“O Trabalhismo é um pensamento brasileiro que busca construir uma sociedade mais justa”, Vivaldo Barbosa

Vivaldo Barbosa. Crédito: Alessandra Scangarelli Brites/Intertelas.

Neste 24 de agosto de 2024 no Brasil relembramos o septuagésimo aniversário da morte de Getúlio Vargas. Uma figura política polêmica na história do país, mas que certamente promoveu transformações profundas na estrutura política, econômica e social nacional, criando as bases para o Brasil que conhecemos hoje. Das indústrias de base às leis trabalhistas, a Era Vargas e o chamado Trabalhismo estão no centro da construção histórica do Brasil contemporâneo e para entendê-lo é preciso, também, conhecer esta linha de pensamento de forma profunda.

O Partido Trabalhista do Brasil, o PTB, foi a entidade política central neste período de transformação da sociedade brasileira, do século XX em diante. Com o tempo, diferentes correntes políticas tentaram se apropriar dele, inclusive a ala de pensamento neoliberal que visou por décadas acabar com a estruturas estatais do país, fragilizando a soberania nacional.

Porém, Vivaldo Babosa, que foi deputado federal constituinte e secretário de justiça, durante o governo de Leonel Brizola, no RJ, hoje tem a missão, junto com Leonel Brizola Neto, de refundar o PTB e trazê-lo para junto das principais correntes políticas. Seus objetivos principais são repensar o Brasil através de uma perspectiva brasileira, fomentando a unidade do país e criando uma base ideológica que venha a ser novamente capaz de criar um projeto de nação. Foi pensando nisso, que a Revista Intertelas pediu uma entrevista com Vivaldo Barbosa sobre esta nova etapa de refundação do PTB. Confira abaixo.

Vivaldo Barbosa. Crédito: Alessandra Scangarelli Brites

O que pode falar sobre a luta atual para refundar o Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB?

Nós estamos vivendo um grande momento histórico, um momento que estamos relançando o PTB, um partido que fez história nesse país, ao criar a legislação trabalhista, a previdência social, as empresas Estatais estratégicas, o fortalecimento da soberania nacional, o desenvolvimentismo para o país superar o atraso. E o Trabalhismo foi a base dessas ações do PTB, o que é preciso rememorar, como lições. Ao mesmo tempo, nós sabemos que há um futuro a ser construído. Então, estamos retomando essas lições, mas, ao mesmo tempo, estudando, pensando no futuro.

A questão do direito dos trabalhadores mudou muito ao longo do tempo, com o advento do neoliberalismo etc. E atualmente o trabalhador enfrenta também o impacto que as novas tecnologias, a exemplo da inteligência artificial, tem e terão no mundo do trabalho. Como o senhor avalia este contexto atual?

 Essas realidades atuais não podem vir para nos esmagar, para justificar uma espoliação maior da nossa gente. E o Trabalhismo é exatamente a procura dessa resposta.
Assim como no passado, nós respondemos à Revolução Industrial com a legislação trabalhista daquele período, organizamos a previdência social, o Brasil passou a ter um salário-mínimo. Então, tudo isso foi uma construção daquele momento, em defesa dos interesses do povo e do trabalhador. Nós agora, precisamos repensar essas realidades atuais para defender o nosso trabalhador. Afinal, o trabalhador continua merecendo defesa e direitos, construindo uma estrutura sistêmica onde essas tecnologias sirvam para ajudar o homem a avançar e não prejudicar.

E como é que a gente impede a possível espoliação?

 É na luta permanente e constante, em um partido político que expressa essa luta e em uma concepção de política que é o Trabalhismo. Por exemplo, o Socialismo surgiu de uma realidade europeia. Já o Trabalhismo surgiu da realidade do Brasil. E é justamente pensando no contexto sociopolítico atual que nós queremos dar fundamento teórico e filosófico ao Trabalhismo, pensando a realidade brasileira, incorporando, inclusive, as compreensões dos nossos amigos africanos e dos nossos antepassados indígenas que têm a ideia de comunidade e que podem impactar na política. Nós queremos incorporar todas essas questões, porque é preciso buscar uma diretriz política para o Brasil. É preciso observar a vida do povo, em seu conjunto, como nação, como país, e o Trabalhismo pode propiciar isso. Tais questões vão além de apenas políticas econômicas.

Eu lembro das suas palavras em uma ocasião passada, onde afirmou que o Trabalhismo era o caminho para o Socialismo. O senhor continua com esta linha de pensamento?

 É uma frase realmente até bem apropriada, nas há muitos de nós que pensam que o Trabalhismo é em si. Ele é Brasil, ele é brasileiro. Ele é em si. Talvez não seja um caminho. Porque ele já é uma realização de um projeto de vida e de sociedade. Desde que ele seja bem equacionado, bem interpretado. Ele já é uma resposta para a vida humana, para a vida do Brasil de hoje. É evidente que o Socialismo é importante na formação do pensamento da humanidade. E é importante para nós, para o Trabalhismo. O Socialismo ajuda a alimentar as nossas ideias políticas. Mas eu gostaria de ver o Trabalhismo em si, sem ser um caminho para outra coisa.

E se nós tivéssemos que tentar explicar para o povo em geral o que seria esse Trabalhismo que nasceu no Brasil?

