Helio Vianna: o pintor da linguagem

O pintor e internacionalista Helio Vianna. Crédito: Mariana Scangarelli/Intertelas.

A vida de Helio Vianna (clique aqui) certamente poderia resultar em um livro, ou filme. Ele percorreu muitos caminhos pelo mundo do conhecimento e pelas experiências práticas da vida. Com uma imensa curiosidade em mergulhar profundamente entre os meandros da cultura brasileira e de outros povos, ele busca através da sua arte entender as dificuldades e complexidades sociais e suas relações de poder e, principalmente, a diversidade das múltiplas identidades culturais existentes. E, para tanto, nada melhor que a linguagem, já que o idioma é uma forma única de um povo compreender a realidade mundana. Em seus quadros ele pinta a expressividade única das palavras, dos discursos e tudo o que representam, ou podem representar.

Nascido no Rio de Janeiro, e hoje residente na Cidade do México, Vianna é mestre em artes visuais pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), com formação multidisciplinar em relações internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em produção cultural pelo Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) – área na qual é especialista (lato sensu) em literatura infanto-juvenil. Como artista visual foi bolsista dos programas Fundamentação e Concepção na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (Rio de Janeiro).

Conheci Helio Vianna, curiosamente, no curso de russo há alguns anos. Desde então, acompanho o seu trabalho. Ambos compartilhamos o carinho pelas palavras, pela escrita, pela cultura e pela política internacional. Aquí, nesta entrevista à Revista Intertela, ele oferece a oportunidade de sabermos mais sobre o processo artístico que desempenha, um pouco da sua trajetória e como a arte, a política e o ser humano encontram-se, ou sempre foram uma coisa só. Esta questão que podemos refletir também em sua dissertação, intitulada: “El Soft Power de la pintura: Un proyecto teórico-práctico sobre la politización del arte a través de la representación cultural”. Para Vianna, o Soft Power também é uma forma de dominação e os clichês, que uns países formam sobre outros, apenas contribuem para a negação da diversidade pulsante que existe no mundo. Assim, simplesmente querer falar e se comunicar no próprio idioma é uma forma de resistência. Confira mais abaixo!

Como você definiria ao público em geral o seu trabalho?

Helio Vianna: Meu projeto principal é uma série de pinturas chamada “Soft Power”. O processo é colaborativo, pois dependo da comunicação​ com o outro, do diferente, do exótico, seja ele nascido na ilha de Java ou em Buenos Aires, já que o relato é a minha matéria-prima principal em questão de conteúdo das obras. Envolve etnografia e muito acúmulo de referências, sou um acumulador compulsivo. Eu tento representar diferentes culturas por meio da linguagem verbal pintada em um quadro.

Geralmente cada obra tem como título o nome de um país. Optei pelo recorte em Estados Nacionais, tal como dividimos o mundo politicamente na atualidade, por uma questão​ meramente técnica, além de facilitar a compreensão​ para um público maior, e é composta de palavras, textos, símbolos, logomarcas e até partituras musicais que compõem​ o “imaginário coletivo” dos que vivem dentro daquele território. Ao fim de tudo, é paisagem, num sentido expandido do termo.

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Idiomas, cultura e pintura encontram-se no seu processo criativo. Como eles estão vinculados e o que representam?

Helio Vianna: Eu, desde criança,​ sempre tive fascínio pela forma das palavras. Poderia ter sido tipógrafo, até, se tivesse me dedicado a isso. Os letreiros chamativos e as bancas de jornais apinhadas de publicações​ penduradas sempre me fizeram parar e prestar atenção,. Eu tentava adivinhar o que significavam​ até que meus pais resolveram me ensinar a ler antes da alfabetização​ escolar. Aos 7 anos despertei meu interesse por aprender outras línguas e minha mãe​ me​ inscreveu num curso de espanhol. Este idioma, por sinal, é minha “zona de conforto” em questão​ de língua estrangeira por eu ter aprendido tão novo. Fui uma criança​ “estranha”, que gostava de colecionar revistas estrangeiras mesmo sem saber como ler aquilo.

