
“A impureza deve ser eliminada e a essência mantida. O falso deve ser eliminado e o verdadeiro deve ser mantido.” (“A Governança da China I” Xi Jinping, pag. 190.)
As duas frases acima afirmam verdades universais, concordes com princípios morais e éticos em diferentes Culturas, em diferentes épocas. A primeira frase encontra equivalentes em diferentes Religiões e caminhos de espiritualidade. A segunda frase expressa também o cerne do espírito científico. Cientistas podem concordar com a primeira frase, religiosos e espiritualistas podem concordar com a segunda frase. Em duas frases claras e simples a Cultura Chinesa contemporânea expressa pelo presidente da China harmoniza campos que foram inconciliáveis por séculos na Cultura Ocidental, Religião/Espiritualidade e Ciência.
Em 17 de fevereiro de 1600, Giordano Bruno foi condenado pelo Tribunal da Inquisição e queimado em público numa fogueira na praça Campo de’ Fiori pelo crime de afirmar que o universo era infinito, que o sol não era o centro do universo, que um princípio perpassava todos os fenômenos (panteísmo) e que um princípio interligava vidas (transmigração). Como muitos naquele período, Giordano Bruno foi morto por divergir da visão de mundo então hegemônica.
Em 9 de junho de 1889, na mesma praça Campo de’ Fiori em que o queimaram, foi posta a estátua de Giordano Bruno, obra do escultor Ettore Ferrari (Grão-Mestre do Grande Oriente da Itália entre 1904 e 1917), que a posicionou em ângulo exato para que os olhos do mártir contemplassem o Vaticano. O Papa Leão XIII condenou a estátua em vão na encíclica de 1890. Em 1633, três décadas e três anos depois de Giordano Bruno ser martirizado, Galileu Galilei foi levado ao Tribunal da Inquisição, acusado do crime de negar a centralidade cósmica do sol. Diz-se que, após renunciar ao heliocentrismo, ao sair do tribunal, Galileu teria murmurado: “E pur si muove“, “E ainda assim se move“. A frase é controversa. O fato cultural segue vivo.
Alunos em escolas hoje aprendem em aulas de ciência que o sol é uma estrela anã amarela. A estrela VY Canis Majoris é cerca de 1.800 a 2.100 vezes maior que o dadivoso astro que o Ocidente monárquico, em tempos idos, costumava chamar de Rei. Pequenino e belo, a cada amanhecer ele nos desperta com aurora que anuncia um dia pleno de oportunidades para sermos úteis à vida. Ao poente, quando o querido luzente anão se despede, vai para despertar nossos irmãos do outro lado do planeta azul. Ao desaparecer, acena em rubro a promessa de seu retorno quando nosso repouso se completar.
O hegemonismo passará. As crianças que fomos, já não somos. Adiante, quando formos adultos, saberemos que somos todos irmãos sob o Céu. Para concluir o introito, convido o leitor a levar em seu embornal as duas frases do presidente Xi Jinping. Durante a viagem da leitura do presente artigo elas ajudarão a compreender a identidade orgânica, mutante e criativa da Cultura Chinesa, sempre aberta a reformar o tradicional, sempre aberta a inaugurar sua contemporaneidade, e sempre fiel ao ideal da autoridade benigna, que atrai pelo exemplo.
“A impureza deve ser eliminada e a essência mantida. O falso deve ser eliminado e o verdadeiro deve ser mantido.”
Há versões de um encontro de Confúcio com Lǎozǐ. A iniciativa teria partido de Confúcio. Como tudo na biografia de Lǎozǐ, também esse possível encontro é controverso. No mundo dos Imortais, os dois amigos devem rir ao ver a celeuma que causaram por terem se encontrado de um jeito ou de outro. “Continuamos lá, na mutante história!“, repetem vez ou outra, ao escutar a algazarra de novos argumentos. Riem muito com o presente texto que os descreve a rir.
