“A mais longa duração da juventude”: um encontro do Brasil com os seus dilemas políticos e socioculturais

Crédito: https://fup.org.br/

Memória histórica é um artigo escasso no Brasil. Não é algo de causar grande espanto, já que se trata de uma situação simples: a soma da educação formal empobrecida e a ausência de consciência política do cidadão comum resulta em uma sociedade esquecida e que tende a repetir o seu passado. Muito é debatido no Brasil, em alguns grupos sociais, sobre o período da ditadura militar brasileira (1964-1985) e suas consequências para o país. Dos direitos humanos à ciência política e à econômica; depoimentos de vítimas e colaboradores do regime, cada um expõe a sua experiência sobre aquela época cinzenta. E todos de certa forma continuam a promover o debate em seus pequenos círculos, contudo uma peça falta: as gerações que não viveram sob os governos militares, ou que nasceram quando a era dos milicos aos poucos evaporava.

Mas qual seria a real opinião do grande público jovem sobre o que seus pais ou avós passaram? Qual a reflexão que ocorre agora e que vai garantir o futuro de uma volta ou não dos militares no poder? Falta a esta geração da esquerda ir ao encontro daqueles mais jovens e promover uma troca efetiva de experiências, valores geracionais, em contextos históricos diferentes, contribuindo de alguma forma para barrar a possibilidade de que novos regimes conservadores, amantes do sistema e extremistas voltem a ter hegemonia sobre as mentes e os corações de quem será responsável pelo futuro do país.

Pense e imagine: o que as gerações que experienciam sucessivas crises sociais, epidêmicas, econômicas, políticas e que vivenciam até hoje uma democracia brasileira, calcada em um modelo ocidental de estrutura sociopolítica, que não provê a qualidade e igualdade social que tanto promete, poderia pensar sobre aqueles grupos de esquerda que tentaram “usurpar” a época dourada econômica em que o país crescia a dois dígitos? A resposta está na volta de coturnos, em conjunto com a máfia da cruz e do mercado livre às alas de poder do país.

O ambiente para o desastre e o repeteco histórico está armado e pelo jeito a esquerda e suas alas mais tradicionais não perceberam isso. Mas há quem tente promover um caminho para este campo esquerdista que parece ter perdido rumo, através de uma abordagem dos anos de chumbo de forma mais humana e acessível a quem nem imagina o que era ser jovem na ditadura. Bom, se formos refletir, claro há diferenças históricas, mas no que diz respeito à condição humana nem tanto.

“A mais longa duração da juventude” (clique aqui), escrito por Urariano Mota e publicado pela LiteraRua, é um livro de memórias, quase como um diário pessoal, onde o autor não apenas apresenta um quadro da época, onde a composição mistura fatos e figuras históricas com pinceladas de ficção, mas também imprime as contradições, as emoções e os confrontos internos do amadurecimento, da difícil realidade de ser jovem e confrontar o campo árido do autoritarismo e da estrutura social desigual em todas as suas facetas. Para além de um governo X, ou Y fardado e que usa da repressão, do desenvolvimento econômico desigual e do nacionalismo de fachada para manter-se no poder, nas páginas de Mota encontra-se algo mais assustador: a monstruosidade da sociedade brasileira e sua inclinação a continuar injusta, bruta e primitiva. Uma periferia capitalista que acredita ter uma cadeirinha na corte dos países do centro do sistema.

Em cada personagem está marcada uma história que já se conhece e se repete em contextos de épocas diferentes, a repressão social na vida dos que sofrem com ela direta e indiretamente. Vamos ao encontro de mulheres que lutam para serem reconhecidas e respeitadas pelo seu valor guerrilheiro e militante em ambientes altamente masculinizados, como foram o da luta armada e do campo político de resistência contra a ditadura na época, tendo de livrarem-se de sua feminilidade considerada fraca, nem sendo possível a elas viverem o amor e a sexualidade naturalmente, com o risco de enviarem a mensagem errada; do homossexual, pobre, negro, gordo, um figura candidata à marginalização até nas próprias comunidades LGBTs de hoje, acostumadas com a imagem de corpos esculturais e brancos, imagina naquela época onde pouco se comentava a respeito; do negro cristão que precisa seguir o código moral exigido a ele e manter-se sempre na linha do que é aceitável e considerado digno socialmente; dos brancos de classe média, ou proletários que tentam reprimir os anseios naturais da juventude em nome de um ideal praticamente assexuado e que se culpam o tempo todo por não estarem fazendo o suficiente pela revolução, ou que estão anos atrasados dos povos que efetivamente enfrentavam o sistema, o imperialismo como os vietnamitas na época.