Isso tudo me levou a cursar duas carreiras: produção cultural e relações​ internacionais. Nunca fui capaz de vê-las como áreas isoladas. Para mim, caminham sempre juntas, porque a cultura tem um discurso implícito, mesmo quando se produz cultura sem essa intenção, e é o conjunto desses discursos que nos retrata como “nação” ou “país”, perante os cidadãos​ de outros territórios. Mesmo quando não quer sê-lo, a cultura é mais política do que se imagina, especialmente nas mãos​ de um país que controla os meios de comunicação e dita modas de comportamento, de consumo e ideologias para exportação.​

“Cause, teacher, there are things that I don’t want to learn” (2020), por Hélio Vianna. Crédito: arquivo pessoal.

A opção​ de vincular tudo isso à pintura veio por uma questão. Veja só! Linguística! Para retratar um país por meio de suas palavras, eu tento aprender ao menos um básico de comunicação​. Me alfabetizar naquela língua e aprender a pronunciar seus fonemas. Acredito que entender um pouco da estrutura das orações​ de uma língua e outras questões​ subjetivas nos ajuda a compreender melhor a lógica do ser daquele povo. Por exemplo, tem um psicólogo social holandês chamado Geert Hofstede que compara as dimensões culturais de cada país com base em seis níveis de análise: distância hierárquica, individualismo, masculinidade, controle de incerteza e outros dois que não​ me lembro agora.

Helio Vianna. Crédito: Mariana Scangarelli/Intertelas.

Ele realizou uma pesquisa apoiada pela IBM, que mantém a mesma estrutura organizacional em todos os países e promove periodicamente uma enquete entre os seus funcionários. Com base nesses dados, realizou gráficos comparativos entre os países. No site dele você pode colocar o nome de dois ou mais países e comparar esses níveis. É notável que nos países orientais o nível de individualismo é menor que nos países ocidentais. E isso é algo que está implícito​ na orientação de nossa educação gramatical. As línguas europeias, por exemplo, organizam a conjugacao​ verbal na ordem “Eu, Tu, Ele, Nós”, “Ich, Du, Er, Wir”, “Je, Tu, Il, Nous” ou “I, You He, We”, por exemplo. Em muitas línguas orientais o “Nós” vem antes do “Eu”.​

Mas, voltando à minha decisão​ de usar a pintura como forma de expressar as culturas, ao estudar russo, descobri que o verbo “pintar” só se refere à pintura de paredes. Para a pintura artística, o verbo usado é “escrever”. Desta forma, na língua russa, quem pinta um quadro, escreve​ um quadro. Descobrir isso me fez refletir sobre a mania que já tinha de inserir palavras nos meus quadros e tomei a decisão​ de usá-los para relatar as culturas de cada país com as palavras dos próprios nativos.

Helio Vianna. Crédito: Mariana Scangarelli/Intertelas.

Você acredita que tenha algum propósito, além do artístico, no trabalho que desempenha?

Helio Vianna: Sim. Além do aspecto visual, da estética, da materialidade, eu faço​ cada quadro com a “intenção​ consciente” de emitir um discurso político. Seja pela reprodução de um slogan, pela escrita de um nome. “Pinochet”, por exemplo, é a única palavra pintada em negro e borrada no quadro “Chile”. Mas a realização das primeiras obras, ainda sem o processo colaborativo de entrevistas, continha muito sobre a minha visão​ particular de cada país e achei injusta essa forma de representação.​ A ideia das entrevistas, das enquetes, do pedido de envio de fotos e materiais, por parte dos nativos, é deixar o outro falar por si mesmo, dar voz e espaço ao cidadão​ de um país sobre o qual nem sempre recebemos informação​ e produtos culturais (filmes, música, literatura…). Assim, ele me ajuda a construir esse caleidoscópio de referências.

