Hwang Sok-yong: a literatura em nome da paz durante os anos de chumbo

Hwang Sok-yong. Crédito: 뉴스페이퍼.

Todos os rebeldes com causa e demais indivíduos dissonantes da conjuntura política nacional de um país são fontes importantes que necessitam ser resguardadas. Isso se torna crucial, pois provavelmente são eles a força motriz que mantém alguma chama acessa de transformação social, por mais pequena que esta seja. Há quem diga que é fácil ser criativo durante a ditadura, ou em um período de grande conturbação política, pois o inimigo está bem claro aos opositores do governo em situação.

Contudo, escrever e questionar o contexto opressor, ou pouco convidativo aos que obtêm opinião própria e insistem em mantê-la, não é algo que qualquer um consiga fazer. Ainda mais narrando experiências próprias que podem não ser bem vistas pelo governo. Hwang Sok-yong, um dos maiores escritores contemporâneos da Coreia do Sul tem um histórico de vida e uma produção literária que já lhe atribuíram lugar certo entre novos, ou futuros clássicos da literatura mundial.

Ele nasceu em Hsinking (hoje Changchun), Manchukuo, um estado fantoche na Manchúria, criado por oficiais da antiga Dinastia Qing, em aliança com o Japão Imperial em 1932. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, sua família retornou à Coreia após a libertação em 1945. Hwang obteve um diploma de bacharel em filosofia pela Universidade de Dongguk. Desde criança ele foi leitor ávido de uma vasta gama de obra literárias, tendo o sonho de se tornar um escritor. Segundo matéria publicada pelo British Council, em 2014, o autor no quarto ano da escola primária escreveu um texto para ‘aula de redação criativa’, sendo escolhido para participar de um concurso nacional e ganhando o prêmio principal.

“Deus também pecou. Isto era o que eu costumava pensar. Ele olhou para este inferno em chamas e permaneceu calado. Hwang Sok-yong”. Crédito: Wise Famous Quotes.

Já naquela época o conflito entre norte e sul da península coreana encontravam-se em sua narrativa. Particularmente esta história contava a jornada de um jovem que voltava para casa depois de ter fugido para o sul durante a Guerra da Coréia. No entanto, o regresso seria algo extremamente dolorido, pois o protagonista descobre que toda a vila foi deixada em ruínas, com a devastação da guerra. Em parte, a trama desta história tinha como base a própria história de Hwang, filho de país norte-coreanos.

“Meu texto descreveu a tarde em que o personagem passava pelos pratos e utensílios domésticos em sua casa. Essa foi a primeira vez que recebi elogios de uma comunidade mais ampla, e decidi que, quando crescesse, em vez de bombeiro ou soldado, seria um “escritor”, embora não tivesse certeza do que isso significava. Eu pensei que escrever era algo que você fazia com as nádegas; porque você tem que passar muito tempo sentado à mesa”.

Já em 1964, ele foi preso por razões políticas ao encontrar com ativistas trabalhistas. Após a sua libertação, conseguiu um emprego em uma fábrica de cigarros e, posteriormente, em vários locais em obras de construção, em todo o país. De 1966 a 1969, Hwang foi obrigado a fazer parte do Corpo de Fuzileiros da República da Coréia, durante a Guerra do Vietnã. Mais tarde, nos anos 1980, o autor narraria em um romance de sucesso sua experiência e relutância em combater pela causa norte-americana, que ainda hoje acredita ter sido um ataque a luta pela independência e pela libertação que os vietnamitas travavam contra a colonização ocidental.

“O que diz respeito à literatura mundial, nos diz respeito também. Hwang Sok-yong”. Crédito: LTI Korea Library.

Ainda segundo o próprio autor, uma de suas atribuições no Vietnã era apagar provas de massacres civis, enterrando os mortos, o que ele descreve como uma experiência horrível, tendo de estar constantemente cercado por cadáveres que eram roídos por ratos e tomados por moscas. Com base nessas experiências, ele escreveu o conto “The Pagoda” em 1970, ganhando consequentemente o prêmio de ano novo do jornal diário Chosun Ilbo. Seu primeiro romance, “A Crônica de Han”, narra a história de uma família separada pela guerra.

