça, idade, sexo, religião, estado civil, ocupação, saúde mental. De acordo com o autor, uma das maiores autoridades em psiquiatria, pesquisas demonstram que os homens se matam três vezes mais que as mulheres, utilizando métodos mais letais como arma de fogo, enforcamento ou precipitação de lugares altos. Já as mulheres tendem a usar dosagens excessivas de substância ou veneno. Os índices de óbitos por suicídio aumentam com a idade. As mortes  por  este motivo ocorrem duas vezes mais na raça branca do que nos não brancos. Os católicos têm taxas significativamente menores do que os protestantes e judeus. Também os casados, que tenham filhos, apresentam riscos e índices de suicídio menores. Quanto mais alta a posição social do indivíduo maior é a possibilidade de suicídio.

O suicídio tem muitas peculiaridades e situações que resultam neste trágico final da vida, produzindo diferentes efeitos na sociedade e na família. Os pilotos japoneses suicidas, os chamados Kamikazes, que vivenciaram a Segunda Guerra Mundial, eram considerados heróis nacionais por este ato de bravura em defesa da Pátria. Os doentes que alcançam a eutanásia despertam um sentimento de compreensão, perdão e alívio ao meio que vivem.  A morte de crianças e adolescentes traz à família um sentimento de culpa e derrota, talvez por não ter percebido, ajudado ou agido equivocadamente na preparação destes para a vida. Abaixo estão alguns números relacionados ao tema, disponibilizados em 2017 pela OMS, no site da organização:

Ranking absoluto (suicídios por ano):

1º – Índia (258 mil)
2º – China (120 mil)
3º – Estados Unidos (43 mil)
4º – Rússia (32 mil)
5º – Japão (29 mil)
6º – Coreia do Sul (18 mil)
7º – Paquistão (13 mil)
8º – Brasil (12 mil)
9º – Alemanha (11 mil)
10º – Bangladesh (10 mil)

Ranking percentual (Suicídios a cada 100 mil habitantes):

1) Sri Lanka (35,3)
2) Lituânia (32,7)
3) Coréia do Norte (32,0)
4) Guiana (29,0)
5) Mongólia (28,3)
6) Casaquistão (27,5)
7) Suriname (26,6)
8) Belarus (22,8)
9) Guiné Equatorial (22,6)
10) Polônia (22,3)

Crédito: cordisnoticias.com.br

Dados recentes do SIM/DATA/SUS/MS (Serviço de informações sobre mortalidade, do Ministério da Saúde) dão conta que o número de suicídios vem crescendo no Brasil. De 5,3/100 mil habitantes em 2011 para 5,7/100 mil habitantes em 2015 e com estimativa de números crescentes em 2018. Esta é a quarta maior causa de mortes em jovens de 14 a 28 anos no país, sendo que o Rio Grande do Sul apresenta o maior percentual entre os estados brasileiros.

A cada quarenta segundos uma pessoa comete suicídio no mundo. Quase 800 mil pessoas morrem por esta causa anualmente. O diferente perfil de cada suicida torna difícil que este ato seja percebido e evitado. Por isso, é de extrema importância falar e discutir este assunto, pois as estatísticas demonstram que 90% dos casos poderiam ser evitados com um simples telefonema.

Existem sinais e percepções que devem ser observados e transmitidos ao conhecimento do maior número de pessoas possível.

  • Leve a sério quando alguém fala que tem vontade de se matar. A tendência é achar que a pessoa não vai ter coragem, está brincando, blefando ou tentando chamar a atenção;
  • Observe quando o silêncio e o isolamento instalam-se e há a perda de interesse por coisas  antes consideradas importantes;
  • Procure estar informado sobre as leituras, acesso a rede sociais, círculo de amigos e que conteúdos e assuntos são acompanhados, especialmente pelas crianças e adolescentes;
  • Indispensável procurar ajuda profissional. Avaliar o potencial suicida envolve um histórico profundo sobre sintomas depressivos, pensamentos, intenções, planos, comportamento e etc;
  • Existem casos em que o suicídio acontece por impulso, ira e descontrole momentâneo. Há relatos de motoristas baterem seus carros de frente a outros, fato que provavelmente não aconteceria se houvesse um tempo mínimo para raciocinar e medir consequências.
Crédito: Blogs NE10.

A prevenção e o combate do suicídio deve ser intenso e diário. O problema já é enorme e pode ainda ser maior do que se imagina. Muitos casos são camuflados na hora do registro por preconceitos e tentativa de esconder da sociedade uma “falha” da família. Até a pouco, a própria Igreja não disponibilizava às famílias de suicidas os atos religiosos comuns aos demais.

A prevenção é a iniciativa mais correta para o combate desta epidemia mundial e deve ser iniciada desde a infância. É imperativo também atender aos direitos fundamentais da pessoa como acesso à saúde, à educação, ao saneamento básico, à moradia, à alimentação adequada, a trabalho, a cultura, ao lazer e a prática de esportes. É importante enfatizar que os números de suicídios em países desenvolvidos, embora alguns tenham índices altos, são inferiores aos países subdesenvolvidos, indicando a importância da conquista de direitos sociais essenciais à manutenção da vida.

Aos jovens e às crianças deve-se proporcionar atividades lúdicas, brincadeiras em família, convívio ao ar livre na natureza, esportes e atividades sociais e culturais, incentivando hábitos saudáveis e convívio social. A prática do exercício físico tem papel fundamental para a prevenção do suicídio. Existem comprovações que é possível evitar ou diminuir de forma significativa as medicações anti depressivas aos praticantes de atividades aeróbicas como caminhadas, corridas, natação, ciclismo e dança.

Crédito: efesalud/OMS.

Já a prática dos desportos coletivos proporciona o convívio saudável em grupos, fortalecendo os vínculos afetivos e sociais, além do entendimento de que vencer e perder faz parte do processo de convivência. A recreação e o lazer, disciplina que a Educação Física desenvolve com efetividade, especialmente em grupos especiais como crianças, idosos, portadores de necessidades especiais e na família, evita o isolamento, o ócio e incentiva a ajuda mútua nestes grupos. O profissional de Educação Física está capacitado para, em conjunto com os demais profissionais da saúde, avaliar, diagnosticar e prescrever a atividade adequada à cada pessoa.

A vida e a morte caminham lado a lado, mas todos querem viver. Viver e ser feliz. Morrer é uma certeza a todos, mas perder uma vida por suicídio é pesado, triste e desanimador. Fale sobre o assunto, em todos os seus círculos. Ofereça ajuda! No Brasil, desde 2017, o telefone 188 está disponível 24 h para as emergências, aconselhamentos e orientações.

Ubirajara Gorski Brites

Profissional de Educação Física (UFRGS) e especialista em saúde mental. Atualmente é servidor público do Hospital Psiquiátrico São Pedro em Porto Alegre e presidente do Sindicato dos Profissionais de Educação Física do Rio Grande do Sul.

A seguir reportagens e filmes que abordam a temática do suícidio:

Reportagem da Holiste Psiquiatria:

Mini documentário de Jorge Alberto

Reportagem da Domingo Espetacular da Record sobre a Aokigahara, a Floresta do suici­dio.

“A Ponte” (2006), dirigido por Eric Steel.

“Garoto Interrompido” (2009), dirigido por Danna Perry.

“Útimos dias” (2005), dirigido por Gus Van Sant.

“As Virgens Suicidas” (1999), dirido por Sofia Coppola.

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