E a ideia de caleidoscópio é justamente para mostrar que as culturas de cada país não​ são​ nada homogêneas. A França é muito mais do que a Amélie Poulain, queijo e vinho; o México tem muito mais do que cactos, tequila, Thalía e​ Chaves; e, cito Carlinhos Brown:  “o Brasil não é só verde, anil e amarelo, o Brasil também é cor-de-rosa e carvão“. Obviamente eu incluo esses clichês também. Muitos brasileiros se ofendem com os clichês de “futebol, capoeira e carnaval” que os estrangeiros têm a nosso respeito, mas sempre fazemos o mesmo com os outros países.

Rotulamos o outro por aquilo que nos​ é vendido sobre seu país. Inclusive as marcas, algumas​ tão​ vinculadas a seus países de origem que é quase impossível ver a logo da LG sem pensar na Coreia do Sul, por exemplo, é o que se chama de marca-país, que não se refere só às marcas, mas também aos produtos, como a caipirinha, a vodka, ou até práticas como shiatsu ou depilação com cera, conhecida fora do país como “Brazilian Wax”.

“Queer Korea”
Serie: Queer Culture. Crédito: arquivo Hélio Vianna.

Antes de entrevistar alguém tento fazer um brainstorming de tudo o que acho que sei sobre aquele país para comparar com as respostas que os nativos me darão depois. Mas durante as entrevistas, me ponho no lugar de alguém que ignora e tem curiosidade sobre o entorno do entrevistado. Estar aberto ao que se recebe é quase sempre o melhor processo criativo. A importância desse contato é a possibilidade da ocorrência de um choque cultural entre mim e a pessoa em questão. Deste ponto é que vou formar uma ideia sobre o lugar de onde a pessoa vem e também começo a formar uma ideia sobre como vai ser o quadro: formato, dimensão,​ paleta de cores… É muito fácil fazer um quadro sobre os Estados Unidos, dada a avalanche de informações​ que recebemos de lá.

Quando fizer um quadro sobre aquele país, dificilmente terei de entrevistar o cidadão-médio estadunidense, mas certamente me esforçarei​ para encontrar os “verdadeiros nativos” daquele território, como os apaches, por exemplo. Boa parte dos meus quadros se dedica também a incluir línguas em risco de extinção​ e a denunciar o etnocídio em cada país. E cabe dizer que “nativo” é uma palavra polêmica que insisto em usar, porque os antropólogos europeus chamavam o “outro”, o “exótico”, o “não europeu” por este nome. A grande ironia é que, ao entrevistar um cidadão​ belga ou francês estou invertendo o jogo, tratando essa pessoa como objeto de estudo da mesma forma que seu país nos tratou antes. É também uma burla pós-colonial essa inversão​ dos papéis…

Helio Vianna. Crédito: Mariana Scangarelli/Intertelas.

Como você, artista e internacionalista, observa as relações de poder através da arte e a cultura em geral?

Helio Vianna: O poder está na mão​ de quem tem maior capacidade de emitir um discurso não​ somente sobre o seu país, mas, talvez principalmente, uma maior capacidade de emitir um juízo de valor sobre o outro país. É assim que o Ocidente denomina quem faz parte do “Eixo do Mal”, e repete isso à exaustão,​ até conseguir fazer uma nação que rivaliza com ele ser mal vista pelo resto do mundo. Os meus quadros não​ querem pintar nem heróis,​ nem vilões,​ mas mostrar que todos os povos são iguais na busca por um equilíbrio. Todos somos maus e bons simultaneamente, somos um yin-yang moral e politicamente falando. Obviamente não​ sou neutro, chapa-branca, e sempre vou colocar tanto os louros quanto as mazelas de cada lugar, e se houver ferida, eu meto o dedo mesmo.