Publicado em 1970, o romance ainda serve como tópico de discussão para debates em torno da visita de Kim Dae-jung à Coréia do Norte e o encontro do ex-presidente com Kim Jong-il. Este livro foi traduzido para o francês pela editora Zulma, em 2002. Com sua coleção de histórias intitulada “Na Estrada para Sampo”, lançada em 1974, Hwang ganha mais reconhecimento do público leitor. Sendo estas publicadas em um jornal diário ao longo de dez anos, o autor conseguiu burlar a censura utilizando-se de parábolas como a de um bandido dos tempos antigos para descrever a ditadura sul-coreana. Tratou-se de um enorme sucesso no norte e no sul da península, vendendo cerca de um milhão de cópias. Atualmente, os textos continuam sendo best-seller de ficção na Coréia.

A luta que travava em palavras logo assumiu outra forma, tendo Hwang Sok-yong participado ativamente dos movimentos de massa. Em 1980, ele esteve na conhecida revolta histórica de Kwangju. Ainda no levante, chegou a escrever para teatro e durante a execução de duas peças suas, vários artistas acabaram mortos. Como ele disse uma vez: “Eu lutei contra a ditadura de Park Chung-hee. Trabalhei nas fábricas e fazendas de Cholla e participei dos movimentos das massas em todo o país. . . em 1980, participei da revolta de Kwangju. Eu improvisei peças, escrevi panfletos e canções, coordenei um grupo de escritores contra a ditadura e comecei uma estação de rádio clandestina chamada ‘A voz livre de Kwangju’“.

Crédito: Amazon.

O romance premiado de Hwang Sok-yong, em que ele conta sua amarga experiência da Guerra do Vietnã, “The Shadow of Arms”, foi publicado em 1985. A obra seria traduzida para o inglês em 1994 e para o francês em 2003. Conforme as próprias palavras do autor, publicadas pela Centro para Estudos Coreanos, integrante do Instituto de Estudos do Leste-Asiático, pertencente à Universidade da Califórnia, Berkeley“que diferença havia entre a geração de meu pai, recrutada para o exército japonês ou que teve de atender às ambições pan-asiáticas do Japão, e a minha própria, jogada no Vietnã pelos EUA, a fim de estabelecer uma zona “Pax Americana” no Extremo Oriente?”

Em 1989, Hwang viajou clandestinamente para Pyongyang na Coréia do Norte, via Tóquio e Pequim, como representante do nascente movimento democrático. Por tal ousadia, o governo o sentenciou a cinco anos de prisão. Enquanto estava preso, ele realizou dezoito greves de fome contra restrições como a proibição de canetas e alimentação inadequada.

Em 2014, ele relatou um pouco mais do que ocorreu na época: “recebi uma sentença de prisão de sete anos por violar a “Lei de Segurança Nacional” e, embora a Anistia Internacional e a Poets, Essayists and Novelists (PEN) International fizessem campanha pelos direitos de escrita dos prisioneiros, que também era ativamente apoiada pela Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), eu obviamente não tive estes direitos atendidos. Em 1998, Kim Dae-jung foi eleito presidente e efetuou uma mudança no governo, então fui libertado depois de apenas cinco anos com o perdão presidencial”.

Crédito: Seven Stories Press.

Hwang partiu para exílio voluntário em Nova Iorque, onde lecionou na Universidade de Long Island. Ele também passou um tempo na Alemanha, onde testemunhou a queda do Muro de Berlim. Retornou para Seoul, em 1993. Em 2000, publicou seu romance, “The Old Garden”, traduzido para o alemão em 2005 pela DTV, e em francês pela Zulma. A edição em inglês foi publicada em setembro de 2009 pela Seven Stories Press. O livro foi adaptado para o cinema em 2007 com a direção de Im Sang-soo.

Em 2002, a obra “The Guest” foi publicada, sendo posteriormente também traduzida para o inglês e o francês. Trata-se de um romance sobre um massacre ocorrido na Coreia do Norte e atribuído erroneamente aos americanos, mas que de fato tinham sido executado por cristãos coreanos. De acordo com o Korea.net, a palavra “guest” (convidado em inglês) do título vem do fato de que a causa aparente da guerra, democracia versus comunismo, são conceitos e ideias, na verdade, não originadas em terras coreanas. Segundo o site, o forte domínio que as forças cristãs têm no texto também são costumes do Ocidente. Além disso, naqueles tempos, a varíola era temida como uma doença grave de outro mundo.