Ao longo de milênios, as versões do encontro seguem a mover acalorados debates entre os que negam ter havido o tal encontro, os que afirmam o contrário, além dos debates sobre o significado do que a narrativa descreve. Algumas fábulas, com seus símbolos, alumiam e fecundam séculos e milênios no curso da vida de uma Cultura. Alguns fatos rotulados como objetivos ardem, luzem, alardeiam, como fogo de palha que logo se apaga. Restam como dados do que foi, por um instante cada vez mais breve, quanto mais o tempo segue seu fluir. Repousam como memórias mortas, lápides de fatos idos. Memórias vivem enquanto seguem a desencadear mudanças no curso do porvir, quanto mais são rememoradas.
Memórias reafirmam que dois precede um. Memórias começam com aqueles que cuidaram de nós quando nada podíamos fazer senão chorar. Memórias de famílias nascem de memórias do povo. Memórias do povo nascem de relatos transmitidos oralmente e só depois escritos. Memórias, nas Culturas que remontam à Antiguidade e ainda seguem vivas, todas remetem a origem ao Céu. Pais ainda contam histórias aos filhos. Durante o dia, para os educar. À noite, quando vão dormir, para inspirar bons sonhos e consequente bom sono. Visitemos o relato registrado pelo grande historiador Sima Qian (司马迁, 145 a.e.c. — 90 ou 85 a.e.c.) no “Registros do Historiador” (Shiji, 史记) sobre o encontro entre Confúcio e Lǎozǐ. Confúcio perguntou sobre os Ritos (Leis) e Lǎozǐ respondeu:
“As pessoas sobre as quais você fala, até seus ossos já decaíram, só restaram palavras. Quanto a uma pessoa nobre, se puder, usa uma carruagem; se não puder, caminha a pé. Ouvi dizer que um comerciante próspero esconde sua fortuna tão bem como se nada tivesse, e uma pessoa nobre e virtuosa age como se fosse tola. Livre-se de seu orgulho e desejos supérfluos, temperamento inconstante e excessivos anseios, pois não são bons para o seu corpo. Isso é tudo o que tenho a lhe dizer.”
Lǎozǐ sugere a Confúcio o que ele deve eliminar para manter sua presença viva e contributiva — tal como o leitor também pode ler, em seu embornal, sugerido nas duas frases escritas 2.500 anos depois.
O Legado do Encontro
Confúcio, o mais jovem, ouviu atentamente. Não replicou, não resistiu, não insistiu. Agradeceu. Há versões que afirmam ter Confúcio emudecido por uma semana. Não importa se horas ou dias, refletiu o tempo que precisou. Soube tirar suas próprias conclusões das sábias palavras de Lǎozǐ. Sábias palavras alheias são inúteis para quem as repete sem tirar suas próprias conclusões. Segundo alguns estudiosos, caso o encontro tenha sucedido como fato objetivo, Confúcio deveria ter menos de 40 anos. Essa então era a idade de Confúcio quando o fato cultural sucedeu.
Foi com o exemplo, ao ser quem ele era, e ao dizer o que tinha a dizer naquele momento, que Lǎozǐ ajudou o jovem Confúcio a se tornar quem ele havia nascido para ser em cada etapa e momento de sua vida, para poder fazer e dizer o que tinha nascido para fazer e dizer em cada momento. Só há momentos. Todos ensinam e convidam a servir à Vida. Diversidade de opiniões enriquece. Divergir possibilita convergir. Saber convergir supõe saber divergir. Divergentes convergem no ponto do comum acordo. Seguem livres para discordar em outros pontos. Novos caminhos e novos caminhantes nascem no ponto de convergência. Pontos são lugares de passagem.
O Dao é uno em si e múltiplo em suas manifestações. O sol espraia seus raios e vitaliza incontáveis seres que se movem na terra, nas águas e no ar. Cada beneficiado é vivificado para ser tal como é. Quem flui no Dao reconhece quem flui no Dao de modo diferente ou aparentemente contrário. Quem flui no Dao flui tal como a sua família. Cardumes de parentes no mar, revoadas de parentes no ar, rebanhos de parentes nos campos. Aspirantes à Humanidade com família e amigos, sábios com sua família visível e invisível. Os seres movem-se em famílias.
