Jogos Sagrados: uma trama fascinante sobre crime organizado, política e religião

“Jogos Sagrados” é a primeira produção indiana da Netflix – uma história fascinante sobre as relações entre o crime organizado, a política e a religião na cidade de Mumbai (Bombaim). Dirigida por Anurag Kashyap e Vikramaditya Motwane, a temporada inicial disponível no site corresponde a apenas um pequeno trecho do romance homônimo de Vikram Chandra, no qual está baseada, e fez alterações significativas na obra literária.

A série tem duas narrativas que se intercalam. A primeira é ambientada no tempo atual e começa quando o policial (Saif Ali Khan) recebe um misterioso telefonema de um poderoso gângster, Ganesh Gaitonde (o excelente Nawazuddin Siddiqui, estrela em ascensão em Bollywood). Desaparecido há anos, ele aparentemente quer se entregar. A trama de suspense levará Singh a se relacionar com agentes de inteligência, atrizes e produtoras de cinema, autoridades corruptas e criminosos, no contexto da ameaça de um ataque terrorista à cidade.

A Ascensão de um Gângster Indiano

A segunda, e de longe mais interessante das narrativas, é o próprio Gaitonde em um flashback autobiográfico contando como ascendeu de uma origem pobre e obscura em um pequeno vilarejo indiano ao posto de um dos chefes do crime organizado na metrópole de Mumbai. O enredo tem os ingredientes clássicos das histórias do gênero: ambição, determinação, violência, disputa por sexo e poder… Contudo, a série indiana mergulha nas interações entre criminalidade e política de um modo mais profundo, com muitas nuances, do que seria o padrão em uma produção dos Estados Unidos.

A ascensão de Gaitonde é inseparável de sua casta e religião. Embora nascido pobre, ele é um brâmane, um homem de casta elevada no hinduísmo, o que lhe abrirá oportunidades e contatos em Mumbai. Essa rede será decisiva quando os políticos dos partidos hindus lhes oferecerem somas milionárias para que sua quadrilha atue como uma espécie de milícia contra ativistas muçulmanos.

A princípio Gaitonde entra nesses jogos sagrados um tanto relutante, motivado pelo dinheiro e com alguns escrúpulos morais – ele tem em sua gangue pessoas de várias religiões, que convivem bem. Mas a escalada em seus negócios em virtude das conexões com a política se mostra irresistível, e aos poucos ele próprio se torna mais religioso, caindo na esfera de influência de um poderoso guru.

A questão religiosa também está presente no policial Singh, que é membro da religião sikh, um grupo minoritário na Índia, com forte tradição militar e nas forças de segurança. Singh é um eterno outsider, alguém em que nem hindus, nem muçulmanos podem confiar totalmente. Na série, ele com frequência se vê dividido entre o desejo de fazer a coisa certa e as pressões corruptas do ambiente social em que trabalha (no livro, como veremos, o personagem é mais complexo).

Vikram Chandra ganhou o Hutch Crossword Book Award em 2006 pela sua obra “Jogos Sagrados”. Crédito: New Asian Post.

As Diferenças entre a Série e o Romance

O romance “Jogos Sagrados” é uma obra monumental, de quase mil páginas. Lançada em 2006, foi imediatamente aclamada pela sua alta qualidade. Além dos protagonistas policial-gângster, o livro contém muitas tramas paralelas, por meio de flashbacks de personagens secundários, que cobrem um impressionante panorama da história recente da Índia, desde a independência do país em 1947. Por meio delas se discutem temas como a violência religiosa entre hindus e muçulmanos na Partilha do subcontinente, as guerrilhas separatistas indianas, os conflitos entre o país e o Paquistão.

A série manteve o núcleo de personagens principais do romance e eliminou muito do elenco de apoio. Contudo, o caráter do protagonista é bem mais ambíguo e contraditório no livro. O inspetor Singh no romance é um policial corrupto, profundamente leal a seu mentor Parulkar, o vice-chefe de polícia de Mumbai, para quem executa diversos serviços clandestinos. Singh também comete outros crimes, como torturar suspeitos. Apesar disso, ele também é retratado como alguém preocupado com a cidade e capaz ocasionalmente de gestos altruístas e desinteressados. É, em resumo, um homem complexo e muito interessante como personagem ficcional.

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O Singh da série é um herói mais convencional, incorruptível, e com uma relação conflituosa com Parulkar – que na TV, é apenas um delegado de polícia, sem as responsabilidades públicas mais elevadas que tem no romance. Na televisão, Singh vive apenas para o trabalho, ao passo que no romance ele desenvolve uma história amorosa difícil, mas delicada com a irmã de uma associada de Gaitonde.

Em todo caso, o próprio autor do livro declarou que gostou muito da adaptação para a TV, que foi bem-recebida na Índia. Para o espectador brasileiro, que talvez tenha do cinema indiano apenas uma visão de relance de musicais de Bollywood, “Jogos Sagrados” é uma excelente apresentação a outro  tipo de produção, e um dos lançamentos mais instigantes do ano.

Maurício Santoro
Doutor em Ciência Política pelo Iuperj, professor-adjunto e chefe do Departamento em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Título: Jogos Sagrados
País: Índia e EUA
Direção: Anurag Kashyap e Vikramaditya Motwane
Episódios: 8

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