“Cada obra é parte de uma série sobre a ternura dos fracassos”, Vitor Medeiros, curador da Mostra Hong Sang Soo

O diretor Hong Sang Soo. Crédito: https://blogdomauricioaraya.com/.

A Mostra “Hong Sang Soo – A repetição da vida” homenageia a obra do diretor coreano, vencedor do prêmio “Um Certo Olhar“, em Cannes, com “Hahaha” (2010), e considerado um dos principais cineastas do mundo. Ela segue com a sua programação até o dia 22 de dezembro no CAIXA Cultural Rio de Janeiro (Cinema 2 – Endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro – Metrô e VLT: Estação Carioca).

Com curadoria de Isabel VeigaSamuel Brasileiro Vitor Medeiros, organizado por Luzes da Cidade – Grupo de Cinéfilos e Produtores Culturais, o evento tem o objeitvo de exibir longas inéditos produzidos pelo realizador no Brasil. Para saber um pouco mais sobre a organização desta iniciativa, a importância da obra de Hong Sang Soo e como se deu a ascensão do cinema sul-coreano e, de certa forma, de outros países da Ásia, vizinhos à Coreia, o curador Vitor Medeiros concordou em responder algumas perguntas da Revista Intertelas que você confere a seguir.

Cena de “A visistante Francesa” (2012). Crédito: Caixa Cultural RJ.

Como surgiu e se desenvolveu o projeto da Mostra?

Apesar de ser um diretor muito reconhecido internacionalmente, a obra de Hong Sang Soo foi pouco vista no Brasil. Os primeiros filmes nunca foram exibidos em cinemas aqui, a maioria passou só em festivais, com sessões pontuais, e apenas alguns entraram no circuito comercial – ainda assim, um circuito bastante restrito, dos cinemas “de arte”.

Eu pesquisei o trabalho do Hong no mestrado, passei um bom tempo debruçado sobre sua filmografia e, conversando com a Isabel Veiga e o Samuel Brasileiro, pensamos que seria uma experiência interessante poder assistir a esse conjunto de filmes em uma sala de cinema e fazer uma maratona de filmes com debates. Estamos desde 2016 tentando viabilizar o projeto junto com o Aleques Eiterer e o Pedro Nogueira, nossos produtores parceiros, e agora finalmente conseguimos o espaço da Caixa Cultural.

Acreditamos que esses filmes nos ajudam a vislumbrar outros cinemas possíveis, inclusive para refletirmos sobre nossa produção aqui no Brasil. Com poucos recursos, Hong consegue alcançar resultados incríveis, e isso está vinculado também aos seus métodos de trabalho, como ele conduz o processo de realização, tudo isso é muito interessante.

Cena de “Conta de Cinema” (2005). Crédito: Caixa Cultural RJ.

O que faz a obra de Hong Sang Soo destacar-se de outros grandes nomes do cinema sul-coreano?

O Hong tem uma produção bastante volumosa, realizando em média um filme novo por ano, e isso acontece devido à grande autonomia que ele conseguiu desenvolver enquanto cineasta. Diferente dos seus conterrâneos contemporâneos, que fazem grandes produções, com grandes orçamentos, equipes numerosas, o Hong faz filmes menores, com orçamento reduzido, que ele próprio escreve, dirige e produz. Isso lhe dá uma enorme liberdade criativa.

E ele aproveita as limitações e consegue fazer filmes muito potentes, extraindo grandes atuações do elenco – em geral, composto por estrelas da indústria cinematográfica, que topam fazer os filmes do Hong ganhando pouco ou nenhum cachê, porque acreditam no trabalho. Cada filme tem suas características muito particulares individualmente, mas todos eles lidam com o mesmo universo e possuem uma estética muito parecida. É como se cada obra fosse um novo episódio de uma série interminável sobre a ternura dos fracassos e a improbabilidade dos encontros. Geralmente, são personagens artistas ou intelectuais que, por algum motivo, têm seus cotidianos suspensos.

Seja devido a uma viagem, a um hiato entre dois trabalhos, à espera por inspiração artística… eles estão em busca de distrações, tentando preencher o vazio em que se encontram. Então eles caminham, conversam, se embebedam e fazem sexo, não necessariamente nessa ordem. Os personagens são muito vivos, às vezes meio ridículos, principalmente os homens. Muita gente compara os filmes dele com o cinema do Éric Rohmer por causa dos diálogos longos, ou então com o Yasujiro Ozu, por conta das situações cotidianas, tem um humor ácido que lembra um pouco o Woody Allen, tem as experimentações narrativas que remetem ao Alain Resnais, e por aí vai. Mas são filmes muito singulares.

