“The light shines only there”: a perversidade da crise socioeconômica japonesa e a dor de seus destituídos

“The light shines only there” (2014), de Mipo Oh. Crédito: AsianWiki.

Guerras, desastres naturais e outras tragédias sempre são apontados como exemplos de situações catastróficas, destruidoras de vidas e etc. Apesar de saberem das terríveis consequências da desigualdade social, da pobreza, em seus mais diversos níveis, normalmente o sistema relativiza de forma absurda a crueldade de uma crise econômica que, geralmente, acaba por resultar, consequentemente, em uma profunda crise social. Trata-se de algo que tanto é provocado de forma intencional para ser desapercebido no cotidiano, quanto faz parte do processo de exploração em si.

Ao provocar o endurecimento da sociedade, como a falta de empatia pelo sofrimento alheio, já que pobreza é algo recorrente e aceitável no universo capitalista, uma camada expressiva de pessoas torna-se o legítimo saco de pancadas dos mais fortes, dos bem-sucedidos, ou em alguma posição de poder. Submetidas a dificuldades financeiras extremas, ou nem tanto assim, os destituídos fazem de tudo para sobreviver. Assim, mesmo os abusos eventualmente sofridos passam a ser considerados normais. Dito isso, é importante lembrar que a opressão econômica desdobra-se em violência psicológica, política, social e cultural. Ela atinge toda forma de exploração, desprovendo o indivíduo aos poucos de sua condição humana, cidadã, de sua dignidade.

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“The light shines only there” (A luz brilha apenas lá, tradução livre), baseado no romance de Yasushi Sato, com roteiro de Ryô Takada e direção de Mipo Oh (leia biografia sobre a cineasta), diretora japonesa, de origem coreana, lançado em 2014, traz um quadro do Japão atual que provoca estes diversos questionamentos. Uma produção cinematográfica importante, que foi indicada para vários prêmios, possibilitando a Mipo Oh ganhar o prêmio de melhor diretor no Festival de Cinema Mundial de Montreal. O filme também foi escolhido para ser o representante do Japão no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, concorrendo também, na mesma categoria, no 37º Festival Internacional de Filmes de Moscou, em 2016.

O enredo percorre os meandros da vida repleta de desafios dos personagens principais Tatsuo Sato (Go Ayano), Takuji Oshiro (Masaki Suda) e Chinatsu (Chizuru Ikewaki), habitantes de Hakodate, uma cidade portuária de Hokkaido, uma linha que fica no extremo norte do Japão, longe do progresso das grandes cidades. Sato que trabalhava em uma mineradora, após um incidente traumático em seu trabalho, pede demissão e passa o dia bebendo e jogando em um pachinko, uma espécie de cassino japonês, onde o jogo é praticado em máquinas que se assemelham a um cruzamento entre caça niqueis com pinball vertical.

Neste local, ele conhece Takuji Oshiro, um outro desempregado e sem rumo. Oshiro logo se aproxima de Sato e o convida para comer em sua casa, um barraco, montado com restos de materiais, que se localiza na praia deserta e repleta de dejetos.  Takuji vive com seu pai (Taijiro Tamura) inválido, mãe (Hiroko Isayama) emocionalmente perturbada e a irmã mais velha, Chinatsu (Chizuru Ikewaki). É o cenário de uma família empobrecida, desestruturada e disfuncional, altamente dependente da figura forte de Chinatsu, chegando ao ponto de todas as formas possíveis, literalmente, abusar dela. Ela trabalha em uma fábrica de lulas, e para ganhar um dinheiro extra e ajudar a manter o irmão fora da cadeia, vende o próprio corpo, sendo agredida muitas vezes por clientes violentos como o interpretado por Kazuya Takahashi.

Tal situação afastaria qualquer pretendente, mas Sato e Chinatsu logo estabelecem uma conexão forte, uma espécie de atração instantânea, que no fim poderá trazer alguma luz para vidas despedaçadas, mas que ainda almejam serem reconstruídas. Nasce um amor improvável, neste realismo absoluto que a cineasta mostra, em uma abordagem narrativa não convencional e repleta de reviravoltas perturbadoras.

Para além da trama, a atuação e a fotografia passam a ser componentes de extrema importância, como exige a carga emocional intensa do filme. Felizmente, Go Ayano, Masaki Suda e Chizuru Ikewaki, hoje atores muito requisitados no Japão, sob o comando de Mipo Oh, conseguem imprimir interpretações de seus personagens na medida ideal, auxiliando a trazer o espectador para aquela realidade dura, mas também a poder criar empatia e compartilhar dos conflitos psicológicos destas pessoas, mesmo para aqueles que não passaram por tais traumas.

A fotografia nesta produção, para além de contribuir para a caracterização de locações decadentes, é de extrema necessidade para ajudar a melhor caracterizar a estrutura emocional e as situações opressivas e tensas pelos quais passam aqueles personagens. Assim como, seus momentos de felicidade e de esperança. Com um desfecho bastante intimista, realista, mas ainda poético, Mipo Oh mostra a realidade de um Japão que poucos conhecem, e que, muito provavelmente, os japoneses não gostem de mostrar.

Contudo, ao ter a audácia de incitar tais provocações, a trama do filme atinge proporções universais, pois aquela realidade assemelha-se a muitas em diversos cantos do mundo. Finalmente, conhecemos um Japão repleto de defeitos, menos tecnológico e bastante humano.

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Acima de tudo, promove uma visão bastante profunda de que os destituídos, os oprimidos, na realidade, são detém uma fortaleza interior que impulsiona a luta diária não apenas pela sobrevivência, mas por desejar uma realidade melhor. Esta energia quando encontra a de outro ser humano sequioso também por mudanças, resulta em uma força transformadora, capaz de modificar o mundo ao redor, ou ao menos o cenário individual, pessoal daqueles que ousam amar, apesar de tanto sofrimento e injustiça.

Título: The Light Shines Only There (A luz brilha apenas lá, tradução livre)
Título em japonês: そこのみにて光輝く (Soko nomi nite Hikari Kagayaku)
País: Japão
Direção: Mipo Oh
Roteiro: Ryo Takada, Yasushi Sato (romance)
Elenco: Go Ayano, Chizuru Ikewaki, Masaki Suda, Hiroko Isayama, Taijiro Tamura, Kazuya Takahashi, Shohei Hino
Lançamento: 16 de março de 2014
Idioma: japonês
Legendas: inglês e outros

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