O Carteiro das Montanhas: o encontro entre pai e filho em uma jornada através da província de Hunan

“O Carteiro das Montanhas”, dirigido por Jianqi Huo. Crédito: reprodução da internet.

A relação entre pais e filhos e todas as complexas e densas questões vinculadas a este laço fundamental da constituição do humano como indivíduo já serviram de tema para uma série de filmes e outras produções audiovisuais. Contudo, poucos conseguem de forma simples, porém, ao mesmo tempo, bastante profunda, retratar os desafios pessoais e todo o contexto de valores morais, filosóficos e culturais que rondam um relacionamento familiar.

“O Carteiro das Montanhas” é um exemplo. Dirigido por Jianqi Huo e lançado em 1999, foi ganhador dos Prêmios de Melhor Filme e Melhor Ator no Golden Rooster Award, a maior premiação do cinema chinês, além de conquistar o Prêmio da Crítica de Xangai e vencer em outras indicações em festivais internacionais, como ocorreu na Índia e no Canadá.

Trata-se de uma história delicada, onde a passagem do tempo e os embates entre um pai ( Teng Rujun, “O Sorgo Vermelho”), um carteiro que chega na meia-idade e, por questões de saúde, é forçado pelo chefe a aposentar-se antes do tempo, e um filho (Liu Ye, “Balzac e a Costureirinha Chinesa” e “The Beginning of the Great Revival”) que deve substituí-lo. Contudo, ao contrário do que se possa imaginar, o trabalho de entregar correspondências na região montanhosa de Hunan, local de nascimento de Mao Zedong, é uma tarefa árdua, que impõe obstáculos físicos e psicológicos a cada minuto.

“O Carteiro das Montanhas”, dirigido por Jianqi Huo. Crédito: reprodução da internet.

No entanto, para além da necessidade crucial deste serviço, há uma humanidade tamanha neste ofício que poucos são capazes de compreender. Esta obra clássica e que ainda retrata diversos aspectos dos códigos culturais e filosóficos chineses, você pode conferir hoje, às 19h, durante 2ª Mostra de Cinema com Partido, organizada pela União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (UMES). Após a sessão que ocorre pela plataforma Zoom (clique aqui), o público vai poder participar de um debate com Lucas Chen, presidente da UMES-SP.

Iniciamos a breve análise deste filme, enfatizando a complicada relação entre o pai e o filho. De um lado, temos Teng Rujun, já com 41 anos de idade, resultado de uma geração que nasceu para fazer sacrifícios. Dedicado a servir aos mais diversos povoados de montanheses, em uma China que ainda iniciava sua transformação econômica, ele passou a vida levando encomendas e cartas a pé, de comunidade em comunidade.

Atravessou rios, escalou montes, tornou-se a figura de confiança destes moradores que vivem praticamente isolados. Lê as cartas para os que têm deficiência visual, escreve para os que ainda tem dificuldade, percorre um caminho longo de forma solitária, longe de sua família, tendo a companhia apenas de seu cachorro Laoer, que passa a ser um segundo filho.

Do outro lado, temos o filho que cresceu com a ausência paterna e com uma mãe atenciosa e amorosa (Xiuli Zhao), mas que também sente a falta do marido e de seu povoado original nas montanhas. Neste contexto, é salientado algo comum que ocorre entre muitas famílias na China: filhos que amadurecem e, em razão do quadro como o apresentado acima, acabam formando uma relação fria e distante de seus pais.

No entanto, tudo está para mudar. Com a doença de Teng Rujun, seu filho agora será o novo carteiro das montanhas, como o chefe da sucursal manda. A eles será dada a oportunidade de durante a jornada, aprenderem, conhecerem e compreenderem um ao outro e a figura principal a incitar tal mudança é o cachorro Laoer.

Trata-se de uma figura central, pois nele está incutida toda a simbologia e o pensamento confucionista, em especial no que diz respeito ao tão conhecido conceito de piedade filial, de devoção aos país e aos mais velhos. Fiel a Teng, Laoer não está disposto a instantaneamente seguir pelas montanhas com o novo jovem carteiro da família, seu “irmão mais velho”. Assim, ele provoca o pai a percorrer, pela última vez, o caminho das montanhas, como se pudesse dizer que é preciso ajudar o iniciante a entender os meandros desta nobre profissão.

Desta forma, os três partem juntos para uma viagem de descobrimentos e autoconhecimento, passando por paisagens magníficas da China, observando a realidade dos povoados da montanha. É importante destacar que mesmo longe do litoral que se desenvolve às pressas, tais regiões afastadas e localizadas nos diversos rincões chineses já começam a ter a influência dos ares estrangeiros e culturais da China contemporânea, que a abertura econômica trouxe para o país. No entanto, não significa que dirão adeus às suas tradições. Outro ponto de destaque são as atuações de Liu Ye e Teng Rujun.  Ambos conseguem transmitir com naturalidade a relação pai e filho e a intensa transformação emocional e psicológica que os atinge.

Da mesma forma, o confronto geracional é sutilmente delineado por suas atuações e por uma narrativa que está bastante harmonizada com a fotografia do filme, deixando com que as imagens e a expressão corporal dos atores digam e mostrem o que as palavras não podem manifestar e demonstrar. O cão Laoer é o fio da passagem do tempo, das mudanças provocadas pela vida, do fim de uma era, da história de uma geração para o início de outra.

Laoer é também a “agulha” que vai tecendo a trama e a relação destes dois seres humanos que, apesar de parentes próximos, nada conheciam um do outro. Mas, acabam por descobrir um pai que mesmo sendo menosprezado pelo chefe, permanece na memória dos habitantes das montanhas; e um filho que se mostra digno de substituir uma figura paterna tão lendária, e que reconhece no pai o exemplo, afasta seus medos e descobre o amor e o cuidado parental que achava, no passado, nunca poder um dia experienciar.

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por Anders Noren

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