Existem maiorias, existem também minorias. Há eremitas no ar, no mar e na terra. Dentre os Aprendizes de Humanidade, mesmo aqueles que se isolam e escolhem não conviver em sociedade, só existem graças ao par, como ensinam os trigramas de paternidade, Criativo, Qián, 乾, e maternidade, Receptivo, Kūn, 坤. Há eremitas dadivosos que vivem ocultos, mesmo quando aparecem, como Lǎozǐ. Barqueiros no largo rio do Dao, quando cruzam, acenam uns aos outros. São família, navegam no mesmo rio, ajudam uns aos outros. Há tantos portos, tantas mercadorias a serem levadas e trazidas. No rio do Dao há incontáveis rumos e modos de rumar. No rio do Dao os diferentes fluem alegres, prestativos e respeitosos.
Confúcio percebeu que para fluir no Dao, cada um precisava descobrir o modo próprio a si, aquele para o qual nasceu, o único que lhe possibilita fluir em harmonia com o Céu. O caminho do jovem Confúcio não era o das águas que descem como Lǎozǐ, Wúwéi (无为). Era o das águas que sobem como fontes, como seivas, Wéiwúwéi (为无为).
“O caminho que sobe e o caminho que desce são um e o mesmo caminho.” (Heráclito, fragmento 60.) O caminho que sobe vem da origem para a aparência. Semente germina, gera árvore tal como aquela da qual proveio, e frutifica o mesmo que a gerou. O caminho que desce retorna da aparência para a origem. Fruto maduro cai e semeia a terra que o alimentou. Em ir e vir, em vir e ir, flui a Mutação. Para poder subir, é preciso descer. Para poder descer, é preciso subir. O jovem Confúcio viu em Lǎozǐ harmonia entre ocupante e lugar que lhe correspondia. Lǎozǐ era o Sábio Recluso e seu lugar era o espaço sempre vazio na sexta posição, por onde passam linhas sem deixar rastro, nos sessenta e quatro hexagramas do Yi.
Ante o que viu, Confúcio reconheceu que o seu lugar era o quarto espaço nos hexagramas, símbolo do Ministro que serve ao Governante no quinto espaço, para juntos ajudarem o povo. Lido à luz da Mutação, a mesma verdade imorredoura é expressa com humor e respeitosa irreverência no dito popular brasileiro: “cada macaco no seu galho.” Não há galho melhor ou pior. O melhor galho é aquele que corresponde a cada macaco, em cada momento.
Lá aonde ele chega, só fica enquanto fita aonde irá na aprazível paisagem que contempla ao vagar, em saltos sem sobressaltos, em pousos precisos rumo a novos saltos. Macacos, quando param na terra, dormem aqui para acordar e saltar acolá nos sonhos simiescos. Florestas visíveis e invisíveis têm galhos para todos os bons macacos terem um lugar de onde saltar, aonde chegar, parar, seguir, no ir e vir do seu viver. Inclusive uma espécie de símio que inventou algoritmos incansáveis em seu cada vez mais veloz ir e vir. Confúcio nasceu e viveu para ser Conselheiro dos Governantes das gerações futuras. Preparou-se a vida toda, e segue a cumprir seu destino por milênios, ainda não sabemos quantos, como vimos no artigo anterior.
Ser desencadeia acontecer. O Céu dita a hora. Com seu exemplo e as palavras do Dao De Jing, Lǎozǐ também segue a inspirar pessoas em caminhos os mais diversos. Desde estudiosos de Religião e Filosofia, até estrategistas geopolíticos como Yan Xuetong (“Ancient Chinese Thought, Modern Chinese Power”, Princeton University Press, 2011) e anarquistas como Liev Tolstoi. Desde Mestres em Medicina Tradicional Chinesa, até Mestres em artes marciais, Wushu (武术). Desde eremitas a meditar em florestas, montanhas, cavernas, até moradores de megalópoles a fazer o mesmo em apartamentos. O legado de Lǎozǐ segue vivo, pois ativo. Viver é mutação, Yi.

