Deyvid Soroldani: “na Coreia há um forte espírito de unidade, coisa que falta ao Brasil”

Crédito: tayrineegotardo.com
Deyvid Soroldani é um técnico agrícola, formado em administração, nascido em Guaçuí, no interior do Espírito Santo, proveniente de uma família pobre, moradora do bairro São Miguel, um dos mais humildes da cidade. Sempre estudou em escolas públicas, passando muitas dificuldades em sua infância, em especial quando sua avó Delvida faleceu. Sua mãe criou os cinco filhos sozinha. Hoje ele é casado com a sul-coreana Sora Jeon, consultora em projetos de desenvolvimento humano internacional, e vive em uma cidade da região metropolitana da Coreia, chamada Suwon, capital de Gueonggi-do. Ele é dono de um negócio que vende pastéis brasileiros em um food truck, chamado Pastel Brasil. Em razão disso, ele já participou de seis programas da televisão coreana, promovendo, junto a esposa, a iniciativa e relatando sua história pessoal e o verdadeiro motivo que o levou a morar em terras sul-coreanas. Entre as participações na TV, uma pertence à maior emissora do país a Korean Broadcasting System (KBS). Deyvid percorreu um longo caminho, saindo do Brasil, passando pelos Estados Unidos, pelo Malawi, África e chegando à Coreia. A trajetória deste brasileiro de descendência italiana poderia facilmente resultar em um belo livro, ou um filme. Trata-se de um ser humano de fácil comunicação e que tem muitas histórias para nos contar e muitas reflexões importantes para nos transmitir. De sua experiência de vida, é possível aprender e conhecer várias oportunidades incríveis que podem, por que não, serem incluídas em nossos planos de vida futuro, impulsionando transformações na nossa de forma de vermos o mundo, a Coreia e o Brasil. Acompanhe esta entrevista concedida exclusivamente ao Koreapost e veja que para qualquer pessoa, não interessa a sua procedência, há um mundo muito maior esperando para que ela tenha coragem suficiente de ir ao encontro dele e conhecê-lo.
Com a mãe na Venda Nova do Imigrante. Crédito: arquivo pessoal.
Vamos iniciar com o básico, você é proveniente de que parte do Brasil? Sou do Espirito Santos (ES), nasci na cidade de Guaçuí que fica perto de Cachoeiro do Itapemirim, parte sul do ES, próximo à fronteira do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, na Região do Caparaó. Nasci e cresci lá. Fiz o curso de técnico agrícola em Alegre, uma cidade próxima, depois cursei administração em uma universidade particular que abriu na minha cidade. Ganhei uma bolsa de estudos, graças aos programas de incentivo do governo que tínhamos nestes últimos anos, e que me ajudou a pagar metade da faculdade. Estudei a noite para trabalhar durante o dia e pagar a outra metade. Após o fim dos estudos, eu quis continuar estudando e mudei para Vitoria, no intuito de fazer pós-graduação. Para tanto, trabalhei um tempo em uma loja de produtos agrícolas. Juntei um dinheiro e fui para a capital. Na semana que comecei a pós, consegui um emprego na Federação das Indústrias do Espírito Santos (FINDES), o equivalente à Fiesp em SP. Nestas instituições, a situação pode ser um pouco complicada, pois as coisas mudam em dois em dois anos com as eleições para presidente da Federação, tornando-se uma situação muito instável. Ao terminar meu contrato, resolvi mudar de rumo e ir fazer um trabalho voluntário nos EUA e África onde conheci minha esposa Sora Jeon, que é sul-coreana .
No Instituto Federal do Espírito Santo – Campus de Alegre, onde se formou como técnico agrícola. Crédito: arquivo pessoal.
E como esta oportunidade surgiu na sua vida? Eu tenho um amigo chamado Caio Henrique Santos que fez dois intercâmbios e comentou sobre esta possibilidade, como uma alternativa para aprender inglês. Assim, comecei a pesquisar e buscar programas de intercâmbio em países como Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, mas todos eram muito caros! Eu planejava ter uma experiencia profissional internacional e fazer um trabalho voluntário. Até aquele momento, nunca tinha saído do Brasil. A minha viagem mais longa até aquele período foi ao Paraná, quando participei de um congresso. Foi por intermédio do Caio que acabei contatando a Ana Glaucia Coutinho, amiga dele. Ela estava trabalhando nesta organização, chamada One World Center, em Michigan, no EUA, uma Organização Não Governamental, que promove um programa com duração de um ano e meio, cuja capacitação é feita nos Estados Unidos e depois você é mandado para a África. Completado este tempo no continente, você retorna aos EUA para completar o curso e terminar esta pós-graduação oferecida pelo One World University em “Luta contra a Pobreza”. Achei uma boa ideia! Aliás, algo curioso aconteceu, porque quando Caio falou sobre esta oportunidade, no dia seguinte eu comprei um jornal e lá estava o anúncio da Ana sobre o programa para trabalho voluntário. Entrei em contato com ela e três meses depois eu já estava nos Estados Unidos.
Deyvid (E) com a prima Aniele, o irmão Adelson, a prima Ana Cláudia e o primo Ulisses. Crédito: arquivo pessoal.
Conte um pouco mais sobre o curso. Trata-se de um programa de um ano e seis meses. Nos primeiros seis meses, é feita uma capacitação nos EUA, depois você tem seis meses de trabalho voluntário na África, em que se escolhe em qual país quer trabalhar, assim como qual área deseja atuar: educação, saúde, ou agricultura; e, depois, você retorna aos Estados Unidos para reportar como foi a sua experiência e contribuir com pesquisa. Na verdade, com base na área que você escolher, já se é direcionado para determinado país na África. Por exemplo, para a área de agricultura há projetos em Moçambique e no Malawi. Acabei escolhendo o Malawi, um país pequeno da África, quase do tamanho do Espírito Santo. Mas antes preciso explicar uma questão. A Ana participou do programa e recebeu uma bolsa de 50%. Por esta razão, ela foi quatro meses antes de começar o período normal de um ano e seis meses para os EUA, no intuito de divulgar a iniciativa no Brasil e conseguir mais voluntários. Comigo ocorreu o mesmo. Fui quatro meses antes de começar a minha capacitação nos Estados Unidos, para divulgar o programa, após ter ganho uma bolsa. Este período foi bastante complicado porque eu não falava inglês. Então, foi o momento para aprender o básico da língua. Ou seja, foi algo bastante desafiador. Hoje me viro melhor na Coreia, do que naquele tempo nos EUA. Na Coreia há muita coisa em inglês, mesmo em cidades do interior. Creio que tenha sido um desafio e tanto! E foi mesmo! Aprendi no dia-a-dia! Estudando por conta própria, durante estes quatro meses, quando divulgava o programa para o Brasil. Quando a capacitação iniciou chegaram os outros integrantes da equipe. Montou-se uma espécie de time. Minha situação acabou ficando ainda mais complicada, pois era preciso fazer trabalhos, apresentações. O método de ensino lá é bastante diferente do Brasil, porque o nosso orientador não dava uma espécie de aula em que o aluno senta e fica ouvindo o que o professor tem a dizer. Na realidade, foi algo bastante libertador para mim. Acabei desprendendo deste método passivo que temos no Brasil de ensino, de ter tudo “mastigado”. Lá, você é incitado a ter mais iniciativa própria na busca por conhecimento, no estudo em si. Contudo, foi bastante complicado realizar as tarefas neste período pela falta do inglês, tanto é que deixei para fazer algumas delas quando eu voltasse da África.
