Dica Intertelas: #NãoMeJulgue, série tailandesa, apresenta reflexões sobre bullying e violência sexual

Cena da série tailandesa “#Não Me Julgue” (2018), produzida pela Netflix. Crédito: https://interprete.me/

É consensual que a expansão e popularidade crescente das plataformas de streaming de filmes e séries no cenário audiovisual global, vem ilustrando uma paisagem midiática mais diversificada em termos de representatividade regional e local. Por conta do desenvolvimento de novos meios de consumo do audiovisual surgidos no último decênio no mercado global, podemos observar mudanças significativas no cenário do audiovisual na qual fica visível o aumento da diversidade de nacionalidades de origem nos fluxos da cultura televisiva contemporânea.

Especialmente, a emergência da plataforma de séries e filmes da Netflix e a atual diversidade linguística expressada em seu catálogo brasileiro se apresenta como um excelente exemplo dessa mudança, uma vez que demonstra como formatos e gêneros televisivos produzidos fora do eixo EUA-Europa cada vez mais adquirem visibilidade, alcançando o interesse de um público global.

Durante muito tempo considerados produtos culturais de segunda classe, as séries televisivas produzidas nos países do Leste e Sudeste Asiático – doramas, k-dramas, tw-dramas, tai-dramas, dentre outros – cada vez mais ganham em status e notabilidade como espaço de desenvolvimento de narrativas complexas, bastante sofisticadas e com grande poder de mobilização da audiência. O drama televisivo tailandês #NãoMeJulgue (The Judgement) lançado e distribuido ainda em 2018 com o selo Original Netflix, ilustra de forma bastante contundente como narrativas produzidas num contexto não-ocidental, pode atingir os públicos globais ao dar enfoque a temas complexos e questões bastante contemporâneas de diversas sociedades, como o bullying, estupro, suícidio e homofobia.

A série também ilustra, de maneira geral, o grande boom de séries adolescentes, observado na referida plataforma nos últimos anos. A narrativa de #NãoMeJulgue, distribuida em apenas 1 temporada de 13 episódios, traz como temática central a discussão em torno da cultura do estupro e seus desdobramentos, através de uma abordagem cuidadosa e responsável a respeito da relativização da violência sexual entre os jovens. Ao mesmo tempo que a série promove uma reflexão densa sobre esses temas, expondo aspectos problemáticos da sociedade tailandesa, através de questões universais, deixa uma mensagem de apoio que proporciona reflexão, mas que não funciona como um gatilho psicológico tal como encontrado em séries ocidentais como 13 Reasons Why, por exemplo.

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A história começa a se desenrolar depois que um vídeo íntimo de Lookkaew (Mild Lapassalan Jiravechsoontornkul), uma universitária de 20 anos, com o garoto com quem tem saído, Aud (Kacha Nontanun Anchuleepradit) cai na web. Ao aceitar o convite de Aud para ir a uma festa na casa dele, acaba se embriagando e vai para o quarto dele descansar. Aud insiste para que transem, mas Lookkaew recusa. Porém,  ao desmaiar, é estuprada e fotografada por Aud e filmada por alguém do lado de fora do quarto. A partir daí, acompanhamos toda a saga de Lookkaew e como o fatídico acontecimento se reflete em sua vida pessoal e social, até o ponto de ela não conseguir mais lidar com o sentimento de horror e repulsa pela violencia que sofrera e, em particular, por Aud.

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A normalização e relativização da violência sexual contra a mulher na sociedade, que se manifesta através da culpabilização da mulher pela violência sofrida é bastante explorada no decorrer dos 13 episódios. Paralelamente a isso, a série também consegue de maneira louvável discutir a homofobia presente na sociedade tailandesa. Portanto, trata-se de uma produção que foge do contexto ocidental que consiste numa ótima indicação para aqueles que não abrem mão de narrativas que abordem temas relevantes e de urgência na sociedade, sobretudo, a brasileira.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do MidiÁsia.
Link direto: https://www.midiasia.com.br/reflexoes-sobre-bullying-e-violencia-sexual-no-drama-teen-tailandes-naomejulgue/

Krystal Urbano

Doutora (2014-2018) e Mestre (2011-2013) em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (PPGCOM|UFF). Jornalista (2002-2006) e Especialista em Epistemologias do Sul (2017-2018) pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO|Argentina). Fundadora do Asian Club (Estudos de Mídia|UFF), Coordenadora Adjunta do MidiÁsia (Grupo de Pesquisa em Mídia e Cultura Asiática Contemporânea|UFF) e integrante da RIIAM (Red Iberoamericana de investigadores en Anime y Manga), além de coordenar a área de Estudos de Mídia da Academia Nipo-Brasileira de Estudos da História e Cultura Japonesa do Instituto Cultural Brasil-Japão (ANBEHCJA-ICBJ).

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