 O Trabalhismo no Brasil nasceu com duas pernas, que é a questão dos direitos dos trabalhadores, da vida do trabalhador brasileiro, na compreensão de que um país tem que cuidar do seu trabalhador como ser humano e a compreensão da nacionalidade, compreensão do povo brasileiro como nação, como país. Em poucas palavras o Trabalhismo é a busca também por uma identidade e uma sociedade justa. Por exemplo, os chineses, quando formularam o Partido Comunista, o pensaram a partir nas circunstâncias da China.
Nós queremos formular um pensamento político nas circunstâncias do Brasil. E o Trabalhismo é a melhor resposta para isso.

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Muitos setores da esquerda dizem que a criação de mais um partido trará mais divisões ao lado chamado de progressista. O que poderia dizer a respeito disso?

Se nós tivéssemos encontrado o nosso caminho em outro partido, estaríamos mergulhados lá. Como já, por exemplo, foi o caso do PDT. Nós achamos que o PDT era o caminho.
Mas depois da morte do Brizola, o PDT desviou-se muito, desvirtuou-se. Então, nós hoje estamos na busca do PTB para fazer aquilo que os outros partidos não fizeram, preencher o espaço político que existe no Brasil. Porque o Brasil está muito sem rumo político definido. Há muitas políticas sendo implementadas, mas falta de um projeto de nação. E mais, nós não somos um partido novo, nós temos uma carga histórica muito importante e queremos relembrar e refletir em cima desta carga histórica para construir o futuro do país.

E como é que é possível, na sua opinião, ser um partido que possa promover uma união, pelo menos entre a esquerda e até outros grupos partidos de outras linhas, para que esse projeto Brasil seja possível.

Falta no Brasil ter um projeto de nação que contemple a todos. Nós trabalhistas admitimos uma convivência muito boa e construtiva com o conservadorismo lúcido brasileiro. Eu sempre digo o seguinte: o conservadorismo lúcido no Brasil ajudou a forjar o Estado Brasileiro no século XIX, ajudou a proclamar a república, ajudou na abolição da escravatura com o Joaquim Nabuco, ajudou a fazer a Revolução de 30 com os tenentistas, com o Getúlio Vargas etc. Mas, lembre, não estou me referindo às correntes fisiológicas. O fisiologismo é uma coisa terrível da política brasileira. Da mesma forma a direita extremada, é um problema muito sério. Agora, com os conservadores lúcidos, nós queremos dialogar, porque achamos que eles têm muito a ajudar na construção, daqui para frente, dessa unidade das forças políticas mais lúcidas do país.

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E o que deve ser feito para retirar os empecilhos que hoje dificultam a formação de um projeto nação para o Brasil?

É preciso mobilizar o povo brasileiro para construir este caminho. Até hoje o Brasil tem no atual presidente da república (Luiz Inácio Lula da Silva), a figura de uma liderança muito forte, muito expressiva, muito importante na história do Brasil atual. Então, seria possível construir, fazer mobilização no país, em torno dele. Nós, no Trabalhismo, queremos chamar a atenção para isso. O presidente do Brasil poderia ajudar a mobilizar o país, o que não está fazendo muito não.

E a questão que sempre se coloca na esquerda entre a antiga questão da luta de classe e essas pautas que chamam de identitárias. Como combinar as diferentes lutas em um projeto de nação?

Se você se volta para a construção da nação, você une diversas categorias e classes. Pensar a nação dividida em classes ou divididas em questões identitárias, não contribui para unir, para formar a unidade nacional. Já a concepção de nação consegue superar essas questões. O Trabalhismo tem essa marca. As questões identitárias existem, temos que trabalhá-las, conviver e garantir direitos. Da mesma forma, ocorre com a questão da luta de classe, mas por cima de tudo isso está a visão da nação, a concepção de uma nação soberana.

E nas Forças Armadas de hoje, há espaço para o Trabalhismo?

 Olha, o diálogo nosso com as Forças Armadas é precário. Confesso a você que nós não temos conhecimento do pensamento deles, mas as Forças Armadas já defenderam a Petrobras. Defenderam o monopólio nacional sobre o petróleo. Na época da fundação dos sindicatos, o patronato e setores da igreja católica não queriam que eles fossem criados. Então, Getúlio Vargas mandou as Forças Armadas garantirem a feitura de sindicatos em diversos pontos do país. Eu tenho a compreensão que as Forças Armadas já tiveram um papel importante no Brasil, e podem ter um papel importante hoje e são grandes instrumentos da construção da nação brasileira, ao serem bem encaminhadas.

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E, por último, como vocês planejam o futuro do partido que está renascendo?

 O Trabalhismo é uma militância política, mas ao mesmo tempo é uma busca pela formação de um pensamento. Então, nós precisamos realizar muitos debates, muitas palestras. Nós temos a Fundação Leonel Brizola que vai ajudar a implantar, em conjunto com grupos políticos, professores, líderes comunitários etc., debates para discutir a fundo a política brasileira. O Trabalhismo é a busca por uma formação ideológica.

Um comentário em ““O Trabalhismo é um pensamento brasileiro que busca construir uma sociedade mais justa”, Vivaldo Barbosa

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  1. Excelente matéria. Embora arredio a políticalha, acho muito importante a volta do PTB, para resgatar e relutar pelas bases de Vargas, especialmente pela CLT e valorização de nossas Empresas Estatais

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