Promovendo o programa de voluntariado One World Center. Crédito: arquivo pessoal.
Pelo que estou entendendo este programa une trabalho voluntário e estudo, correto? Sim, o projeto foi criado e organizado por uma organização não-governamental dinamarquesa que tem uma universidade em Moçambique. Durante o trabalho voluntário, você é obrigado a fazer uma pós-graduação à distância pela instituição, sem custo algum. Na época, tratava-se ainda de uma medida nova deles e nós éramos a turma de transição. Portanto, não era uma obrigação realizar a pós, mas fomos convidados a participar, o que acabei aceitando. Do meu time somente eu me formei, os outros foram embora quando voltaram da África. Eu fui o primeiro do One World Center a ter o diploma da One World University. Por sinal, algumas tarefas e disciplinas que estudávamos lá nos EUA faziam parte da grade curricular da universidade, o que foi bastante útil. Além disso, nós também viajamos por boa parte dos Estados Unidos para arrecadar fundos para o nosso projeto na África. Aliás, pensando agora, acho que conheço mais dos EUA do que do Brasil, em razão disso. Viajamos de Michigan até o Texas de carro, cruzando de norte a sul o país. Como funciona a estrutura desta organização dinamarquesa? Ela se chama de “Humana: people to people”, e tem uma sede nos Estados Unidos, na Dinamarca, na Inglaterra e na Noruega. Estes são os locais onde treinam os voluntários para trabalharem na África, em projetos que já são pré-estabelecidos pela organização. Ou seja, o voluntario vai trabalhar em um programa que já está em andamento, ou que será iniciado. A “Humana” é uma ONG que iniciou suas atividades há muito tempo na Dinamarca. Nos anos 70, o país tinha apenas um canal de televisão e dois de rádio. Então, um grupo de professores resolveu ver e conhecer o mundo pelos seus próprios olhos, e não pelo o que a televisão mostrava. Assim, eles se uniram e compraram um ônibus velho. Adaptaram o veículo e fizeram uma viagem muito longa até a Índia. Sim, saíram da Dinamarca e foram para a Índia. E, desta forma, eles começaram a, todo verão, fazer uma viagem. A Europa fica no centro do mundo, o que ajuda muito também. Ao mesmo tempo, eles tiveram a ideia de realizar projetos. Iniciaram um programa na Índia, depois foram para a África e também impulsionaram iniciativas na área de educação e assim foram solidificando e expandindo para o mundo inteiro. Certamente, não é em todo os locais que há trabalho voluntário, há na África, no Brasil com o estado da Bahia. Eles são bem fortes hoje em dia!
Com os colegas do One World Center, em Michigan, nos EUA. Crédito: arquivo pessoal.
A sua instituição nos EUA é uma espécie de filial da “Humanas”? Sim, a “One World Center”, é uma filial da “Humana” no Estados Unidos e tem a função de capacitar os voluntários. Hoje a “Humana” em si é mais focada em projetos dentro da África. Eles têm representações com outros nomes em diversos países. Nos EUA, a “Humana” é a “One World Center”, já no Malawi, na África, chama-se “Development Aid: people to people”. Em Moçambique chama-se “Associação de Desenvolvimento: pessoa para pessoa”. Então em cada local eles tem uma nomenclatura. A universidade em Moçambique chama-se “One World University“, o que mostra que eles decidiram nivelar todas as intuições que trabalham com educação e capacitam as pessoas, os voluntariados com o mesmo nome. Eles são financiados através do recolhimento de roupa usada, através de doações e de parcerias com governos. Soube quando estava na África, que eles tinham uma parceria com a United States Agency for International Development (USDA), porque a “Humana” tem muito conhecimento de trabalhos no continente africano. Assim, por exemplo, havia um projeto que focava na distribuição de alimentos, que eles executavam em parceria com o governo local. Contudo, a principal fonte de renda dela é a venda de roupa usada. Eles recolhem roupa usada dos países desenvolvidos e vendem para países em desenvolvimento. O dinheiro arrecado é aplicado nos trabalhos sociais. Qual foi o país e a área que você escolheu? Eu queria estar em um país de língua inglesa. Então escolhi o Malawi e as áreas de educação, saúde e agricultura. Eu fiquei na cidade de Mzimba que fica na região norte do Malawi. Mesmo que eu tenha escolhido um projeto na área de educação, como nós fomos para a zona rural, acabamos experienciando outras áreas. Neste país, a “Humana” tem escolas de capacitação para professores, e a África tem uma grande demanda por professores. Então, a organização já tem várias escolas construídas no Malawi e pretende ainda fazer outras. A nossa foi uma escola que estava iniciando. Na realidade, ela ainda não tinha nem inaugurado quando nós chegamos. O curso já tinha começado, com as professoras sendo capacitadas em outra escola. Desta forma, acabamos trabalhando junto com a comunidade local. Quando se abre uma escola, geralmente a ONG ganha um terreno do governo.
Viajando pelos Estados Unidos para arrecadar fundos para o projeto da África. Em Washington à frente da estátua de Martin Luther King. Crédito: arquivo pessoal.
