Dica Intertelas: “Palestina” – edição especial de Joe Sacco (jornalismo em quadrinhos)

Trecho de uma das reportagens gráficas de Joe Sacco. Crédito: revistacult.uol.com.br

O grande público normalmente está acostumado a tratar as histórias em quadrinhos como algo voltado para o infanto juvenil. Algumas pessoas duvidam que uma história séria possa ser contada nesse formato, seja por acharem infantil ou por questões filosóficas (vide Teoria Crítica), quiçá um testemunho jornalístico. Para estas pessoas apresento Joe Sacco. Nascido em 1960, na ilha de Malta, naturalizado americano, e formado em jornalismo pela Universidade do Oregon.

Joe Sacco. Crédito: dawn.com

Em decorrência aos seus trabalhos que mesclam os relatos jornalísticos com as graphic novels, hoje ele é considerado o pai de um gênero conhecido como quadrinho jornalístico. Esta alcunha Sacco conseguiu através da publicação, no ano de 1993, da HQ “Palestina” (que em 2011 a editora Conrad publicou no Brasil uma edição especial com 288 páginas).

Para adquirir o livro clique na foto. Crédito: Mercado Livre.

O quadrinho conta o período de dois meses (final de 1991 e início de 1992) que o jornalista ficou viajando pela Palestina e Israel, coletando material para esse projeto. Mostrando através de relatos coletados pelos mais variados tipos de pessoas, como o governo israelense pouco a pouco toma e, vai minando a vida dos palestinos. A apropriação de posses por causa de profecias religiosas, destruição de recursos para a subsistência, maus tratos causados pelas forças militares e movimentos rebeldes, são alguns dos temas tratados em um local totalmente entregue ao caos.

Trecho de “Palestina”, por Joe Sacco. Crédito: SOUL ART.

De acordo com Sacco, a motivação para a criação do quadrinho foram duas: a primeira foi sua insatisfação em, de certa forma, financiar o apoio americano ao governo Israelense, pois como cidadão americano tinha noção que parte de seus impostos eram destinados a este fim:

“(…)como todos provavelmente já sabem, os Estados Unidos fornecem a Israel uma ajuda financeira maior que a recebida por qualquer outra nação, e não me agradava (como ainda não agrada) a ideia de, direta ou indiretamente, financiar aquele projeto de colonização baseado na desapropriação de terras ou qualquer outros aspecto da brutal ocupação israelense.”(Palestina, Ed. Especial, Conrad, página xvi) A segunda razão era com a forma com a qual a grande imprensa americana realizava (e realiza até hoje) a cobertura sobre este assunto. Apenas a visão Israelense era levada em consideração.

Trecho de “Palestina”, por Joe Sacco. Crédito: SOUL ART.

 

Após os massacres nos campos de refugiados de Sabra e Shatila, onde centenas de palestinos indefesos foram executados por uma milícia cristã aliada às forças de invasão de Israel, em uma área cercada e isolada pelos israelenses, comecei a pressentir que a dinâmica do poder naquela parte do mundo não era exatamente a que me fora transmitida. Passei então a procurar outras fontes que não os jornais dos Estados Unidos” (página xvi e xvii)

Apesar do traço um pouco caricato em relação aos rostos, mais ainda o do próprio autor, que também é o protagonista da história, Sacco consegue repassar um pouco  do clima encontrado nos locais visitados. Curioso como todo jornalista deveria ser, ele não mede esforços em saber cada vez mais detalhes de uma pessoa, seja ela um antigo colono, ou um jovem recém saído de uma prisão. Algumas partes da história mostram um pouco de pretensão no autor (e até algumas passagens de sua vida), mas isso não é algo que atrapalhe o decorrer da história, a deixa até mais leve para ser lida. Uma excelente escolha para quem gosta ou não de quadrinhos.

João Aquino

Estuda jornalismo na Faculdade Pinheiro Guimarães e é videomaker. Atualmente realiza trabalhos para a TV Comunitária do Rio de Janeiro. Já escreveu para NCST-RJ e para o site MaisQi Nerds.

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