Nossas retinas também são latinas

O projeto é uma iniciativa desenvolvida por seis entidades cinematográficas da América Latina. Crédito: PQS.pe.

Imagine se existisse uma plataforma de streaming gratuita com uma curadoria de filmes cujo único recorte fosse que as produções sejam feitas dentro do território do que chamamos de América Latina – tipo uma Netflix latina. Curta-metragens e longa-metragens, documentário, ficção e qualquer coisa entre um e outro, com gêneros diversos e contextos ainda mais distintos, e paradoxalmente, próximos. A boa notícia é que ela existe, e está disponível para nós, brasileiras e brasileiros: podemos nos cadastrar e assistir. A má notícia é que o Brasil não aceitou o convite de fazer parte da formulação dela. E o resultado é a quase total ausência de filmes brasileiros e pouquíssima comunicação sobre essa iniciativa. E algumas outras questões.

Retina Latina é uma plataforma de streaming dedicada a difundir, promover e distribuir cinema latino-americano. É gratuita e tem caráter público. Isso significa dizer que ela foi iniciada pelas entidades cinematográficas públicas dos países que se dispuseram a fazê-la: Bolívia, Equador, Peru, México, Uruguai e Colômbia. Ela é resultado do projeto “Plataforma”, de coordenação regional para a distribuição audiovisual, beneficiado pela convocatória de Bens Públicos Regionais do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A proposta surgiu a partir da necessidade de gerar ações concretas de alcance regional para responder a três questões: inexistência de um mercado regional consolidado, concentração de obras nacionais de sucesso no mercado local que não são exibidas nos países vizinhos, e insuficiência dos mecanismos de coordenação regional para distribuição de filmes.

O Brasil foi convidado a participar do projeto em 2013, quando os primeiros estudos para a plataforma começaram a ser feitos, ou seja, em fase de construção. Segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), o Brasil optou por não participar, alegando os custos. De acordo com a Folha de São Paulo, o orçamento da primeira fase era de R$ 3,7 milhões. O BID entrou bancando 36%, destinado a consultorias preparatórias, tecnologia e serviços de operação. O restante foi dividido entre os órgãos de cinema dos países participantes, principalmente para a compra de direitos autorais.

Entidades Cinematográficas Públicas dos países participantes:
Consejo Nacional de Cinematografía de Bolivia (CONACINE)
Consejo Nacional de Cinematografía del Ecuador (CNCINE)
Dirección del Audiovisual, la Fonografía  y los Nuevos Medios del Ministerio de Cultura del Perú
Instituto Mexicano de Cinematografía de México (IMCINE)
Dirección del Cine y Audiovisual Nacional del Uruguay (ICAU)

Coordenação e Secretaria Técnica:
La Dirección de Cinematografía del Ministerio de Cultura de Colombia
Apoio: Banco Interamericano de Desarrollo (BID)
Órgão executor: Proimágenes Colombia
Colaboração: Conferencia de Autoridades Cinematográficas de Iberoamérica (CACI) por meio do programa DOCTV Latinoamérica (17 países latino-americanos integram)

O que chama atenção é que já existe um debate antigo sobre o Brasil ser a maior economia da América do Sul e ainda assim recusar um convite de participar de um projeto que beneficiaria bastante os filmes brasileiros. As obras seriam disponibilizados a nível continental, porque já há oferta, e isso fomentaria o mercado regional pelos filmes, aumentando uma demanda já existente – novelas brasileiras são exportadas com êxito, além de filmes brasileiros terem apelo junto a nossos vizinhos –, e ampliando as possibilidades de distribuição do cinema nacional a longo prazo. 

A relutância da elite brasileira em permanecer isolada do restante da América do Sul resulta em consequências nada positivas, inclusive para o mercado audiovisual brasileiro. Crédito: BBC.

Só que pra além disso, é importante chamar atenção para essa postura em relação aos nossos vizinhos e de como o nosso próprio país se vê em relação à América Latina, como se não fizesse parte ou fosse um caso à parte. Essa ideia tem raízes profundas nas formulações de política externa brasileiras, porque apenas em poucos mandatos específicos de governos o Brasil se aproximou da AL – economicamente, culturalmente, comercialmente, em termos de integração e acordos de cooperação – , trazendo à tona o quanto a política externa também é uma política pública. Isso possibilita uma interpretação de que, sendo uma política pública, ela tem relação direta com o programa político do governo que é eleito e, portanto, sua ideologia. E fazer parte ou não da América Latina, para então olhar como fonte de possibilidades, é ainda uma ideia em disputa.

Essa postura em relação aos vizinhos precisa ser repensada, porque existe um potencial econômico e cultural. Nosso cinema ganharia muito, e também nossa economia, em termos de distribuição e exibição, ampliação oportunidades comerciais de venda e de articulação regional. Além disso, nós, que também somos latino-americanos, ganharíamos muito mais se o intercâmbio fosse maior, se tivéssemos mais acesso a esses filmes, e mais incentivo a esse tipo de consumo. Até pra descobrir que algumas coisas são muito mais próximas do que a gente imagina.

Ana Clara Costa

Bacharel em Relações Internacionais pela UERJ e roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Suas pesquisas, escritas e oficinas dialogam com cinematografias do Sul, a partir de suas vivências em produções cinematográficas e de suas formações — acadêmica, criativa e técnica. Além disso, participou de sete curta-metragens e duas webséries, todas relacionadas a narrativas periféricas e populares.

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