O Mistério de Lǎozǐ
Dentre tantos mistérios que envolvem Lǎozǐ, o mais estranho aguardou desde quando foi digitado, no artigo “China e Superação do Hegemonismo III”, o parágrafo que dizia ter surgido “na vila de Quren, 曲仁里, o misterioso Lǎozǐ, 老子, (571 a.e.c.-) sobre quem a única certeza que se tem são dúvidas sobre quem ele foi, como viveu, como e quando desapareceu do espaço-tempo numa curva de estrada que chamam de morte.”
Na frase reproduzida acima, o mistério foi sugerido pela ausência de um número, e escondido pela ausência de apenas duas letras da conjunção subordinativa “se”. O desencadeamento do poder de impacto que estava oculto será determinado pelo lugar onde as duas letrinhas forem encaixadas na frase. Ofereço ao estimado leitor a hora azada para a leitura da frase citada acima que, reproduzida abaixo com a inserção do “se”, explicitará o magno mistério que Lǎozǐ nos legou:
“… surgiu na vila de Quren, 曲仁里, o misterioso Lǎozǐ, 老子, (571 a.e.c.- ) sobre quem a única certeza que se tem são dúvidas sobre quem ele foi, como viveu, se, como e quando desapareceu do espaço-tempo numa curva de estrada que chamam de morte.” O pequenino “se”, ao levantar dúvida sobre nada menos que a morte de Lǎozǐ, amplia e ressalta o enigma do espaço vazio após a data de nascimento. Não há evidência alguma da morte de um dos mais fundamentais Mestres da Cultura Chinesa, Lǎozǐ. Há só uma célebre história do seu desaparecimento que será narrada no próximo artigo.
Alquimia Chinesa e Ocidental
Ao longo dos milênios, alguns herdeiros do legado de Lǎozǐ seguiram e seguem hoje a Alquimia Chinesa, Liàndānshù (煉丹術, Arte de Gerar o Elixir da Imortalidade), caminho de duas vias complementares: a interna, Nèidān (內丹), e a externa, Wàidān (外丹). A primeira consiste nos processos de purificação e depuração interior. A segunda consiste em processos de purificação e depuração do que se costuma chamar de matéria (fórmulas, elixires etc.), para que o caminho externo ajude e complemente o caminho interno.
O leitor já recorreu ao seu embornal quando leu “purificação e depuração”. Sim, os alquimistas chineses da antiguidade concordariam com as duas frases contemporâneas: “A impureza deve ser eliminada e a essência mantida”. O caminho de Nèidān supõe perseverante esforço para se livrar de impurezas internas — o chumbo de ignorâncias, crendices, ambições egocêntricas, ilusões atávicas — para manter o ouro do conhecimento harmônico, benigno, luminoso, em sintonia com o Céu.
“O falso deve ser eliminado e o verdadeiro deve ser mantido.” Aplicada à alquimia, a frase corresponde ao rigor seletivo no caminho de experimentação em Wàidān para se chegar à verdade científica. Não esqueçamos que também no Ocidente os primeiros cientistas eram alquimistas (inclusive Giordano Bruno e Galileu). Os adeptos da alquimia Chinesa afirmaram no curso dos milênios que a aparição conhecida como Lǎozǐ não teria desaparecido como sucede à maioria.
Segundo alguns, Lǎozǐ era Aparição da Imortalidade Celestial, Tiānxiān (天仙), a forma mais sutil de aparição. Livre da identificação com os níveis mais densos que aprisionam à Terra, Tiānxiān pode se mover e atuar simultaneamente em diferentes dimensões entre o Céu e a Terra. Tiānxiān, o Imortal Celestial, pode nascer no espaço-tempo como aparência em forma densa — o chamado corpo — ou pode surgir como aparência sutil (inclusive perceptível aos sentidos) para impulsionar o caminho (Dao) do que chamam de história, rumo ao que chamam de evolução, do que chamam de espécie humana e seus indivíduos.
