
Durante a primeira Reunião dos Chanceleres do G20/2024, o ministro das Relações Exteriores do Brasil e anfitrião do fórum, Mauro Vieira, colocou em evidência uma questão óbvia, mas pouco lembrada pela maioria dos veículos de comunicação e analistas do âmbito das relações internacionais: o chamado Sul Global, antes conhecido como o Terceiro Mundo, optou pela paz, pelo desarmamento nuclear e pela cooperação em questões centrais como o combate à fome e às desigualdades sociais.
“Em nossa região, um exemplo claro de abordagens divergentes no campo da paz e da segurança vem do fato de que o Norte está unido em torno de uma aliança militar, enquanto o Sul é coberto por diversas camadas e zonas de paz e cooperação, como a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), o Organismo para a Proscrição das Armas Nucleares na América Latina e no Caribe (Opanal), a África desnuclearizada sob a resolução da ONU, a própria União Africana e muitos outros exemplos. A situação absolutamente extraordinária em que todo o hemisfério sul do planeta optou por permanecer desnuclearizado é pouco destacada na narrativa dominante, os casos de cooperação pacífica da América Latina, da África, do Sudeste Asiático e da Oceania fazem com que as vozes dessas regiões devam ser ouvidas nos fóruns relevantes, com especial cuidado e atenção”, salientou em seu discurso de abertura, realizado no dia 21 de fevereiro de 2024.
Segundo o professor da Universidade Federal da Integração Latino-americana (UNILA) e curador do BRICS na Coordenadoria de Estudos da Ásia (CEÁSIA) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Fábio Borges, o Brasil é um bom candidato em ser o interlocutor entre países pobres e ricos no mundo atualmente, sendo reconhecido pela União Europeia, pelos EUA, pelos países de outras regiões; pela Rússia e BRICS em geral. “Contudo, apesar da boa interlocução do Brasil com a Rússia na questão da Ucrânia, por exemplo, no G20 ainda prevalecem os interesses da OTAN e dos EUA, o que dificulta muito o diálogo. Portanto, é limitada a possibilidade de mediação de conflitos como este por parte do Brasil. No entanto, nenhum dos atores envolvidos descartam essa possibilidade em algum outro momento”, salientou o professor em entrevista à Intertelas.
No intuito de promover uma verdadeira ação que impulsione as reformas das principais organizações que regem a governança global, além de buscar a concretização de uma aliança ampla no combate à fome, às desigualdades sociais e às mudanças climáticas, o ministro Mauro Vieira enfatizou que o G20 é um fórum internacional de crescente relevância.
“Diante do quadro que vivemos, este grupo é hoje, possivelmente, o fórum internacional mais importante, onde países com visões opostas ainda conseguem sentar à mesa e ter conversas produtivas, sem necessariamente carregar o peso de posições rígidas que têm impedido os avanços de muitos fóruns como o Conselho de Segurança das Nações Unidas. A nossa visão é que o G20 pode e deve desempenhar um papel fundamental na redução das tensões internacionais, bem como o avanço da agenda de desenvolvimento sustentável”.
A imobilidade e ineficácia do Conselho de Segurança da ONU também é uma questão que o professor Borges avalia como uma das razões para a instabilidade mundial em curso hoje. “A questão palestina, por exemplo, será lembrada como uma das maiores tragédias da humanidade. Infelizmente o Conselho de Segurança da ONU não funciona e os EUA sempre vetam a proposta de cessar fogo da maioria dos países. Mas até mesmo para os aliados de Israel, não há mais como justificar tantas mortes de inocentes, como não há nenhuma garantia que as escolhas de Israel tenham realmente funcionado na guerra contra o Hamas”.
Ainda na avaliação do docente, as escolhas do governo de Israel fazem com que o país isole-se cada vez mais, o que, do ponto de vista geopolítico, afeta e afetará muito negativamente a imagem dos EUA como uma possível liderança global. As dificuldades de solução de tais problemas pela ONU, que permitem o quadro descrito acima pelo professor Borges, também foram enfatizadas no discurso do chanceler brasileiro. Em frase que fez manchetes pelos maiores veículos de comunicação locais, ele afirmou que não interessa ao Brasil viver em um mundo fraturado.