Qual o tamanho da cidade que você ficou? Imagine que Mzimba é uma cidadezinha em que há uma rua principal asfaltada com algumas ramificações de estradas de terra. A escola que trabalhamos ficava entre 1h desta cidade andando a pé, ou de bicicleta. Na verdade, nós andávamos mais a pé, ou empurrando a bicicleta, porque tínhamos que sempre subir morro. Tínhamos três classes de alfabetização e lecionávamos aulas sobre combate da AIDS, desnutrição e malária (e alfabetização). Somado a isso, eu e outras duas voluntarias coreanas tínhamos dois viveiros para plantar muda de floresta nativa. Um dos grandes problemas do Malawi é que não tem gás para cozinhar, nem energia. Então, eles acabam cortando muita lenha para poder cozinhar. Por isso, o plantio de arvore é constante. Como me formei em técnico agrícola tive mais facilidade para constituir estes viveiros. Claro que não fizemos algo como o que existe no Brasil em que há toda a estrutura para montar um viveiro. O nosso lá foi algo bem rudimentar, com apenas algumas cercas de pé de milho seco amarrado que ajudavam o gado e as cabras não se aproximarem do local. Era uma situação bem precária pelo jeito? Olha, eu nasci e cresci em uma cidade bem pequena do interior do Brasil, em condições para padrões brasileiros, consideradas precárias. Contudo, quando cheguei na África é que fui entender o que era pobreza e miséria realmente. Aí compreendi que, na realidade, eu era um privilegiado. Primeiro existe a questão da chuva, nós temos chuva o ano inteiro, o Malawi não. Eles têm um curto período de chuva que ocorre no verão, mesma época desta estação no Brasil. São chuvas torrenciais. A pobreza das zonas rurais, assim como das cidades, é muito grande. O que podemos considerar que é uma vantagem do Malawi é que 70 a 80% da população vive na área rural. Desta forma, querendo ou não, eles têm um pedaço de terra para cultivar, em uma espécie de agricultura de subsistência. As três comunidades que atendemos, ficavam em torno da escola e eram muito carentes de necessidades muito básicas. A estrutura das escolas é também bastante precária. As pessoas vivem em casas muito humildes, às vezes dormem no chão, em pequenas esteiras. Elas cozinham em um fogão improvisado, de lenha.
No trabalho voluntário, em Malawi, na África. Crédito: arquivo pessoal.
E como era o local onde permaneceu durante sua estada no Malawi? Na cidade onde morávamos, em Mzimba, até tínhamos eletricidade e fogão elétrico, mas pelos diversos blecautes tínhamos de cozinhar também de forma improvisada. Fazíamos uma boca no chão, enchíamos de carvão dentro para esquentar e com o carvão quente cozinhávamos tudo ali. Como um fogão de uma trempe. Em uma semana, faltava eletricidade umas três vezes. E duas horas depois da eletricidade cair, cessava a água corrente também, pois as bombas que impulsionavam a água para a nossa casa paravam. Mas, sabe, eu estava feliz! Mesmo com estas dificuldades, nós tínhamos geladeira, fogão, uma casa boa com água na torneira, uma coisa que para os locais é um luxo só. É claro, que aquelas condições eram piores que a minha no Brasil. Mas nunca reclamei. As pessoas lá são realmente pobres, mas estão sempre felizes. Normalmente, as pessoas têm uma imagem dos países da África muito sofrida, no entanto isso ocorre geralmente em regiões onde há guerra e, em consequências dos conflitos, as pessoas precisam imigrar. No Malawi não há isso, então as pessoas são muito pobres, mas geralmente felizes. É um local muito seguro, você só deve tomar cuidado com as suas coisas, mas no geral não há problema. Contudo, éramos aconselhados a não andar a noite, porque havia muita gente bêbada. Assim, ficávamos a noite em casa, ou nos arredores.
Com alunos, Malawi, África. Crédito: arquivo pessoal.
Antes de chegarmos a outra fase da sua vida que foi o casamento e a ida para a Coreia, queria saber quais foram as mudanças que esta experiencia provocou em você. Foram muitas! A primeira eu diria que foi ampliar a forma como eu via as coisas e o mundo. Pois, imagine só, para uma pessoa que viveu boa parte de sua vida em uma pequena cidade do Espirito Santo no Brasil, acabar indo para outros locais completamente contrastantes – os EUA, um país muito rico, e depois o Malawi, em situação de muita pobreza. Passei a ver o mundo com os meus próprios olhos, tirando as minhas conclusões, sem ir muito atrás do que me dizem sobre os países, as regiões – aprendi isso. Também cheguei à conclusão de que no Brasil, nós somos constantemente podados. Nós somos de certa maneira bastante desestimulados a fazer certas coisas. Por exemplo, no Brasil é muito comum as pessoas te colocarem pra baixo, de geralmente falarem para você: “Ah acho que você não pode fazer isso que deseja. Acho que você não consegue, não é capaz de concretizar o que almeja”. Então, a primeira coisa que aprendi foi: você nunca ter feito uma coisa, não é desculpa para você não fazer, pois só se aprende, fazendo.
Trabalhando em conjunto com a comunidade do Malawi, na África. Crédito: arquivo pessoal.
Eu, juntamente com um dos professores, tive de construir um galinheiro em Michigan, nos EUA. Então, li um livro, procurei na internet e fiz algo que nunca tinha feito na vida. Nós tínhamos um projeto de criar galinhas em Michigan, onde é muito frio. Por exemplo, como construir um galinheiro que possa enfrentar o inverno rigoroso da localidade, mas eu e meu professor fizemos o galinheiro. Trata-se de uma quebra muito grande de paradigma. De você aprender por si próprio. Creio que a nossa educação é muito voltada para sermos meros receptores. Claro que é preciso receber conhecimento, mas também devemos procurá-lo e, acima de tudo, compartilhá-lo, o que no Brasil não se faz. É uma atitude típica de uma cultura bastante individualista, negativamente competitiva e mesquinha. As pessoas temem perderem sua posição privilegiada. Não que nos EUA as pessoas sejam mais solidárias, na realidade, nós vivíamos muito dentro da comunidade e não tivemos contato maior com o mundo dos Estados Unidos. Íamos às cidades, mas não tínhamos este contato intenso com os locais. Contudo, a partir desta minha experiencia, eu concluo isso do Brasil. Em especial as pessoas que vivem no interior brasileiro, ainda vivem em um meio bastante conservador e machista. É uma cultura que visa limitar o outro e de certa forma destruir os anseios e sonhos do próximo. Com as mulheres isso é ainda mais forte. E quando você vai para fora, você vê o quanto as mulheres são fortes. Eu fiquei impressionado de ver a energia, a coragem e a força que as meninas da minha equipe, provenientes de diferentes países, tinham de trabalhar e fazer as coisas acontecerem. Elas eram constantemente estimuladas e instigadas a construir e evoluir. E elas faziam o mesmo trabalho que nós homens, ainda que fossem tarefas fisicamente pesadas.
Em uma escola na zona rural do Malawi, na África. Crédito: arquivo pessoal.