O cinema sul-coreano vem buscando espaço no mercado internacional, quais as estratégias que vocês observam tanto no aspecto criativo, quanto comercial que os profissionais do setor neste país tentam promover?

Não só o cinema, mas a indústria cultural sul-coreana encontra-se em um momento de pujança. Muitos pesquisadores ao redor do mundo estão estudando esse fenômeno, que tem sido chamado de Hallyu, ou a Onda Coreana. Originalmente concebido pela imprensa de Pequim no final dos anos 1990, quando a China começou a sentir os efeitos da invasão cultural sul-coreana, Hallyu significa “fluxo da Coreia”.

O termo abarca o intenso escoamento de produtos culturais provenientes da Coreia do Sul que tem conquistado grande popularidade primeiramente no Leste e Sudeste Asiáticos e, mais recentemente, nos países ocidentais. Tais produtos englobam filmes, música pop, dramas de TV, celebridades, videogames, gastronomia, turismo, moda e idioma. Esse fenômeno cultural contribui para o processo de descentralização do trânsito cultural global que é, em suma, estruturado do Ocidente para o Oriente, apresentando, então, uma nova alternativa de trânsito de influências.

Através desses produtos, o pequeno país asiático consegue propagar seus valores culturais e ideologia política mundo afora. Hoje em dia, a Onda Coreana é sentida também aqui no Brasil: filmes como “Parasita” (2019) de Bong Joon Ho fazem grande sucesso de bilheteria, shows de K-pop vêm sendo realizados desde 2011, tem uma crescente procura por cursos de idioma coreano e muitas comunidades (principalmente virtuais) de fãs de produtos de entretenimento coreanos.

Cena de “O filme de OKI” (2010). Crédito: Caixa Cultural RJ.

Dificilmente, o cinema sul-coreano, assim como outras cinematografias da Ásia, teria maior atenção da mídia e do público no Brasil se não fossem premiados em grandes festivais europeus. Muitos filmes sul-coreanos não tiveram a mesma chance que um Parasita, justamente, por esta razão. O que precisa ser feito para o Brasil poder ter acesso à cinematografia de outros países, sem o aval da Europa, ou Estados Unidos?

Os festivais de cinema europeus ajudam a pautar o circuito comercial de salas de cinema, mas isso, na prática, atinge um público muito reduzido. O público brasileiro já tem acesso à produção artística de outros países através da internet. No caso do conteúdo sul-coreano, ele já está chegando aqui tanto através das grandes plataformas de streaming (Amazon, Youtube, Netflix), que têm seções inteiras dedicadas a filmes e séries sul-coreanas, quanto através de plataformas especializadas de vídeos sob demanda asiáticos (Viki, Kocowa), todas com legendas em português do Brasil.

Junto disso, tem os fóruns, blogs, sites, e toda uma rede de informações dedicada a discutir e compartilhar produtos de entretenimento sul-coreanos. O próprio Hong Sang Soo, embora não seja um cineasta de grande apelo popular, encontra seu público através dos nichos de cinéfilos, e isso a gente tá observando na mostra aqui no Rio. Tem um público cativo.

“Hahaha” (2012). Crédito: Caixa Cultural RJ.

No plano internacional, a Ásia vem tornando-se um pólo político e econômico de grande relevância, isso certamente vai impactar as indústrias cinematográficas de vários países, como vocês analisam o futuro do cinema nesta região e sua relevância para o mundo? E quais as oportunidades que se apresentam para a indústria brasileira?

A potência das indústrias cinematográficas da Ásia não é nenhuma novidade. Para além dos filmes que circulam em festivais de cinema, existe uma vasta tradição de conteúdo popular em diversos países que tiveram alcance global, como a China e Hong Kong (com os filmes de ação), Japão (com os animes de variados gêneros e as séries live-action de ação) e Índia (os melodramas musicais). São resultados de políticas culturais bem-sucedidas que funcionam a longo prazo.

Na Coreia, os investimentos sistemáticos começaram no final da década de 1990 e, vinte anos depois, o país está colhendo os frutos. É o que pesquisadores chamam de soft power, um poder exercido através da cultura, e não do poderio bélico, por exemplo. Isso movimenta não apenas a indústria cultural, mas a economia como um todo do país. Pensando no caso do Brasil, estaríamos agora começando a colher os frutos de uma política cultural reiniciada em meados dos anos 1990, depois da devastação vivida na era Collor.

Por isso, é muito triste perceber como o atual governo está estupidamente desmontando nossa cultura, ao invés de valorizá-la e entendê-la como parte de uma cadeia muito maior. Afinal, para além dos milhares de profissionais diretamente empregados nessas atividades, elas podem ainda trazer externalidades positivas ao conjunto da sociedade.

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