Contudo, o também diplomata argumentou que o país não aceita que as diferenças sejam resolvidas pelo uso da força militar e ainda rejeita a busca de hegemonias antigas ou novas. Ao salientar estas questões mostrou o quadro presente de prioridades escolhidas para dispender recursos:
“Não é minimamente razoável que o mundo ultrapasse em muito a marca de dois trilhões de dólares em gastos militares a cada ano. A título de comparação, os programas de ajuda e de assistência oficial ao desenvolvimento permanecem estagnados em torno de 60 milhões por ano, menos de 3% dos gastos militares. Os desembolsos para combater as mudanças climáticas, sob o amparo do Acordo de Paris, mal conseguem alcançar os compromissos de 100 bilhões de dólares por ano. Portanto, menos de 5% dos gastos militares”, lembrou Vieira.
As questões referentes à desigualdade social e às mudanças climáticas também receberam destaque no discurso do ministro que, enfático, diz ter a sensação de que faltam ações concretas para combater estes desafios.
“Temos problemas urgentes a resolver no tocante ao desenvolvimento e à luta contra a fome, a pobreza e a desigualdade. Temos desafios gigantescos em relação às mudanças climáticas e ao meio ambiente. Temos uma responsabilidade coletiva de liderar o mundo rumo à prosperidade para todas e todos. Essas são as guerras que nós devemos travar em 2024. Em todos esses esforços, é de fundamental importância termos um sistema multilateral moderno, eficaz, eficiente, guiado por normas e princípios rigorosamente seguidos por todos os países, com as Nações Unidas como centro… À medida que o G20 avança nas discussões sobre seu papel diante das tensões internacionais em curso, encorajo todos os países a iniciarem o diálogo, reiterando seus compromissos sobre a Carta das Nações Unidas e rejeitando publicamente o uso da força, a intimidação ou sanções unilaterais, a espionagem, a manipulação em massa das mídias sociais e quaisquer outras medidas incompatíveis com o espírito e as regras do multilateralismo como meio de lidar com as relações internacionais”.
Para o professor Borges, os temas que destacam a presidência brasileira no G20 são justamente as questões ambientais, energéticas e sociais. “O Brasil é um ator reconhecido por quase todos no sistema internacional como protagonista nessas questões, por abrigar uma das regiões mais importantes do mundo (junto a outros sete vizinhos) que é a Amazônia para as mudanças climáticas. Trata-se de um país com grande potencial para energias limpas e um exemplo mundial para o combate às desigualdades e à fome. É claro que em cada uma das temáticas, o país deverá demonstrar internamente que executa de forma coerente essas metas que defende em escala global. Não é fácil! Por outro lado, denuncia o chamado protecionismo verde por parte dos europeus, que usam o tema como um instrumento de protecionismo contra os países do Sul Global”.
As dificuldades do Brasil e dos demais países do Sul Global de convencer o norte militarizado e alguns países que parecem almejar ser novos “senhores do mundo”, de que um contexto global diferente é possível, são claras. Contudo, mesmo incomodando alguns que o consideram um tanto ousado demais, o Brasil, sob o terceiro governo de Lula, decidiu seguir adiante e, em setembro, o G20, pela primeira vez, irá realizar uma segunda Reunião de Chanceleres em conjunto com a Assembleia Geral da ONU. “Será a primeira vez que o G20 se reunirá dentro da sede das Nações Unidas em sessão aberta para todos os membros da organização promoverem um chamado à ação em favor da reforma da governança global”, concluiu o chanceler em seu discurso de encerramento no dia 22 de fevereiro.
Confira alguns momentos da coletiva com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, selecionados pela Intertelas. Crédito das imagens: Mariana Scangarelli Brites/Intertelas.

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