Tocalivros disponibiliza obra literária “Soledad no Recife”, de Urariano Mota, em áudio

Ora, caros marxistas dos tempos da ditadura: desde quando o comunismo e o socialismo exigiram esta espécie de auto repressão? Ao que saiba nunca! Contudo, é compreensível, já que se evidencia, neste contexto, o poder de influência dos valores cristãos, difíceis de serem totalmente rompidos, após séculos, até milênios, servindo de base para a mentalidade e o código ético e filosófico das sociedades submetidas a eles. Mas a geração de Mota não está sozinha nesta questão, mesmo as sociedades russa e chinesa, berços de grandes revoluções, não conseguiram romper com a base do cristianismo ortodoxo e do confucionismo institucional, e nem seria possível, porque décadas de revolução dificilmente podem eliminar milênios de pensamento tradicional.

A revolução não foi feita para ser perfeita, nem para construir o paraíso da noite para o dia. E ela também não tem data, nem hora para terminar, é um processo permanente que evolui, à medida que a sociedade que a experiencia evolui com ela. Avanços e retrocessos ocorrerão normalmente, assim como as contradições, os embates e as revoluções dentro da própria revolução. A exemplo está a própria luta das mulheres em sociedades socialistas por mais igualdade. É preciso que a esquerda brasileira entenda isso de uma vez por todas. Que nada será perfeito e tentar impor uma forma de como um revolucionário deve se portar não é uma atitude muito diferente do que as sociedades capitalistas autoritárias tradicionais enfiam goela abaixo de suas populações todos os dias. Novamente, socialismo e comunismo nunca pediram nada parecido, e sim o abandono de tal mentalidade, o que em muitas experiências socialistas não existiu. É uma barreira ainda a ser derrubada.

Entre o relato da vida dos personagens apresentados por Mota, o Gordo foi o que mais chamou atenção da autora deste texto. Por ele ser negro, gay e etc? Não! Isso seria tocar apenas o superficial da questão, mas por gordo ser uma pessoa de grande talento e inteligência nata, ao mesmo tempo que é brasileiríssimo. Uma joia jogada fora e desvalorizada por uma sociedade que almeja a todo custo ser qualquer outra coisa, menos brasileira e que não perdoa os filhos que ousam romper esta forma de pensar tão colonizada e submissa.  Gordo é aquele que tem muito a ensinar e a dizer, mas que ninguém quer, ou vai ouvir. Afinal, ele não tem a imagem necessária para tanto. Por fim, outra questão a ressaltar na obra de Mota é a personificação da repressão na figura do Cabo Anselmo, agente duplo que entregou a própria namorada Soledad, grávida na época, para ser morta. Figura típica do traidor perverso, que aparenta ser bom moço. Ele morreu em 16 de março de 2022, aos 80 anos, sem pagar pelos seus crimes.

Cabo Anselmo morreu ontem. Confira artigo de Urariano Mota sobre os crimes do agente duplo. Clique na foto para ler. Crédito: Rede Brasil Atual.

Esta sociedade repressora é denunciada no trauma que causa a muitos, a exemplo do narrador destas memórias. Sua dificuldade em rebater as injustiças e provocações do dia a dia e de expressar os próprios sentimentos no cotidiano a seus camaradas, evidencia a proteção inconsciente ou não da mente em auto reprimir-se para não sofrer com a violência bruta externa. Assim, antes da revolução, uma reflexão profunda sobre o que somos e o que queremos ser é necessária. A obra de Mota desafia o leitor a esta viagem ao interior do que venha a ser a sociedade brasileira e o Brasil, a confrontar as suas falhas e demônios.

Não, esta obra não é um tratado econômico, político, mas uma reflexão sobre valores culturais, que trata da condição humana e sua influência social. Algo mais necessário agora, do que um manual econômico e político para uma revolução que ainda não tem um solo fértil para nascer. Afinal, se uma coisa que todas as experiências revolucionárias ensinaram, mas a esquerda brasileira ainda não entendeu é: não copie nada, aprenda com o exemplo do outro, reflita sobre a sua situação e faça a revolução adequada ao seu contexto.

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por Anders Noren

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