E se há um lado mais fraco, oprimido, quero dar mais destaque a ele.​ Aqui no México, há alguns meses, um embaixador de outro país veio me propor que pintasse um mural na embaixada do seu país e ainda não​ aceitei justamente por isso. Seu país oprime uma determinada minoria e dificilmente gostariam​ do que tenho planejado para seu país. Muito provavelmente eu seria censurado e/ou processado se escrevesse os insultos que a população dirige à minoria oprimida no muro da embaixada. Sou um artista em início de carreira, longe de mim poder escolher quem vai ser meu público-alvo financeiro. Sim, ser artista não​ é hobby para diletante, é uma profissão, e eu preciso vender e pagar contas, sobreviver.

Helio Vianna. Crédito: Mariana Scangarelli/Intertelas.

Muita gente romantiza demais a minha profissão​ esquecendo que o objetivo também é o lucro. Vivendo em um mundo capitalista eu, infelizmente, também sou escravo do lucro, que vai também financiar a compra de tela, tintas, pincéis,​ gesso e me permitir comprar livros e fazer as pesquisas e o processo de entrevista, nem que seja convidando o entrevistado a um café. Mas também há um limite ético que não​ quero romper. Meu compromisso, pelo lado social, é com as populações, e não com seus governos.

Não pretendo agradar nenhum governo, mas isso pode, ocasionalmente, ocorrer com os que apreciam o trabalho de veiculação e valorização de suas culturas, como os quadros em que pinto as narrativas das culturas indígenas nessas línguas, por exemplo. Tive uma obra censurada “Síria”, de 2014, pelo fato de ter pintado como parte do território sírio uma região que segue em disputa entre aquele país e Israel, e um dos clientes da galeria era ligado à embaixada israelense. Independente do juízo de valor que eu tenho sobre o conflito, para pintar “Síria” eu ouvi os sírios, e para eles aquele território é sírio. Meu trabalho independe do discurso oficial de cada país, o espaço​ que dou é ao “vox populi”.

“Síria” (Syria)
Acrylic on canvas, 150 x 150 cm, 2014. Crédito: arquivo Hélio Vianna.

A arte é um espaço de congregação, ou conflito cultural?​

Helio Vianna: Minha resposta anterior demonstrou como “promovo” essa ideia de conflito, mas também há uma congregação,​ simultaneamente. Nem toda recepção​ ao meu trabalho, no entanto, é má. Lembro que, enquanto pintava o quadro sobre a Áustria, ainda estudando no Parque Lage, uma turista austríaca visitou o espaço e caiu na gargalhada. Fotografou selfies com o quadro atrás. Ela me perguntou o porquê de eu estar colocando aquelas palavras, e como eu conhecia aquela forma de falar/escrever. Aliás, o alemão​ austríaco quase nunca é ensinado a estrangeiros que estudam a língua alemã​ e tem variações​ muito marcadas até na forma de dizer “eu”: na Alemanha se diz/escreve “ich”, enquanto na Áustria é só “i” e a língua vienesa, o wienerich. Por sinal, preciso salientar: detesto a palavra “dialeto”.

Helio Vianna. Crédito: Mariana Scangarelli/Intertelas.

A primeira pergunta dela, em um alemão que não​ pude responder, mas ao menos compreendi, foi se eu era austríaco. Tem, no meu processo, uma ideia​ de transvestimento, de fingir que eu sou daquele lugar. isso depois das entrevistas, quando já estou pintando e assistindo aos filmes nacionais e ouvindo as músicas locais que os entrevistados mencionaram. Eu tento andar nos sapatos do outro, sentir como ele sente, projetar na minha cabeça uma visão​ sobre aquele país parecida com a de quem entrevistei. É um exercício de empatia. Algo que falta, e muito, nos trabalhos de representação do outro.

“Áustria” (Austria)
Mixed on canvas, 155 x 105 cm, 2014. Crédito: arquivo Hélio Vianna.
Helio Vianna. Crédito: Mariana Scangarelli/Intertelas.