E como foi o método de trabalho ao retornar aos EUA, após o trabalho voluntário na África? Na volta para os Estados Unidos, eu estudava e produzia conteúdo para a Universidade de Moçambique. Éramos em um grupo de 12 pessoas que ficaram espalhadas pelo Malawi. Na prática, o projeto educacional funcionava da seguinte maneira: pegávamos um tema como aquecimento global, por exemplo, e montávamos uma aula sobre isso. E então nós fazíamos estas tarefas juntos de pesquisar e produzir conteúdo tanto para os projetos, quanto para a universidade, eles são utilizados para as duas situações. E fazíamos nossa pós-graduação à distância, utilizando os tópicos fornecidos pela universidade. Tínhamos de realizar pesquisa sobre o tópico de estudo e depois fazer prova oral por Skype e escrita. Além disso, também dávamos aula sobre os estudos realizados e a experiência que tivemos na África. E a sua esposa esteve em Moçambique, correto, quando vocês se conheceram? Nos conhecemos durante a minha volta da África e começamos a namorar. Ela estava ainda no curso de capacitação preparando-se para ir a Moçambique. Já eu estava voltando do Malawi. Então, ela foi pra África e eu fiquei concluindo os meus estudos nos EUA. Mantivemos contato, mesmo que de forma bastante difícil, porque Moçambique é um país grande, diferente do Malawi que você em oito horas cruza o território inteiro. Eu terminei o meu programa e voltei para o Brasil. Ela me encontrou no Espírito Santo depois. Isso foi em 2012. Ela ficou um mês no Brasil e depois eu fiquei um mês na Coreia, na casa dos pais dela. Fui pra lá durante as minhas férias do trabalho. Eu tinha conseguido uma colocação na Vale do Rio Doce, quando retornei.
Deyvid foi o único da sua turma a se formar no curso de pós-graduação da One World University. Aqui com os seus colegas no período de treinamento, antes de ir para a África. Crédito: arquivo pessoal
Então você nesta oportunidade já conheceu um pouco da Coreia? Viajamos bastante pela Coreia e ela me apresentou vários locais como a ilha Jeju. Acho que passei a conhecer mais o país do que os meus amigos coreanos que eram parte da equipe na África. Porque tem muito coreano que viaja pouco pela Coreia, ficam mais em Seul, apesar do país ser pequeno e muito fácil de viajar. A infraestrutura e o transporte são ótimos. E na volta do Brasil decidiram casar? Sim, mas antes ficamos um ano e meio separados. Demoramos este tempo todo organizando tudo, todos os documentos também. Os pais e os tios dela vieram ao Brasil para o nosso casamento. Ela deixou o trabalho antigo dela e ficou uns quatro meses no Brasil, porque na Coreia não há como ter meses de férias, duas semanas já é muito. Ficamos este curto período de tempo e depois mudamos para a Coreia. Na realidade, quando voltei dos EUA fiquei cinco meses sem trabalho, descansei porque a experiência foi bastante cansativa. Eu tinha a proposta de voltar para Michigan e trabalhar como professor, mas logo passei numa seleção para trabalhar na área de comunicação da Vale do Rio Doce. Trabalhei dois anos na empresa com o mesmo amigo Caio que me aconselhou a fazer o voluntariado. Eu entrei em uma seleção como terceirizado, tinha a chance de ter uma primarização, mas os problemas econômicos já começavam com o valor do minério de ferro caindo de $140 para $ 40 dólares, às vezes até $ 35 no mercado internacional. Assim, a Vale iniciou uma política de cortar custos e demitir pessoal. Foi então que decidi ir para a Coreia. Minha esposa retornou primeiro e conseguiu um emprego logo. Entreguei meu apartamento alugado em Vitória, voltei para Guaçuí e arrumei minhas coisas em um quartinho na casa da minha mãe e fui embora, com a única perspectiva de que se no Brasil estava ruim, na Coreia não devia estar pior.
Deyvid e Sora casaram no Brasil e hoje vivem em Suwon na Coreia do Sul. Crédito: tayrineegotardo.com
Deve ter sido um período de transição bastante conturbado, não? Houve uma transição bastante intensa desde de regularizar o casamento na embaixada da Coreia do Sul no Brasil em Brasília e realizar toda a mudança de Vitória para Guaçuí e depois para a Coreia e ainda preparar o casamento e as luas de mel. Nós tivemos duas luas de mel: uma com a família dela que veio conhecer o Brasil, viajamos ao Rio e às Cataratas do Iguaçu e depois viajamos com meus amigos Caio e a esposa dele, Mariana, para Arraial D’Ajuda e Trancoso. Depois disso fizemos uma viagem de um mês para Bonito no Mato Grosso do Sul. Como foi então o início da vida na Coreia? A diferença cultural é muito grande quanto ao ambiente de trabalho no mundo empresarial. Trabalha-se muito, mas muito mesmo. Depois de passar horas no trabalho, (às vezes), você ainda precisa sair com o chefe e a equipe para confraternizar. É mais ou menos assim a vida de quem trabalha em empresa aqui. Eu já não queria ser empregado de ninguém. Assim, pensei em abrir um pequeno negócio. Foi quando minha esposa procurou algumas informações na internet e encontrou um programa do governo da cidade de Suwon, em parceria com o mercado tradicional local que vende de tudo, desde móveis à hortaliças. Eles estavam procurando jovens que quisessem iniciar um negócio com food trucks. Na época, eles tinham 18 trailers. Foi um projeto do governo federal em conjunto com o governo municipal também. Assim tratava-se de comida de rua e quando a Sora, minha esposa, me falou, a primeira coisa que me veio à cabeça foi o pastel. Pois, qual a comida originalmente brasileira, que se encontra na rua, que se gosta muito e é bem conhecido? O pastel. Assim, nós nos inscrevemos e eles nos aceitaram.