A Imortalidade buscada na alquimia não se refere à perpetuação do que chamam de corpo físico. Quem ainda não percebeu o despropósito de tal hipótese pode submeter-se ao processo intelectivo de depuração com a leitura de Simone de Beauvoir ao descrever o desventurado Raymond Fosca. O Caminho da Imortalidade na alquimia consiste na dissolução gradual da identificação com a aparência condensada no espaço-tempo, e o retorno, etapa por etapa, ao princípio sutil, Xiān, que habita e vivifica as aparências em todos os níveis. O Caminho da Imortalidade principia com a purificação da aparência espaço-temporal, e prossegue na contínua calcinação dos vários níveis de densidade das impurezas ilusórias, até o luzir áureo da energia em sua pureza originária.
Há muitos pontos de semelhança entre as etapas no Caminho até Tiānxiān e a superação do Samsara, também com diferentes níveis de libertação, na tradição Budista. Tradições de espiritualidade/religiões nos dois hemisférios do planeta azul descrevem processos análogos. As formas de representação variam de acordo com as Culturas, mas pode-se perceber um sentido comum que as perpassa.

Alguns alquimistas principiantes, ainda na fase inicial de libertação da identificação com a forma densa — a etapa chamada de Shījiě Xiān (屍解仙, Libertação do corpo/cadáver) — morriam, eram velados num caixão e enterrados. Quando mais tarde procediam à exumação, no caixão onde era suposto estar o esqueleto, restava apenas um objeto pessoal significativo. Às vezes só roupas. Outras vezes apenas a pele inteira, sem um só osso. O objeto mais frequente nesse tipo de ocorrência eram sandálias. Os que tinham sido caminhantes aqui indicavam que seguiam caminhando no invisível.
Conta a lenda que o siciliano Empédocles (495 a.e.c. — 430 a.e.c.) um dia subiu o Etna a dialogar com discípulos que temiam a morte. Por décadas ele os havia ensinado a não temer a morte, a reconhecer-se na energia imortal, a não se apegar à aparição densa e transitória. Ao chegarem na boca da cratera, contemplavam a massa ígnea, quando Empédocles se atirou na lava. O vulcão a esfumaçar recebeu o que caiu, e expeliu o que não derreteu. Quem lá se atirou teria jogado de volta uma de suas sandálias de bronze como testemunho. No Ocidente, os mais antigos textos alquímicos — o papiro de Leiden X e o papiro de Estocolmo — são muito posteriores a Lǎozǐ. Datam entre 250 e 300 d.C. São apenas receitas de procedimentos para obtenção de resultados materiais.
Hermes Trismegisto, figura simbólica a quem se atribui a origem da alquimia no Ocidente, era convergência sincrética entre Hermes — divindade grega da comunicação entre os mundos invisíveis e visíveis, das artes divinatórias, das interligações e comércio, condutor dos seres que partiam rumo ao Hades — e o deus egípcio Thot, responsável pelo conhecimento nos planos invisíveis e visíveis, a intermediação entre os deuses, e o julgamento dos mortos. Oito séculos depois de Lǎozǐ, surgiram no Ocidente os primeiros trabalhos teóricos sobre a alquimia como um novo campo de estudo. As obras de Zósimo de Panópolis, no final do século III e.c. e início do século IV e.c., inspiraram o desenvolvimento da alquimia no mundo persa e árabe.

Talvez algum contato ou informação sobre a alquimia Chinesa tenha ocorrido em 166 d.C., quando os embaixadores do imperador Marco Aurélio estiveram na corte Chinesa em Luoyang. Roma já comerciava indiretamente com a China através do Império Parta talvez desde 121 a.e.c. Com a queda do Império Romano do Ocidente, a alquimia seguiu caminho na cultura árabe. Ressurgiu na Europa a partir do século XII d.C., prosperou na Renascença, e submergiu após Isaac Newton (1643-1727), pai da mecânica clássica, matemático, físico, astrônomo, que estudou e praticou alquimia na busca da lapis philosophorum, a pedra filosofal, mineral que possibilitaria chegar ao elixir da imortalidade.
Em carta a Henry Oldenburg, primeiro secretário da Royal Society, em abril de 1676, Newton sugeriu que seu colega alquimista Robert Boyle (1627-1691) mantivesse “elevado silêncio” e evitasse revelar além do que já publicara, pois, se conhecimentos herméticos fossem divulgados amplamente, poderiam desencadear imensos danos ao mundo. A preocupação de Newton revelou-se profética em relação aos riscos futuros, e inútil em relação a Boyle, que seguiu a publicar escritos sobre alquimia durante 15 anos até se tornar invisível em 1691. A posteridade inglesa o reconhece como um dos pais da química moderna. A posteridade francesa reconhece Antoine-Laurent de Lavoisier (1743-1794) e não o antecessor ilhéu. Sempre as disputas, no canal da Mancha.
Trinta e três anos depois de Newton, começou a Revolução Industrial, nova fonte de riquezas para o insaciável hegemonismo colonialista. Setenta anos depois de Newton, em 1797 — sete anos depois de começar a Revolução Industrial — Goethe reiterou a advertência profética com o poema “Der Zauberlehrling” – “O Aprendiz de Feiticeiro”.

A Cultura hegemônica descartou as exigências da purificação e transformação interior que a alquimia exigia para evoluir no caminho externo. Criou sua “nova” ciência a serviço da poderosa dupla indústria & comércio. Difamou como crendice o trabalho interior, a base moral, correspondente a Nèidān na alquimia Chinesa. Apropriou-se do rigor do método científico e experimentalismo e “esqueceu” que os trouxe do Caminho Externo na alquimia, correspondente a Wàidān.
Ao início do século XX, já tendo se auto entronizado como saber hegemônico, o academicismo científico triunfante e soberbo acreditava ter completado o parricídio e o enterro da crendice alquímica. Foi então que a alquimia ressurgiu no Ocidente em 1929, com a publicação da tradução de Richard Wilhelm do texto alquímico Chinês “Segredo da Flor de Ouro”, com comentários de C. G. Jung. Os estudos de Jung e Marie-Louise von Franz sobre alquimia abriram espaço para um introito ao Caminho Interno, Nèidān, na prática psicoterapêutica.
Escritos inéditos de Newton sobre suas experiências em alquimia haviam permanecido em mãos da família. Em 1936 foram a leilão. O comprador de um dos lotes dedicou dez anos a reorganizar os escritos. Deixou os originais em testamento como expressão de gratidão à Universidade de Cambridge, Alma Mater de ambos — doador e autor dos escritos — e disse: “Newton não foi o primeiro da era da razão. Ele foi o último dos magos.” Para o juízo expresso na primeira frase, não faltava ao doador competência para construir arrazoado que sustentasse a afirmação e a defendesse frente a outras perspectivas. Quanto à segunda frase, o autor parece ter sucumbido à tentação da boutade.

Como podia saber que durante os duzentos anos depois de Newton não houve outro alquimista no vasto mundo? Como podia saber o que acontecia nas montanhas recônditas da China sem ter sequer ido à Ásia? Mais ainda, como poderia saber que Newton foi o último sem vasculhar os milênios do futuro? Conhecia ele até onde se estende o futuro? Quando o Barão John Maynard Keynes desapareceu do espaço-tempo em 1946, deixou concluído o artigo “Newton, o Homem”, no qual consta a frase citada. Irrefletida frase de efeito o aproximou involuntariamente da baronia de Münchhausen.
Entre 1994 e 2004, William R. Newman publicou quatro importantes estudos sobre alquimia. Ao final da segunda década do século XXI, em 2019, Newman publica o fruto de décadas de estudo sobre alquimia: “Newton, the Alchemist: Science, Enigma and the Quest for Nature’s Secret Fire” (2019). Diria C. G. Jung que o nome de família predestinava o autor à obra, tal como Freud (alegria e princípio de prazer), Jung (jovem e renascimento) e Adler (águia e vontade de poder). Hoje podemos saber que Newton viveu, pesquisou e realizou experiências alquímicas em seu laboratório enquanto a Alquimia se preparava para submergir. Eram vésperas da transição do colonialismo territorial para o imperialismo produtivo-comercial.

A obra de Newman sobre Newton surge quando o poder hegemônico declina. Na penúltima cidadela de seu poder extrator de bens alheios — o imperialismo produtivo-comercial — o hegemon já não lidera produção industrial, nem comércio internacional. Na derradeira cidadela a que se aferra o hegemon — o colonialismo das vontades alheias cavalgadas por algoritmos — em 15 de janeiro de 2025, Davi surpreendeu Golias. O pequeno, fácil e simples (sistema aberto como o DeepSeek) driblou o domínio do grande, difícil e pesado (sistemas fechados), alcançou desempenho competitivo e disponibilizou o que oferece para que outros usem livremente, cresçam e prosperem.
Durante o macroprocesso da fase de transição das Culturas dos povos rumo ao pós-hegemonismo, ocorrem simultaneamente transformações particulares no interior de cada uma das diferentes Culturas. No caso do conjunto de Culturas Ocidentais, o ressurgimento da alquimia começou cem anos atrás, no diálogo entre a Psicologia Analítica e a ciência alquímica interna, graças a Jung e M.L. von Franz. Nova etapa se abriu com a obra de Newman, cujo foco é a ciência alquímica no caminho externo. Para concluirmos o tema alquimia no Ocidente, ouçamos com os olhos da imaginação uma história de autoria desconhecida.
A Lenda do Coveiro
Conta a lenda que foi algum tempo depois de completados três séculos do enterro da alquimia no Ocidente que o mesmo coveiro voltou de madrugada para exumar os restos mortais. A noite era de lua. O coveiro caminhou na fria claridade, entre túmulos, como se fosse dia. Chegou ao local. Na véspera, ao entardecer, quando o cemitério já estava fechado aos visitantes, havia desmontado as pedras da lápide e preparado tudo, enquanto havia claridade.
Agora sob lua quase cheia, não demorou a retirar da cova o caixão. Ao vê-lo sobre a lápide que por três séculos o encobriu, o coveiro lembrou quando era jovem e o havia lacrado. Breve e leve brisa fresca o fez, por um instante, reflexivo. Perguntou-se quem era ele naquele tempo distante. Perguntou-se quem era ele no instante do agora. Perguntou-se quem ele ainda seria adiante. Sabia com plena certeza que não era quem tinha sido. Sabia com plena certeza que não era quem seria adiante. Só ignorava quem ele era ao contemplar o lacre intacto, e ele não.
Com delicadeza respeitosa, desfez o que havia feito. Tendo libertado ao movimento o que mantivera cerrado, abriu lentamente a tampa do caixão. Pasmo, viu o que nunca havia visto. Contemplou o vazio. Nada restava no caixão do cadáver que ele havia enterrado. O veludo azul escuro que revestia o interior parecia novo. Pequeninas estrelas bordadas em prata brilhavam à luz do alvorecer que as despertava do longo sono.

Na parte esquerda da área mais larga, na altura do coração do corpo ausente, uma elevação quadrangular evidenciava algo sob o forro. Ao planejar os procedimentos para acessar o objeto oculto, o coveiro convertido em estofador decidiu que iria proceder à retirada de toda a metade esquerda da forração. Antes de iniciar a tarefa, contemplou o horizonte a leste. Belas cores pintavam as bordas do céu onde nasce todos os dias o primeiro e único dia em que se pode viver.
