“A negociação”: a empatia transformadora e combatente entre um criminoso e uma policial

Crédito: Pinterest/Korean Drama 24/7.

Toda sociedade tem um número de “crenças” e regras que mesmo não sendo reais no mundo concreto, continuam por serem perpetuadas na busca de manter a fé das pessoas na humanidade. A ideia de que uma pessoa somente, uma espécie de herói, ou heroína, com um poder descomunal é capaz de reverter todo mal aquece e tranquiliza o coração de muitos.

Mais profundo ainda é quando se acredita que um ser abstrato vá um dia surgir, ou ressurgir, fazer a limpeza e o dever de casa que os humanos imperfeitos assim não conseguiram, tornando o mundo e a vida justos finalmente. São as crenças e as ilusões necessárias para que, no geral, a grande maioria continue na linha e reproduza o as regras do sistema criado pelos homens, como deve ser, sem transformá-lo, sem revolucioná-lo para algo melhor.

Crédito: IMDb.

Um sistema que tem uma estrutura bastante complexa e que apenas existe se tanto o lado “bom”, quanto o lado “ruim” coexistirem. Como o mercado ilegal e o legal que, na realidade, dependem um do outro para seguirem com suas funções. Afinal, para que seriam necessários policiais se não existissem bandidos? Para que seriam necessários exércitos se as guerras não ocorressem? E para que produzir armas se todos respeitam a vida acima de tudo? Ao ter claro que este contexto existe, sendo realista e não pessimista, encontrando soluções concretas e não fantasiosas, é possível ter em conta que as mudanças podem ser realizadas através da atitude pouco convencional e muitas vezes corajosa dos indivíduos em conjunto.

Isso quando estes conseguem livrar-se da “máquina” que os conduz diariamente, deixando de serem meros sobreviventes egoístas, ou parte da engrenagem sistêmica exploradora para pensar em todos e lutar por todos, ou por alguém em específico do qual acabem criando empatia, ou um certo amor humano fraternal, que os faça querer justiça e cuidar do próximo, ainda que este lhe seja um estranho, ou digamos seja inclusive uma pessoa que não tenha feito as escolhas mais certas na vida.

Son Ye Jin interpreta a emotiva negociadora e policial Ha Chae Yoon. Crédito: IMDb.

“A Negociação” (The Negotiation) (2018), dirigida por Jong Suk Lee traz esta mensagem em um enredo que combina de forma bastante natural entretenimento e os males mais proeminentes na sociedade sul-coreana atual.

Assim, a história gira em torno de uma negociadora chamada Ha Chae Yoon (Son Ye Jin) que faz parte da equipe de negociação de crises da Agência Metropolitana de Polícia de Seul e um traficante de armas Min Tae Gu (Hyun-Bin) que sequestrou dois coreanos em Bangkok . Ha Chae Yoon é a típica servidora pública que ao trabalhar em algo tão único faz com que dificilmente possa ter uma vida cotidiana muito turbulenta, com pouco tempo usufruir dela. Seguindo uma lógica bastante comum de ocorrer nestes casos era de se esperar que ela não fosse uma pessoa muito emotiva, que tivesse uma atitude mais endurecida sentimentalmente e que encarasse a violência como algo normal.

Hyun-Bin vive o surpreendentemente humano traficante de armas e sequestrador Min Tae Gu. Crédito: IMDb.

Contudo, a personagem foge deste clichê e supreendentemente apresenta uma personalidade bastante humana, sofrendo com as vítimas, com a perda ocasional de vidas. E mais interessante é que o traficante e sequestrador Min Tae-Gu acaba seguindo esta mesma linha.

À primeira vista parece um criminoso frio e calculista. Contudo, ao longo da narrativa, quando se vai descobrindo as razões que o levaram a sequestrar e fazer reféns,  percebe-se que a raiz do seu problema tem como pano de fundo uma história de teor pessoal bastante emocional. E, acima de tudo, suas intenções visam, principalmente, enfrentar um sistema extremamente corrupto, comandado por uma casta de autoridades e uma elite empresarial de grande poder, envolvidas com tráfico de armas internacional. Este mercado que tanto legal, quanto ilegal é um dos mais lucrativos do mundo.

Crédito: IMDb.

Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), uma organização que realiza pesquisas científicas em questões sobre conflitos, localizada na Suécia, o valor total do comércio de armas em 2017 gerou algo em torno de 95 bilhões de dólares e as 100 maiores empresas do campo lucraram em torno de 398.2 bilhões de dólares apenas no ano referido. Os principais países que vendem armas são exatamente nesta ordem: Estados Unidos, Rússia, França, Alemanha e China. Os alemães têm como seu principal comprador a Coreia do Sul, totalizando 19% de suas vendas. A Coreia que tem suas próprias empresas de armas e que participa deste mercado tanto legalmente, quanto ilegalmente.

“A Negociação”, infelizmente, não trabalha em sua narrativa, os bastidores deste mundo com maior profundidade, servindo este mais como um pano de fundo e para promover uma das causas que desencadeia todos os acontecimentos da trama. Contudo, esta falta não diminui a importância, nem torna esta produção cinematográfica menos atraente, pois ela acaba focando na questão humana que se almeja debater.

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Somado a isso, as intepretações de grandes atores, em conjunto com um roteiro que explora bem as situações de tensão deixam o espectador bastante focado e esperando pelo desfecho que este drama terá. O mais interessante talvez a se apontar é que será através de Min Tae Gu que a negociadora Ha Chae Yoon vai deixar sua posição passiva para tomar uma atitude e tonar-se uma policial real. Isso porque ele enxerga nela a capacidade humana mais evoluída para tanto, como salientando acima: o de ter empatia pelo próximo, seja ele (a) quem for.

Desta forma, “A Negociação”, além de nos fazer atentar para a estrutura do sistema e suas relações dúbias e bastante esquizofrênicas entre o mundo legal e o mundo ilegal, destaca algumas temáticas importantes: criminosos também amam e podem ter causas bastante justas para defender, apesar de suas escolhas; um bandido pode ser mais humano do que aqueles que vivem aparentemente uma vida de conduta social impecável, mas que, por baixo do tapete, são os reais monstros desprovidos de qualquer humanidade; um indivíduo comum como uma servidora pública e seus colegas estão mais inclinados a poder realizar as transformações necessárias e enfrentar o sistema do que os chamados líderes, pessoas de destaque ou seus superiores já viciados, conduzidos e engolidos pela “máquina sistêmica”. Assista “A Negociação” na Netflix.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Koreapost
Link direto: https://www.koreapost.com.br/colunas/a-negociacao-a-empatia-transformadora-e-combatente-entre-um-criminoso-e-uma-policial/

Título: A negociação
Título em coreano: 협상 (Hyeobsang)
País: Coreia do Sul
Direção: Jong Suk Lee
Roteirista: Sung Hyun Choi, Park Myeong Chan (comic)
Elenco: Ye Jin Son, Hyun Bin, Sang Ho Kim
Duração: 1h54min
Lançamento: 18 de setembro de 2018
Idioma: coreano
Legendas: português

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