A resiliência humana e a luta pela paz após a bomba de Hiroshima

Da esquerda para a direita: Junko Watanabe, Takashi Morita e Kunihiko Bonkohara. Crédito: Bianca Brito.

A Segunda Guerra Mundial é um dos assuntos mais procurados e pesquisados no mundo. Apesar de passados 75 anos desde o seu término, os impactos causados por ela, de toda ordem, ainda se fazem sentir entre as gerações que não tem ideia alguma o que significa experienciar uma situação como aquela. Porém, apesar de uma guerra tão destrutiva ter ocorrido, parece que não foi suficiente para aplacar os erros que levaram a sua eclosão: violação da soberania de vários países, assim como a ingerência por parte de grandes potências nos assuntos domésticos de nações com menos capacidade de defesa, incitação ao ódio e negação da condição humana e das consequências devastadoras de um conflito mundial.

Todas estas e outras questões não constam nas mentes de vários grupos de jovens atuais, em grande parte doutrinados por líderes de caráter duvidoso, que constantemente negam os fatos históricos e a dor humana que nestes últimos consta. Por isso, em um mundo que mais uma vez passa por crise econômica e instabilidade política, a atenção deve ser redobrada e a informação disseminada para que um evento catastrófico como a Segunda Guerra Mundial não tenha qualquer possibilidade de ocorrer novamente. Este é o objetivo maior da Associação Hibakusha Brasil pela Paz, fundada em 1984, pelo sobrevivente da bomba de Hiroshima e ex-membro da Polícia Militar do Exército Imperial do Japão, Takashi Morita.

Da esquerda para a direita: Kunihiko Bonkohara, Junko Watanabe e Rogério Nagai. Crédito: Binômio Comunicação.

Não é fácil estar na posição deste empático e carinhoso senhor. Ter pertencido a um grupo que sob o comando de um imperador e seus generais extremistas perpetraram sofrimento a muitos e promoveram lembranças de destruição e hoje compreender estes horrores e ter sobrevivido a eles, requer uma resiliência que poucos detêm. Da mesma forma ocorreu, após ser vítima de um ataque nuclear que a história já provou que não teria necessidade de ter ocorrido, sofrer preconceito de seu próprio governo e compatriotas, em razão do medo e desconhecimento que se tinha das consequências da radiação para o corpo humano.

Foi também considerado um traidor por deixar sua terra natal, sem qualquer tipo de compensação, ou auxílio do governo japonês, mesmo sob a condição de sobrevivente de um ataque nuclear. Contudo, de todas lembranças terríveis, Morita consegue promover uma autorreflexão e uma autotransformação que são exemplos para muitos. Atualmente, já na casa dos seus 90 anos de idade, não há o que o impeça de repassar uma mensagem de paz, de perdão e compreensão dos perigos que podem resultar do ódio. Estas e outras memórias ele conta em detalhes em seu “A úiltima mensagem de Hiroshima“, publicado pela Universo dos Livros, em 2017.

Dos acontecimentos que marcaram a vida de muito inocentes, inclusive pelo lado japonês, o jovem Morita que tentava auxiliar os que foram atingidos pela bomba, hoje continua a enfatizar o que aprendeu desde aquela experiência: nunca se deve pensar em alguém como inimigo e que não há espaço para a dignidade humana na guerra. Outros exemplos de vidas atingidas e incapazes na época de compreender a complexidade dos horrores da época são os casos de Junko Watanabe, que tinha apenas dois anos quando a bomba caiu sobre Hiroshima, e Kunihiko Bonkohara, com cinco anos na ocasião. Ele que ao sair com o pai para procurar a irmã e a mãe, após a explosão, testemunhou um cenário apocalíptico que relembra como se fosse ontem, mesmo estando no ápice da terceira idade.

São tais histórias que escutamos narradas por estes três sobreviventes que compõem o texto do espetáculo teatral-documental  “Os Três Sobreviventes de Hiroshima”, produzida, roteirizada e dirigida por Rogério Nagai. O teatro documentário, ou teatro de não-ficção, utiliza-se de documentos, fatos e memórias como fontes primárias para a sua elaboração. Tal forma teatral surgiu na Alemanha, em 1925, com o dramaturgo Erwin Piscator, após a sua participação na Primeira Guerra Mundial. Com auxílio de fotos projetadas durante a peça, assim como efeitos sonoros, que em única apresentação ocorrida na cidade do Rio de Janeiro este ano, na Mostra Ásia 2019, contou com a performance da Associação Nikkei e seus tambores taiko, Nagai que também integra o espetáculo, servindo como narrador, apresenta seus principais “personagens”.

Crédito: Joelma do Couto.

 

Assim, ele conduz entre os relatos os pontos de virada da narrativa e também os toques de humor em uma apresentação teatral que, apesar do conteúdo profundamente dramático, contém seus momentos cômicos, demonstrando o lado descontraído dos sobreviventes. Uma prova de que ao ser humano também é possível sobreviver aos piores desastres, seguir em frente e construir uma vida sem rancor.

Estão contidos nas lembranças dos sobreviventes o período do pós-guerra, a vida no Brasil, o engajamento em repassar a mensagem da paz, o alerta para os perigos da radiação, a solidariedade e ajuda aos sobreviventes de desastres nucleares e naturais e a constante luta por um mundo sem bombas atômicas. A peça que já teve 26 edições e passou por várias cidades do Brasil ainda demonstra momentos chaves da vida destes sobreviventes como o encontro que tiveram com os cidadãos estadunidenses.

Na ocasião a plateia ouviu atentamente aos seus relatos e alguns pediram perdão aos três incansáveis japoneses, que no passado teriam sido considerados inimigos. Morita, na ocasião, deixou claro aos presentes emocionados que imploravam por absolvição do ataque pertpetuado pelos Estados Unidos: “a única culpada naquela situação foi a guerra”. Acompanhe a futura programação da peça e outras novidades pelo Facebook Sobreviventes pela Paz.

Deixe seu comentário

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: