Sinofuturismo, uma via possível para entender a China do século XXI

Crédito: http://moussemagazine.it

Sinofuturismo trata-se de abraçar a China em sete estereótipos chave de sua sociedade e a partir destes elementos, a saber: computação científica, cópia, jogos, estudo, vícios, trabalho e apostas, e se aproximar da dinâmica do país que emerge como potência mal compreendida através deste movimento de arte política. Os sete estereótipos sinalizam como o desenvolvimento tecnológico da China pode ser visto como uma forma de inteligência artificial. Seja em função da decorrência dos acúmulos, os milenares de sua formação bem como os referentes dos desenvolvimentos desta dinâmica dos sete estereótipos chave de sua sociedade.

O Sinofuturismo é de fato uma forma de inteligência artificial distribuída em massa a partir de redes de relacionamentos baseada na reprodução, na cópia em detrimento da originalidade. Sendo preciso considerar a reprodução de forma ampla a abranger desde orientações mais pragmáticas como as manifestações mais holísticas. Como exemplo é possível pensar nos períodos em que o país se fechou em si para depois retornar aplicando em seu território reproduções de ações, medidas ou políticas bem sucedidas aplicadas anteriormente em outros países. Ou simplesmente seguir atuando e reproduzindo o que comprovadamente há muito tempo para eles faz sentido ou funciona.

Crédito: https://omnitudo.wordpress.com

Acerca do vício em aprender, absorver novas tecnologias ao invés de formulações para questões filosóficas ou moralidades. Contam com o fato de seus cidadãos trabalharem arduamente e da capacidade sem precedentes de colecionarem forças e poderes, no sentido de sua trajetória milenar histórica que inclui desde os feitos megalômanos ( das embarcações de Zhen He à Nova Rota da Seda)  às resiliências e superações de cada período (dos kulis苦力Kǔlì, escravos, o significado literal do termo é  (uso) amargamente severo (de) força,  aos empreendedores, passando pelo surgimento e ascensão da classe média.

A base de refúgio ou de fuga para este percurso elucidado acima que integra a percepção da existência e sua identificação como sendo originário da China será extravasado nos vícios das apostas. Desta forma e via os sete estereótipos da sociedade chinesa, o movimento de arte política do Sinofuturismo nos provoca a olhar a China.

Computação Científica

Qual o papel do pensar? A computação cientifica projeta esta reflexão na competição já instaurada e em curso, entre humanos e máquinas. Programados máquinas e humanos funcionam. Disputas entre ambos em situações para medição de capacidades e habilidades versus tempo de execução há anos são praticados e testados, como foi o caso por exemplo de partidas de xadrez e atualmente avançam em experimentos mais elaborados que envolvem a distinção das nuances não programáveis projetando o lugar do homem e o papel do pensar nesta conjuntura pós tecnológica.

Qual o fator que nos distinguirá das máquinas diante do uso da inteligência artificial? Observar o modo de organização da sociedade chinesa seria ou não uma maneira de projetar, vislumbrar e se organizar para os cenários futuros possíveis? A provocação de considerarem a si próprios como máquinas ou engrenagens a operar dentro de um sistema com características híbridas (socialismo de mercado) trata-se da construção narrativa do Sinofuturismo.

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Cópia

Ao copiar replicam os mestres, o conceito da cópia instaura-se no sentido do treinar, reverenciar, repetir e aperfeiçoar. Identificam-se, apreciam e então copiam. O Sinofuturismo absorve tudo, arquiteturas, poemas, artes, produtos falsificados, réplicas (de eletrônicos, carros, bolsas, roupas…) para desta forma promover a inclusão ao proporcionar o acesso em função dos preços mais baratos. A questão da cópia conduz a China a um melodrama em relação a sua imagem associada ao “made in China” ao ser identificada como fabricante de quinquilharias de má qualidade.

A lógica do Sinofuturismo opera de maneira mais pragmática ao considerar sem sentido produzir visões do futuro quando estes já existem. A China há tempos investe para ser reconhecida em seu estágio atual do “created in China” ou seja produtos de fabricação com uso de tecnologia própria. O movimento compartilha um otimismo crítico em relação a tecnologia de outros movimentos tidos como movimentos minoritários entusiastas das tecnologias como o futurismo italiano, o afrofuturismo e o golfo futurismo ou futurismo dos países do oriente médio. Os movimentos futuristas usavam a base tecnológica como forma de liberdade de acordo com seu próprio contexto político sendo ou não democracias.

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Jogos

Jogar é treinar. Os ensinamentos da era maoísta influenciaram gerações de atletas olímpicos, bailarinos, acrobatas. A contradição instaurada na prática de treinar o corpo em época cibernética diz respeito a corporeidade. O corpo a ser treinado agora é o holograma, a versão virtual. A China é um dos países que mais crescem na indústria do eSports e eGames.