O food truck que Deyvid trabalha foi fornecido pelo Estado em um projeto que uniu os esforços dos governos federal e municipal, além do mercado local. Crédito: arquivo pessoal
Como foi o processo de seleção? Nós participamos de uma banca examinadora com pessoas do mercado e da prefeitura. Lá tinha uma cozinha que foi emprestada pra nós. Nós cozinhamos e eles provaram, depois nos chamaram para uma conversa individual onde falamos mais sobre o pastel. Minha esposa estava junto comigo e explicou que o pastel era uma comida tradicional brasileira. Eles gostaram justamente por se tratar de algo diferente, já que as outras opções apresentadas eram mais parecidas ou relacionadas com a culinária coreana. Tinha umas duas pessoas da Tailândia, mas o pastel eles gostaram muito e aceitaram. E como se deu o início do negócio? Primeiro, fui atrás de uma receita especial de massa, já que seria difícil encontrar aqui. Geralmente você encontra massa de pastel, mas os ingredientes aqui são diferentes. Assim, conversamos com uma pessoa que fazia massa de macarrão coreano e pedimos para ele seguir a receita. Ele fez e ficou muito bom. Com a minha receita ficou um pastel crocante. Trata-se de uma receita caseira. No Brasil, a gente come este pasteis de feira que são muito gostosos, mas o meu a massa tem um toque diferente. Aqui para você ter uma ideia tanto brasileiros, quanto coreanos podem até achar o recheio saboroso, mas sempre elogiam a massa. A massa de mandu que se utiliza para fazer pastel aqui na Coreia, ela praticamente não tem gosto, porque deixam isso para o recheio. Então utilizar esta massa não traria um diferencial. Assim, da forma como fazemos, os próprios brasileiros afirmam que é melhor do que os geralmente vendidos no Brasil. A massa é crocante e tem gosto. Minha família é italiana e já se tem uma tradição de fazer massa gostosa. Desta forma, o negócio foi crescendo. Já participamos de cinco (ou seis) programas de televisão, inclusive um dos programas é parte da KBS, que é a maior emissora daqui. Poderíamos compará-la com a Globo no Brasil, com a diferença que é uma televisão estatal, pertence ao governo sul-coreano. Fale mais desta participação nos programas televisivos. Há um programa que se chama “Vizinho Charles”, que fala da vida dos estrangeiros na Coreia. Nós participamos de um episódio de uma hora completo, falando de nossa vida. Neste programa do food truck, há uma equipe junto à prefeitura que é responsável por organizar e promover os food trucks. Assim, eles conseguiram participação em diversos programas para fazer reportagem sobre o nosso grupo de trailers de comida. Durante uma destas reportagens, conhecemos o produtor que nos aconselhou a participar do “Vizinho Charles”. Nós tínhamos inscrito a proposta para o programa, mas não recebemos resposta. Ele afirmou que conhecia o produtor do “Vizinho Charles” e ia falar com ele. E ocorreu também uma coincidência, ou destino, como queira pensar, pois este programa estava procurando pessoas que moravam com os pais dos cônjuges para saber como se dava a vida cotidiana deste encontro cultural.
Deyvid e Sora em uma de suas tantas viagens pela Coreia. Crédito: arquivo pessoal.
Interessante ver os detalhes desta convivência em um contexto mais íntimo. Mas será que não puxaram um pouco para possíveis atritos e conflitos para dar audiência? Na Coreia programas que só mostram que tudo está bem, que a vida é maravilhosa não conquistam o público, acaba não sendo bem-sucedido. É preciso sempre ter um tipo de atrito e tal. Assim, o produtor entrou em contato conosco e foram 15 dias direto de gravação. Foi uma grande oportunidade e ainda recebi um pequeno cachê para fazer o programa. Sem falar que conseguimos uma promoção e tanto do pastel. O produtor ficou meu amigo. O centro da história, claro, era o conflito de nós morando com os pais dela, querendo, obviamente, um dia adquirir nossa casa. Contudo, eu vivia em harmonia com a minha sogra, mas certamente queria ter minha própria casa. E este foi o tom que eles deram para o programa. Na realidade, não é que fosse ruim, eu poderia até morar mais tempo com eles, mas eu queria dar este próximo passo em minha vida. Então, eles aproveitaram isso para criar algumas cenas de atrito cotidiano como a sogra reclamando que eu estava demorando muito no banheiro, coisas assim. No entanto, meus sogros são únicos, eles são muito cabeça aberta para as coisas, exigem pouca coisa e são muito tolerantes, inclusive com a minha cultura. Algo que não é muito regra geral na Coreia. Eles não são rígidos com relação a hierarquia dos mais velhos, nada disso.
O casal na frente do prédio da KBS. Crédito: arquivo pessal.
Esta é uma questão importante na Coreia. Muitas famílias, em especial os pais, não aceitam quando o filho(a) coreano(a) é casado(a) com um(a) estrangeiro(a). Eu tive muita sorte, pois não foi o meu caso. No entanto, eu tenho amigas, uma em especial, que namorou com um estrangeiro, ambos participaram do trabalho voluntário na África, e os pais não aceitaram o esposo dela. Quando o namorado veio visitá-la na Coreia, eles tiveram de alugar um apartamento para ele ficar, porque os pais não queriam nem conhecê-lo. Então, isso existe ainda. Está aos poucos acabando, mas ainda existe. Agora, eu também tive alguns cuidados. Quando vim pra cá como namorado, eu e minha esposa resolvemos não dormir juntos, nos só fazíamos isso quando viajávamos, por isso ficamos um tempo enorme viajando (risos). E outra coisa engraçada foi quando decidimos casar, eu estava no Brasil. Como ia fazer para pedir a mão dela? Escrevi uma carta em coreano e mandei para eles. Minha esposa que fala espanhol e entende bem o português traduziu e enviamos para eles. Acho que isso ajudou com que acreditassem em mim, já que sai do outro lado do mundo para casar com a filha deles. É meio óbvio que podem surgir desconfianças e receios por parte dos pais. Assim, é preciso ir aos poucos construindo a confiança. E pelo que dizem é mais complicado para os homens do que para as mulheres o casamento, é correto? Não, porque, dependendo do que estamos analisando, a Coreia é um país mais machista que o Brasil de certa forma, ao menos neste quesito. O homem aqui acaba por ficar em um patamar maior, então as mulheres estrangeiras acabam sendo mais cobradas, em especial pelas sogras que são, em geral, muito rígidas com elas. Porque no passado existiu esta cultura tradicional que ao casar os jovens mudam para a casa da sogra, a mãe do marido, e a esposa passa a tomar conta da casa. Ou seja, a nora fazia tudo, enquanto a sogra tirava umas férias. Isso era algo muito forte antigamente. Porém, com o capitalismo puxando as mulheres para trabalhar, porque as empresas estão precisando de mão-de-obra, esta tradição, hoje, já não é tão forte. Eu tenho uma amiga brasileira que o marido é um coreano que já morou em diversos locais do mundo, inclusive no Brasil. Ele fala português como brasileiro praticamente. E a sogra, como de hábito na Coreia, sempre quer estar junto da nora. Então, ela chegava na casa da minha amiga e ficava reclamando que as cosias não estavam limpas e etc. No entanto, minha amiga rebelou-se, dizendo que não iria fazer nada daquilo, e a sogra cansou. Contudo, ela acabou tendo filhos e a sogra para fazer represália, não a ajuda em nada. Não cuida dos meninos! Mas ela está se virando muito bem, apesar de tudo! Está ótima!
O Pastel Brasil esteve presente em seis programas de TV conhecidos da Coreia. Crédito: Facebook Pastel Brasil.