Há quem defina o Soft Power como uma espécie de máquina cultural da hipocrisia. Você concorda? E a pintura e o idioma podem no futuro acabar por tornarem-se ferramentas de exercício opressor de poder?

Helio Vianna: Concordo. Porque o Soft Power​ é um poder de Estado. Eu não me considero praticante do Soft Power, sou apenas alguém que, junto aos outros artistas e produtores de conteúdo, alimenta o repertório para que os Estados reformulem suas políticas de prestígio e possam vender sua imagem de país. Embora Joseph Nye afirme que alguns artistas, quando possuem enorme visibilidade, conseguem pressionar governos, acho isso uma utopia. Nenhum país muda suas políticas ou atitudes porque um artista o constrangeu. Isso só ocorre quando é pressionado pela força​ bélica ou econômica. O Soft Power não é feito por um governo para os outros governos, mas sim para as populações dos outros países.

Helio Vianna. Crédito: Mariana Scangarelli/Intertelas.

É uma tremenda ironia eu intitular meu projeto dessa forma, porque eu não​ faço Soft Power, eu apenas tento retratar cada país, com a ambiciosa intenção de ao menos provocar uma autocrítica no público, fazê-lo refletir que a visão que o resto do mundo tem sobre o seu país não é necessariamente a visão​ interna, mas sim resultado da forma como o seu governo “se pintou” ou “foi pintado” por outros países. Se meu trabalho algum dia chegar a ter uma visibilidade midiática relevante, gostaria que o resultado fosse que os países periféricos se descolonizassem no âmbito do pensamento e formulassem suas próprias narrativas. Já chega de filmes hollywoodianos em que os personagens “latinos” são sempre traficantes ou bandidos, já passou da hora de respondermos a esses clichês com a nossa perspectiva.

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A pintura, assim como outras formas de expressão,​ é um registro. A pintura rupestre e a escultura grega nos dão​ indícios de como foi a vida no passado. Vamos lembrar que os pintores rupestres não faziam aquilo pensando em “arte”, eles queriam registrar o cotidiano e ainda não possuíam uma forma de escrita, pois o conceito de arte surgiu há poucos séculos. Cada artista expressa o seu entorno e o tempo em que vive. Meu contexto é a pós-modernidade, a arte contemporânea. Tanto o aqui e o agora, quanto o que se pensa aqui e agora sobre o aqui, ou o ali e o antes.

O advento da fotografia e do vídeo registram de forma mais imediata o nosso tempo e, por isso, a pintura deixou de priorizar a representação​ “fotográfica” e “realista”, partindo para a abstração​ e metendo-se em outras questões​ estéticas. acho que explicando isso consigo reduzir o número de vezes que me perguntam “por que você não​ pinta retratos, paisagens ou figurativos?”. Pintura é uma linguagem, assim como o idioma falado. E, sendo de um país colonizado por um país de língua europeia, vi meu ensino de história, geografia e outras ciências ser delimitado pela perspectiva eurocêntrica.

Helio Vianna. Crédito: Mariana Scangarelli/Intertelas.

A narrativa histórica que permanece é a do vencedor, do lado opressor. Por mais que necessitemos de uma língua franca para fins de comércio e comunicação estrangeira, a imposição​ do inglês é resultado de um trabalho de Soft Power bem realizado pelos estadunidenses​. Nem os ingleses conseguiram isso antes dos EUA, até a Segunda Guerra Mundial, a língua franca era o francês, por exemplo. Quem discute muito bem a dominação da língua inglesa é o Yves Lacoste no livro “A geopolítica do Inglês”.