Os jovens chineses, as gerações de filhos únicos criados pelos avós desviam a solidão nos jogos. Fizeram das lan houses refúgio, extensão da própria existência , encontraram nas opções dos jogos virtuais liberdades para outras personalidades e realidades criadas a partir de suas vontades. Um mundo paralelo mais brando uma realidade própria possível só no virtual. Em 2008 a China declarou o vício à internet como uma desordem de saúde estabelecendo  tratamentos clínicos que envolvem treinamento militar para a “recuperação” de adolescentes. Clínicas de reabilitação para dependentes de internet surgiram aos montes para amenizar a fuga desta criação de futuro que sempre pode ser mudada.

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Estudo

A pressão em função da competição, o esforço pela colocação no ocupar o lugar, pela oportunidade e pelo emprego. Uma característica presente desde os idos do mandarinato ao atual 高考 Gāokǎo, prova para entrar nas universidades públicas. O esforço, a memorização o bombardeio de informação para a formação. Assimilação de informações sem propriamente gerar questionamentos sobre o conteúdo memorizado.  

A carga horária intensa semi integral nas escolas, as atividades extracurriculares e a cobrança pela dedicação sobre humana, máquinas depositárias de dados. O estudo como prioridade independente das condições emocionais geradas na formação de crianças ou adolescentes criadas sob tal rigor, a disciplina da privação do convívio com os pais já que muitos os encontram duas vezes por ano. A disciplina dada aos estudos não é necessariamente exclusivo do Sinofuturismo o mesmo se aplica aos resultados proporcionados em função do que dele é gerado, produzido, fabricado e distribuído globalmente. O movimento apenas inclui e aponta esta característica também presente na sociedade chinesa como instrumento para seu entendimento.

Lawrence Lek é um artista multimídia, cineasta e músico baseado em Londres. Seus trabalhos incluem os filmes “AIDOL”, “Geomancer”, “Sinofuturism”, as simulações de videogames do mundo aberto “2065”, “Europa, Mon Amour”, “Unreal Estate” e “Nøtel”, uma colaboração audiovisual com Kode9. Crédito: http://encac.eu

Vício

Trabalhar duro e empreender. E assim trabalham a autoestima, se organizam e se reconhecem a partir desta dinâmica. O desequilíbrio gerado em crises pelo ócio ocorreu na Guerra do ópio. O vício como mecanismo para o encontro das próprias fraquezas, o descanso dos embates o impulso em sombra para a dualidade à luz, a parte necessária para o acalanto das superações, a parte do caminho que distrai e seduz.

Trabalho

A linha de evolução do trabalho da agricultura que passa pela indústria e chega ao tecnológico. O desafio em relação aos postos de trabalhos humanos que serão mantidos dada a modernização e a automação tecnológica combatido pela presença de projetos megalomaníacos, como o Novo Cinturão e Rota. Ou o maior de sempre, a manutenção da ideia viva de Oriente sendo a China a exercer o domínio do Centro, sendo o Império do Meio.

Em paralelo a manutenção e a desconfiança pela ameaça de continuar sendo a fábrica do mundo, as questões ambientais, as mudanças laborais e também de sua legislação que criaram melhorias das condições de trabalho e também de produção. Alteraram ainda a imagem atrelada à figura do trabalhador a partir do cruzamento do subconsciente à tecnologia, passaram dos atributos atrelados aos ninjas de outrora aos heróis virtuais de agora.

Apostas

A alternativa para lidar com a melancolia do passado que passa pelos heróis marciais, ou para escapar da tragédia imposta da realidade do trabalho ou do estado concentram-se nas apostas. A combinação do momento certo atrelado a sorte e à esperança da mudança do destino tedioso combatida pelo vício das apostas. Praticam as estratégias do mahjong 麻将Májiàng, ao I Ching passam pelo xadrez chinês, pelos baralhos e dados as atuais versões virtuais.

O Sinofuturismo a defender a crença de um futuro próspero sonhado. A inclusão dada via as habilidades desenvolvidas de acordo com o cenário de cada jogo e neste panorama é possível sempre ter reconhecimento ou destaque, basta escolher o jogo ao qual melhor se adapte. O movimento do Sinofuturismo não traz a preocupação com o futuro dramático não se trata de ganhar mas sobre minimizar as chances de perder, não é sobre o outro e sim como sobreviver .

Crédito: https://diffractionscollective.org/

Fernanda Ramone

Mestre em gestão da indústria cultural (Universidade de Pequim) e consultora judicial na Gestão de Projetos da Indústria Criativa. Autora do capítulo “A Produção Cultural na China” no Guia Brasileiro de Produção Cultural 2010-2011, publicado pelo Sesc SP.  Morou nove anos na China, atuando como correspondente da BandNews TV. Trabalhou ainda na Rádio Internacional da China e promoveu o DocBrazil Festival, em Pequim e outras cinco cidades chinesas.

Fonte: texto originalmente publicado no site do Extramuros
Link direto: https://www.extramuros.net/2019/08/15/sinofuturismo-uma-via-possivel-para-entender-a-china-do-seculo-xxi/

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