Ultimamente tenho visto alguns jovens coreanos, homens, vindo ao Brasil e namorando brasileiras isso seria em razão desta rigidez cultural da Coreia? Sim, a cultura da hierarquia é algo realmente forte demais. No Brasil eles sentem-se mais livres, ainda que o país tenha problemas de todas as ordens. Eles preferem esta situação a continuar submetidos a rígida hierarquia  social. Aliás, esta é uma das razões que faz com que eu e minha esposa pensemos em ter filhos e criá-los em outro país. Porque durante a escola primária e secundária tudo vai bem, mas quando você entra para o ensino médio é um horror o que acontece. O tratamento é na base de muita pressão, mas muita pressão mesmo. A exigência dos professores é total, não há espaço para divertimento, não se pode fazer outra coisa que não estudar. Todos devem estar impecáveis em sala de aula, inclusive na forma de se vestir. E os estudos são muito focados para a carreira futura. Não é um estudo que serve para a vida, mas sim para você seguir uma carreira. Eles precisam estar focados em passar em uma universidade boa, famosa para ter uma carreira promissora, (esta é a febre da Coreia). Nós achamos esta visão muito fechada, por isso pesamos em mudar para países como Canadá, ou Austrália para ter filhos. Países que consideramos mais liberais, onde você pode ter contato com pessoas das mais diversas origens, com culturas diferentes. O coreano vive muito naquele pequeno mundinho dele, onde há apenas o coreano. Agora estão vindo mais estrangeiros pra cá, mas até pouco tempo atrás, era tudo mundo igual, onde todos agem e se comportam de forma mais ou menos igual. Agora tem o lado bom que é o senso de coletividade que é extremamente forte. Você acaba tendo aquela sensação de fazer parte de um todo. Contudo, esta noção de coletividade é tão forte que praticamente elimina as individualidades do ser humano, apagando a personalidade individual de cada um. E o coreano, diferente de outros asiáticos, é muito invasivo. Mesmo as pessoas já adultas, a sociedade meio que fica na espreita vigiando. Se não casou ainda com certa idade, é constantemente questionado e cobrado. Se já está casado, precisa ter filho o quanto antes, isso leva com que as pessoas passem a cada vez mais não querer formar famílias. Esta invasão na vida privada eu vejo todo dia. Por exemplo clientes coreanos chegam para mim, dizendo que me viram na TV e logo preguntam: Você já tem filhos? E eu nunca os vi na vida.
Assistindo à Copa da Rússia 2018 com brasileiros e coreanos. Crédito: Facebook Pastel Brasil
Isso seria um fator que leva o jovem coreano a imigrar, por exemplo? Certamente! O coreano mais novo sai do país para fugir desta hierarquia rígida do respeito ao mais velho. É algo que nos não entendemos, pois o coreano jovem não pode dizer não ao mais velho, é considerado falta de respeito, mesmo que o mais velho esteja passando dos limites. Mas eu nunca deixei de dizer não para as coisas, inclusive em coisas pequenas como quando querem que eu coma tal comida, um alimento que eu não gosto. Lembro que meus sogros insistiam dizendo que eu tinha de comer aquilo, mas eu simplesmente repetia: não quero, não gosto! No começo, eles acharam isso meio estranho, mas depois compreenderam. Mas existem grupos diferentes que agem de forma, menos conservadoras vamos dizer, não? O mundo da cultura é um pouco diferente. As pessoas normalmente já estudaram mais e tem contato com outras culturas, o que os faz serem mais arejados, e não seguirem a cartilha social. Contudo, pelos meus contatos na mídia, fico sabendo um pouco da vida de alguns kpopers que ficam na mão destes poucos empresários da indústria. É uma vida extremamente complicada, pois são totalmente controladas pelos agentes. Vamos falar um pouco do Pastel Brasil que caiu bem ao paladar coreano. Sim, 99% dos meus clientes são coreanos e retornam frequentemente. Sobre o pastel em si o primeiro desafio foi fazer a a massa. Ela devia ser gostosa e devia ter uma estrutura de produção rápida. Inicialmente comecei a fazer à mão, mas depois consegui uma fabrica que preparasse utilizando máquinas. Resolvido este problema, fomos para o recheio que foi outro desafio. Diferente de nós que temos milhares de opções de sabores, eu pensei que colocar uma variedade tão ampla assim iria embaralhar a cabeça dos coreanos. Assim, chegamos à conclusão que deveria ser algo simples, com poucas opções e objetivo. Coreano adora carne, e aqui tem o prato especial “bulgogi”, que é uma carne fatiada com molho de soja. Pensei que este seria um bom substituto para a nossa carne moída. Acabou que esta é a opção mais vendida. Eu adiciono queijo a todos os pasteis. A Coreia também come muito frango apimentado. Eu tenho uma espécie de caldo e carne de frango refogada com a pasta de pimenta “gochujang”. Foi outra opção que acrescentamos frango apimentado, com azeitona preta, milho e cebolinha. O terceiro sabor é de camarão, pois tínhamos de colocar algum fruto do mar. Escolhemos o camarão com extrato de molho de tomate mais cebola, cebolinha e pimentão. Ainda temos o sabor pizza que é feito de pepperoni, queijo, uma erva misturada com orégano e outros ingredientes, pimenta, calabresa e azeite. Fizemos também um sabor doce de Nutella com abacaxi, que não vende muito.
Cardápio do Pastel Brasil. Crédito: arquivo pessoal.