Meu melhor amigo é um brasileiro de família síria, e sempre me chamou a atenção​ o fato de que todos os filhos de imigrantes árabes que conheço​ no Brasil serem bilíngues. suas famílias fizeram questão​ de, mesmo migrando, levar aos descendentes sua cultura e sua língua. O mesmo nem sempre se dá com filhos de europeus. Conheço​ filhos de húngaros que se presumem da ascendência europeia sem saber falar nenhuma palavra na língua dos pais, e sem qualquer noção​ do que é a cultura húngara, exibindo um passaporte europeu como se isso fosse motivo de orgulho maior do que ser brasileiro, que é a nacionalidade que de fato formou seus valores.

Vejo, empiricamente, uma mudança​ de direção nessa onda de diversidade atual. Cursei um mestrado com um colega pintor de Yucatán, região onde predomina a cultura maia, e perguntei o motivo dele não falar a língua maya. Ele disse que a geração dos seus pais não aprendia as línguas indígenas porque eram vistas como línguas “de povo atrasado, incivilizado”. Portanto, ele não​ aprendeu de seus pais. Porém, as atuais crianças de sua família já cresceram num ambiente de valorização e respeito às culturas originárias e têm educação bilíngue. Em 2019. me matriculei em um curso de língua Náhuatl, oferecido gratuitamente pela alcaidia onde vivo (demarcações administrativas na Cidade do México, que é dividida em 16 alcaidias), Tlalpan, ao sul da cidade.

Cabe mencionar que a alcaidessa (no México, o alcaide ou presidente municipal é o funcionário público eleito, a cada três anos) é historiadora e de um partido de esquerda, o mesmo do atual presidente, e implementa políticas educativas inclusivas e de valorização da diversidade, como o ensino de línguas e artesanato indígenas, braille e língua de sinais. Já na primeira aula me emocionei de verdade ao ver a sala com ocupação​ máxima, 40 alunos, que variavam​ dos 12 aos 75 anos de idade. Um senhor com 60 e tantos anos se inscreveu para retomar o contato com a língua que lhe foi vetada na infância e levou o filho, a nora e os netos para o curso. Informação é poder, discurso é poder, logo, língua é poder. Se até o gosto e preferência por paletas de cores, que varia de uma cultura para outra, tem relação direta com a afetividade cultural, imagine uma língua! Falar a própria língua é resistir à dominação​ e à imposição do outro.

Helio Vianna. Crédito: Mariana Scangarelli/Intertelas.

Que novas perspectivas viver no México trouxe para o seu trabalho?​

Helio Vianna:  Em primeiro lugar, foi por ter vivido aqui por um semestre em 2012 que me fez, ao voltar ao Brasil, depois do intercâmbio da graduação​ em RI, querer ser artista. O México, ainda que não​ nas condições​ ideais, é um dos países latinoamericanos que mais tem procurado preservar e promover sua diversidade cultural. E é um país onde o trabalho artístico é valorizado. Repito: ainda que não seja nas melhores condições,​ ser artista aqui não​ é tão​ difícil como no Brasil. A Cidade do México é, para mim, a capital mais cosmopolita de toda a América.

Mais que Nova York, ainda que não​ me creiam, porque apesar de Nova York possuir imigrantes de um número e diversidade maior de países, é a Cidade do México que conjuga e comporta não​ só os migrantes externos, mas também as cerca de 75 etnias internas. É a cidade onde tem publicidade em coreano ou português e ainda se ouve, bastante gente batendo papo em língua indígena no metrô, cuja rádio toca desde hits libaneses e de k-pop a Clara Nunes e Maria Bethânia, por exemplo.

Aqui tenho mais contato com pessoas diversas que no Rio de Janeiro, por exemplo. Mudar para cá definitivamente aumentou minha oferta de entrevistados, e também me fez conhecer a cidade de Oaxaca, considerada a “Meca” de quase todos os artistas mexicanos, uma cidade linda, de população​ majoritariamente indígena, onde as manifestações​ culturais e artísticas são​ incrivelmente inspiradoras. É algo quase instituído: se você é artista e visita o México, tem que conhecer Oaxaca. Estou justamente pensando em mudar para lá quando finalizar os trâmites do mestrado.