Estas questões fazem clara referência de que às origens do conflito coreano, ocorreram em grande parte devido a ingerência externa e seus elementos históricos, políticos, econômicos e sociológicos que influíram e influem diretamente no contexto interno da península. De qualquer forma, a Digital Library of Korean Literature (LTI Korea)afirma que o trabalho de Hwang pode ser definido nas seguintes três categorias: 1) trata sobre a perda da humanidade e sobre a devastação da vida, em razão do processo de modernização, da guerra e do sistema militar; 2) expressa o desejo de recuperar a vida saudável e rejuvenescer os valores danificados e; 3) pode também ser categorizado como romance histórico.

Crédito: Carousell.

A trajetória de Hwang certamente lhe rendeu muitos seguidores e inimigos. Miguel Lorenci, do site espanhol Diario Sur, escreveu em artigo publicado em 2015 que Hwang, além de fazer uma crítica dura ao desenvolvimento econômico sul-coreano no romance “Bari, a princesa abandonada”, não se entrega a fáceis posicionamentos da esquerda coreana que, junto a setores mais conservadores, classificam Kim Jong-un de feroz ditador. Disse o autor a Lorenci: “não ignoro, nem tolero as atrocidades do Norte com relação aos direitos humanos, mas não posso me limitar a uivar com o resto do bando. Você tem que tentar entender também o contexto interno”.

Na entrevista, o escritor também salientou: “não sou do norte, nem do sul”. Ainda sobre o desenvolvimento econômico repentino sul-coreano, Hwang afirmou: “houve um enorme custo social, com jovens que se suicidam, mais de 40 ao dia, com cada vez menos oportunidades, que não podem emancipar-se ou se apaixonar, casar, ter filhos, ter um emprego decente, ou uma casa… A Coreia fez em três décadas algo que a Europa conseguiu em 300 anos e o Japão em 100 anos. O custo social do crescimento econômico sem freio é a crescente desigualdade, após a crise e o desaparecimento da classe média. O crescimento rápido deixou para traz muitos buracos que necessitam hoje serem preenchidos”.

Crédito: Asia House Arts.

Ainda sobre a questão política na Coreia o autor relatou: “a paz virá em dez anos, mas falar em unificação é outra coisa. Isso será alcançado através da coexistência e não por imposição, e ainda levará tempo”. Lorenci também contou que Hwang tem grande admiração pela literatura espanhola e latino-americana: “a literatura espanhola fez com que eu descobrisse o realismo fantástico latino-americano que esta presente em ‘Bari, a princesa abandonada’”. Nos dias de hoje, o escritor presta atenção especial a questões que pautam os acontecimentos políticos mundiais, a exemplo da imigração.

Segundo ele: “a imigração é a fonte de onde muitas nações foram originadas, como os EUA, mas a migração política e econômica é uma tragédia universal, um dos flagelos do capitalismo no século XXI. Em ‘Bari, a princesa abandonada’ mostro o inferno dos imigrantes e as dificuldades do exílio e da intolerância”. Para Hwang nem a Europa, nem os Estados Unidos, nem qualquer governo asiático está agindo de forma correta com a imigração. Por isso, para o autor deveria haver um órgão supranacional que regulasse esses fluxos que são e serão imparáveis e protegesse os imigrantes.

Por fim, aos fãs de música sul-coreana eis uma curiosidade: o romance de Hwang “O Sonho de Gangnam”, que aborda o contexto de elite de Seoul, pode ter servido de inspiração para a música e o estilo “Gangnam” do cantor Psy. Em ambos está expresso os piores efeitos do capitalismo selvagem. Contudo, Lorenci questionou Hwang sobre a música ser hoje a provável única referência cultural sobre a Coreia para milhões de pessoas em todo o mundo.

O hit Gangnam Style do músico Psy’s, por um bom tempo, foi o vídeo mais assistido no YouTube. Crédito: Billboard.

“É uma música irônica e Psy conta a verdade. De como o capitalismo puro agiu e age em um bairro pobre que ficou rico de última hora, brega e sem glamour. Eu também fui muito irônico neste trabalho. Portanto, não seria de estranhar que Psy tenha procurado inspiração em minha obra”, respondeu o escritor.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Koreapost

Link direto: https://www.koreapost.com.br/destaques/hwang-sok-yong-a-literatura-em-nome-da-paz-durante-os-anos-de-chumbo-coreanos-pelo-mundo/

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