Por que? O coreano não come muito coisa doce, eles também não são muito de chocolate. Geralmente as sobremesas são frutas. O pastel doce vendo para jovens. E também, não faz muito tempo atrás, tínhamos uma demanda de alguns clientes coreanos que perguntavam pelo sabor original do Brasil. Tentei explicar que era o de carne moída e que o “bulgogi” substituía, mas eles não aceitaram. Assim, resolvemos fazer o de queijo, usando mozzarella, cream cheese e a erva de orégano. As pessoas estão pedindo muito. Na verdade, original mesmo do Brasil é de queijo minas que vai derretendo dentro, mas é impossível de achar aqui. Estamos nos encaminhando para o final de nossa entrevista. Queria que fizesse um comparativo entre Coreia e Brasil, já que você mora há alguns anos do outro lado do mundo. Eu sempre acho que o encontro de duas culturas é um momento muito rico de troca de experiências. Antes de eu vir para a Coreia, minha esposa falava assim pra mim: “um dia você vai entender o que é unidade, o que é uma nação”. E eu ficava imaginando, pensando o que seria exatamente o que ela queria dizer. Mas depois que eu cheguei aqui eu entendi o que ela quis dizer com o que é uma nação. O coreano tem um espírito de unidade muito grande e isso falta muito ao Brasil, falta demais! O coreano dificilmente fará alguma coisa para prejudicar outro coreano, assim de graça, por pura inveja. Como a Coreia foi constantemente invadida por outros povos, eles acabaram constituindo uma nação que é bastante fechada, mas ao mesmo tempo bastante unida. Já o Brasil foi um país colonizado, escravizado, muito explorado e as pessoas que formaram a nação brasileira são na realidade provenientes de várias outras nacionalidades e culturas. Sem falar, que o Brasil tem dimensões enormes, fazendo com que cada região seja, na realidade, um país pequeno dentro da Federação, o que nos faz estarmos mais inclinados a ter muitas divisões internas. Veja a divisão política atual, o que vemos é o brasileiro se esfacelar muito nestas lutas e picuinhas internas, esquecendo que estamos sendo explorados por outros países que tem todo o interesse nesta divisão. Na minha opinião, hoje tudo é analisado em escala econômica. O que há são grandes monopólios, oligopólios, os reais imperialistas. Eles são bancos com muito poder, não países, que exploram o Brasil de todas as formas e nós nos deixamos facilmente ser explorados. É incutido na cabeça do brasileiro que ele é o problema. É feita uma espécie de lavagem cerebral no brasileiro, através da mídia especialmente, que é tão grande, que você acaba colocando a causa de todos os problemas do país em nós mesmos.
Com a mãe, o padastro e o irmão Adelson. Crédito: arquivo pessoal.
Sair do país acaba por ajudar a ver as coisas de outras perspectivas? Não diria que todos adquirem esta capacidade, mas de forma geral, quando você sai do país e tem a oportunidade de estudar, como eu tive, estudando o poder e etc – lembro de uma disciplina da universidade que focava o estudo na compreensão de como o sistema internacional funcionava e quem governava o mundo. Quem manda é o capital, são as grandes empresas, esta elite mundial de milionários e bilionários. E de fora o que você vê é o trabalhador brasileiro sendo escravizado cada vez mais, tendo seus direitos retirado. Mesmo o processo de impeachment sendo PT (Partido dos Trabalhadores), ou não, sendo esquerda, ou direita, não se podia ter tirado a presidente Dilma Rouseff daquele jeito, sem provas concretas, mas a população brasileira caiu fácil nessa. Olha, eu não coloco a mão no fogo por ninguém, mas as acusações que fizeram, quem acredita é de uma inocência muito grande. O lema do poder é dividir para controlar. E é o que está ocorrendo, estão dividindo o país. O resultado é uma economia afundando, as empresas brasileiras sendo destruídas por uma aliança entre a elite local e  as grandes corporações estrangeiras, que querem mesmo é abocanhar o mercado nacional pra elas. Esta elite nacional que, na realidade, é fraca, ela só é forte com o mais fraco dentro do Brasil, mas quando coloca a cabecinha pra fora, passam um tanque por cima dela e a fazem com que seja submissa e “pau mandado”. Outra coisa que eu gostaria de dizer, o brasileiro sempre fala muito mal do Brasil, reclama da corrupção, mas esquece que o mundo inteiro, na realidade, funciona desta forma, em uma espécie de convívio entre o mundo legal e ilegal. Importante trazer esta questão, pois você está em um país que passou por uma situação recente muito semelhante, mas teve um outro desfecho. Comparando o impeachment da ex-presidente Park Geun-hye com o da Dilma, quais as diferenças que você aponta? As provas contra a presidente Park foram concretas, conseguiram documentos que a equipe dela tentou destruir, papeis que confirmavam a participação dela em esquema de corrupção, e isso se deu através de uma investigação jornalística. E mais, depois do impeachment, houve uma eleição. Ou seja, deu-se ao povo o direito de escolher novamente, o que seria correto em uma democracia. Eu gosto muito do atual presidente Moon Jae in. Eu fui com minha esposa na votação. Moon é um presidente de centro esquerda e na minha opinião vem trazendo ótimo frutos, seguindo um plano bastante objetivo e focado em caminho da pacificação da península. Inclusive o Moon foi preso político do pai da ex-presidente Park. Aliás, se nós formos analisar desde o fim da ditadura nos anos 1990, a Coreia entrou na democracia elegendo basicamente governos direitistas, às vezes você tinha uma alternação de governos que buscavam um aproximação e uma flexibilização, pacifica e amigável maior com a Coreia do Norte, mas o governo anterior ao da Park e o governo dela, foram extremamente fechados, completamente submissos aos Estados Unidos. Às vezes, há protestos de coreanos com bandeiras dos EUA. Normalmente são cidadãos idosos que gostam muito do pai da Park. Este foi um ditador que “desceu o cacete” mesmo, teve preso político, teve gente morta. A Park em si não é uma coreana que conhece a Coreia. Ela meio que sempre viveu em um mundo dos ricos bastante a parte, em uma bola, não conhecendo muito o dia a dia do cidadão médio coreano. Ela acabou ganhando muito em razão desta população idosa que almejava reviver os tempos de liderança do pai dela. E entre a ditadura brasileira e sul-coreana, o que você pode nos dizer? A ditadura no Brasil foi apenas uma continuação da exploração destas forças externas que já comentamos, que impediram reformas internas importantes de serem feitas. Já na Coreia, eles conseguiram construir uma base que perdura até hoje, e isso não há como negar. Eles souberam aproveitar este forte senso de unidade cultural que o coreano tem e o apoio dos EUA também foi importante. Hoje há 42 bases militares norte-americanas apenas na Coreia do Sul. O exército coreano é comandado por um general dos Estados Unidos e tudo isso acabou colaborando para o crescimento rápido da Coreia, em especial para fazer face a Coreia Norte e mostrar que o sistema capitalista é melhor de alguma forma, estamos falando de uma disputa ideológica obviamente. Por isso, houve investimentos externos pesados no país, mas que foram bem controlados e organizados pelo Estado, o governo coreano. Sem falar que a Coreia é do tamanho de São Paulo, né? Aqui é fácil de você fazer uma rodovia, uma ferrovia, estabelecer uma estrutura, conectar cidades e assim desenvolver mais rápido. O economista sul coreano Ha-Joon Chang, que hoje é professor de Cambridge, na Inglaterra sempre enfatizou a importância do Estado, do governo na economia como fator essencial para o desenvolvimento que ocorreu na Coreia do Sul. Você concorda com isso? Totalmente, na Coreia não tem esta coisa de livre mercado. Na economia de livre mercado, uma empresa é controlada por um conselho de acionistas e eles decidem os rumos que a companhia deve tomar, normalmente, claro, seguindo os interesses deles. O acionista tem uma porcentagem da empresa. Desta forma, ele indica um representante para o conselho. Esta pessoa vai trabalhar pra ele. Aqui há um conselho de acionistas, mas quem manda mesmo é o dono da empresa. A Samsung pertence a uma família. O pai iniciou como presidente e hoje quem está no lugar dele é o filho, o chefe real, o que dá as ordens. Eu acho engraçado que as pessoas reclamam e falam mal do governo norte-coreano. Ficam dizendo que é uma monarquia e tal, que não há democracia, mas, aí, eu me pergunto, isso é diferente na Coreia do Sul? Afinal, quem detém o poder real do país são as grandes empresas e a forma de poder deles gira em torno da linha consanguínea. Estas grandes empresas coreanas, Samsung, LGHyundai, KIA e tantas outras fabricam desde tampa de privada a navio na Coreia.