Helio Vianna. Crédito: Mariana Scangarelli/Intertelas.

Por fim, como observa o contato do público com a sua obra? Em especial, os nativos do país retratado. Como este contato influencia no seu processo criativo futuro?

Helio Vianna: Por isso tenho uma recepção um tanto problemática por parte dos nativos ao ver seu país representado por mim. Ouvi muitas reclamações de chilenos pelo fato do quadro “Chile”, que tem 315 x 40 cm, super desproporcional em altura e largura para remeter-se ao formato do mapa desse país, parecer um cartaz publicitário, com excessivas inserções de marcas. Ora! Pois se trata do país mais orgulhosamente neoliberal da América Latina, mas parece que isso está prestes a mudar, dados os conflitos internos recentes. A ideia que eu tenho sobre aquele país, mediante tudo que observei dos entrevistados, é a de que tudo ali está a venda.

“Chile”
Acrílico s/ tela, 0,40 x 3,15m (2019). Crédito: arquivo Hélio Vianna.

Outra questão​ é o nível de representação​ na acumulação de dados, que faz um nativo não se sentir plenamente representado e estranhar a representação​ do seu próprio país e, assim, queixar-se muito comigo. Busco entrevistar em média 20 pessoas de um mesmo país, que sejam de diferentes regiões,​ etnias, línguas, culturas, grupos sociais e profissões. Considero “Peru” meu trabalho de pesquisa mais satisfatório nesse aspecto de explorar e divulgar a diversidade. Obviamente um peruano de Lima não vai necessariamente entender as gírias em quéchua que me foram passadas por um indígena de Iquitos, um padre de Cuzco​ tampouco vai entender o vocabulário de uma travesti limenha que fazia ponto numa esquina de Miraflores.

“Peru”
Acrylic on canvas, 137 x 137 cm, 2017. Crédito: arquivo Hélio Vianna.

A grande surpresa que tenho é a indignação​ de cada um ao ver o quadro sobre seu país e perceber que seu repertório é uma “bolha” dentro de um oceano de repertórios dentro do seu próprio território. Sou carioca e minha ignorância sobre outras regiões​ do país ficou evidente quando tomei a decisão​ de retratar o Brasil por estados, um quadro para cada estado e outro para o Distrito Federal. Entrevistei paraenses e paraibanos. Tive a chance de ir à Paraíba e realizar a pesquisa in loco, entre 2016 e 2017 e, hoje, ao olhar para os quadros sobre estes estados, já não​ me lembro o significado das palavras que pintei, tamanha é a distância cultural entre minha região​ e as outras.​

A retroalimentação do público nem sempre chega até mim, mas quando chega logo tento ver em que pontos “falhei” e quais são​ os acertos a serem continuados em trabalhos futuros. Enquanto é possível, continuo entrevistando gente e pedindo material aos amigos que viajam a outro país. Geralmente um livro, um jornal, uma revista, um guia turístico, um mapa do metrô ou das rotas de trem e de ônibus, os ingressos usados, embalagem de produtos locais que consumiram, encarte de supermercado, menu de restaurante, brinquedos tradicionais, fotos das fachadas e letreiros que mais lhes chamaram a atenção… coleciono de tudo e tento assimilar o suficiente de um país para escolhê-lo como próximo alvo de representação.​

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Esse é o critério para a escolha do próximo país: a quantidade de dados suficiente sobre o lugar, e gente disposta a falar sobre ele. E assim vou tentando pintar e conhecer a imensa diversidade que existe no mundo e que, por questões mesquinhas de poder do próprio ser humano, a maioria da população global dificilmente vai poder vivê-la e vê-la de forma plena.

Ensaio fotográfico de Helio Vianna: Mariana Scangarelli, Revista Intertelas

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por Anders Noren

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