Crédito: Pastel Brasil/Facebook.
E a presença do Estado coreano na sociedade especificamente, prestando serviço, o que pode dizer a respeito disso? O Estado está bastante presente e é forte. Por exemplo, quando eu tiver o meu primeiro filho, vou ter uma ajuda do governo para tanto, se eu tiver um segundo, terei uma ajuda maior ainda, porque eles necessitam desesperadamente que as pessoas tenham filhos. Há ainda programas de bolsas, e eles têm ainda o que equivale a um bolsa família, tem bolsa creche, e, agora, há quotas nas universidades para filhos de coreanos com estrangeiros. São políticas específicas direcionadas às famílias multiculturais. O governo também incentiva o pequeno empreendedor, quem realmente precisa do auxílio estatal. Por exemplo, volta a dizer que o meu trailer de comida, meu food truck, foi dado pelo governo e eu tenho um contrato de dois anos que vai se renovando. O mercado onde eu trabalho é um estabelecimento do governo, as lojas pertencem ao Estado, o comerciante paga uma mensalidade ao governo que não é muito cara. Então, além do imposto pago, ele ainda tem esta mensalidade para contribuir. Acaba sendo uma forma bastante inteligente de impulsionar a economia. Ao vivenciar tudo isso, eu vejo as pessoas no Brasil dizendo que o setor privado tem que controlar tudo. Eu só digo: Para! Chega! Onde você viu que isso deu certo? Em nenhum lugar, ok! E depois que eu vim pra cá, gente, o governo ajuda demais. Se você é empreendedor, vai ter financiamento, tem opção de tudo que você queira fazer, escola também tem se precisar que é estatal. A universidade não é necessariamente estatal, mas é muito barata. Minha esposa, por exemplo, pagou 4 mil dólares o semestre, sem falar que ela ainda conseguiu bolsa de 50%. Já a saúde paga-se a metade. Eu, por exemplo, tive dor a um tempo atrás. Aqui em todo prédio comercial há uma clínica pequena. Mas você vai na clínica e tem médico. O estabelecimento é bem equipado. Minha consulta foi o equivalente a $ 6 dólares, eu paguei metade $3. O meu remédio custou em torno ao equivalente a $ 3,40 centavos. Fiz uma operação no dedo uma vez que custou $ 160, paguei $ 80. E se você quiser ter um seguro saúde, você pode pedir o reembolso da metade que você paga. Contudo, quando se fica mais velho aqui, a coisa complica bastante, porque os idosos são muito desamparados. Eu ia já perguntar sobre esta questão, como fica a situação do cidadão quando envelhece na Coreia do Sul, já que o Estado é tão presente? Neste quesito há uma ausência do Estado sul-coreano. A previdência pública deles é bastante reduzida. Você contribui, mas vai ganhar apenas 60% do que pagou e há uma data limite, a previdência não dura até a morte da pessoa. Então quando chega na data limite, os idosos não têm mais nada. A situação é realmente preocupante, há senhoras de idade que se prostituem para ganhar a vida. Para compensar, os velhos acabam voltando a trabalhar, fazendo serviços gerais. Por exemplo, onde moro, em cada condomínio há senhores bem velhinhos que ficam em guaritas durante o dia e a noite. Há outros, muitos por sinal, que ficam buscando produtos recicláveis: papelão. Se você jogar um papelão na rua, não vai permanecer uma hora, porque alguém vai passar e recolher. Têm senhoras que compram vegetais e vão para estação do metrô fazer uma espécie de feirinha. Estes dias fiquei comovido de ver uma senhora de cabelos bem brancos, não devia ter menos de 80 anos, fazendo uma feirinha destas de vegetais perto do metrô para conseguir um dinheiro qualquer. E estava um frio de rachar. Aquela cena foi comovente. É um problema difícil de ser resolvido, contudo, eu penso que eles acabam por não mexer nesta questão, pois estes idosos são mão de obra barata para o mercado e há muitos trabalhos que se necessita fazer e eles acabam realizando.
As famílias de Deyvid e Sora confraternizam em Guaçuí, no Espirito Santo, Brasil. Crédito: arquivo pessoal.
E em termos de educação dos cidadãos? Uma coisa que podemos reclamar da Coreia é a quantidade de lixo que é jogado na rua. Em Seul não é tanto assim, mas na minha cidade e no mercado onde trabalho, Vitória no ES era mais limpa. Para concluir você diria que tanto Brasil, quanto Coreia necessitam urgentemente, cada um no seu contexto, claro, promover mudanças estruturais básicas e essenciais. Para ambos, eu vejo que aos poucos as coisas vão mudando. Na Coreia, os próprios problemas e contradições do sistema começam a impulsionar mudanças, pois a população vai ficando irritada e o resultado disso é que acaba forçando, empurrando, com que o sistema atenda às suas demandas. O que é uma grande diferença do Brasil, onde impera o pensamento conservador. Acho que o Brasil, na realidade, é pacifico demais, aceita a situação de desigualdade fácil demais, é preciso uma atitude mais ativa e entender que todos nós estamos perdendo, é preciso desafiar e encarar as coisas, enfrentar as feras um dia, ou vai se viver em uma situação perpétua de crise e exploração. Por isso muitos brasileiros preferem migrar para outros países. Fonte: Texto originalmente publicado no site do Koreapost Link direto: http://www.koreapost.com.br/kp-reporter/deyvid-soroldani-na-coreia-ha-um-forte-espirito-de-unidade-coisa-que-falta-ao-brasil-entrevista/ Assista o vídeo na íntegra da participação de Deyvid Soroldani e Sora Jeon no programa da KBS, “Vizinho Charles”. Assista o casal também no pragrama da Munhwa Broadcasting Corporation (MBC). (no minuto 30 do vídeo) A Youtuber Marina Demori também provou o Pastel Brasil.
 

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