Começou a trabalhar lentamente. Havia aprendido com os mortos a não ter pressa. Ainda mais numa tarefa em que o único vivo a quem atendia era ele próprio, a lidar com sua perplexidade ante o ausente inesperado, e sua curiosidade por desvendar a inesperada presença oculta. Perplexidade e curiosidade eram suas, ou ele era delas? No vazio surgem e passam imagens, tal como “A sombra das árvores sopradas pelo vento varre o chão sem levantar poeira” (“Gotas de Nada”, Murillo Nunes de Azevedo). Pensamentos muitos sobrevinham ao pobre coveiro em decorrência da ausência que mantinha presente o nada inexplicável.
O estofador seguia meticuloso o simples e repetitivo procedimento de despregar o que outrem pregara cuidadosamente. Quando enfim, num gesto rápido, ergueu a metade esquerda do veludo, viu uma caixa de laca vermelha com fecho e duas dobradiças, os três em ouro. Agora ele tinha nas mãos um mistério palpável. Observou cada uma das seis faces. Que preciosidade guardava tão bela caixa? Destrancado o fecho, no exato instante em que o coveiro abriu a caixa, o primeiro raio de sol iluminou a cena. Um pequeno livro encadernado em couro negro. No centro da capa, um recorte no couro emoldurava uma placa de ouro com dezesseis letras incrustadas em prata: Aurora Consurgens.

Sob o pequeno livro repousavam trinta e sete pequenas pinturas. Desde então, naquele futuro adiante, a contínua leitura do texto e contemplação das imagens seguiram a despertar quem abandonou seu antigo ofício de coveiro. Embevecido pela beleza do que via e do que lia, começou a descobrir que era ele quem antes estava enterrado em vida, e nem o percebia enquanto se movia no sonambulismo cotidiano. Agora começava a despertar, graças ao que aparecia em lugar do que havia desaparecido.
A Linhagem Feminina na Alquimia Chinesa
Voltemos agora às contribuições da alquimia para a Cultura Chinesa. O Patriarcalismo — que Confúcio manteve e reforçou — expressão sexista do poder dominante machista, persistiu na China até 1949, a sombrear a luz igualitária que a Cultura Chinesa recebeu em sua origem na matriz binária do Yi, como vimos no artigo I.
Dois mil e cem anos atrás, na contracorrente do patriarcalismo que então prevalecia, surgiu uma linhagem feminina na tradição alquímica Chinesa. Quem a fundou é conhecida apenas por seu nome de família, Fang (方, circa I a.e.c.). O pouco que sabemos sobre a grande Mestra consta em registros do Mestre alquimista Gě Hóng (葛洪, 283-343 d.C.). Nascida em família de eruditos alquimistas, Fang era já reconhecida por suas descobertas e práticas alquímicas quando foi convidada a estudar com uma das esposas do Imperador Wu (武帝, 156 — 29 de março de 87 a.e.c.). Segundo Gě Hóng, Fang teria descoberto método para transformar mercúrio em prata.
Por sua vez, o trabalho desenvolvido por Gě Hóng no século IV d.C. sobre Artemisia annua para tratar malária inspirou, no século XX, a química farmacêutica Tú Yōuyōu (屠呦呦) à descoberta da artemisinina, que salvou milhares de vidas. Tú Yōuyōu não tem título de pós-graduação. Nunca estudou nem pesquisou fora da China. Em 1971, inspirada na receita de Gě Hóng, junto com sua equipe, ela estudou 2.000 receitas da Medicina Tradicional Chinesa, fez 380 extratos a partir de 200 ervas.
Em 1973, ao pesquisar o grupo carbonila na molécula de artemisinina, ela acidentalmente sintetizou a di-hidroartemisinina (“The Nobel Prize | Women who changed science | Tu Youyou”, www.nobelprize.org). Após testes em animais, era preciso testar em voluntários. Tú Yōuyōu assumiu sozinha o risco. Testou primeiro em si própria e só depois aceitou voluntários. A benigna autoridade pelo exemplo sempre foi e segue sendo o ideal que o povo Chinês não esquece.
O reconhecimento fora da China tardou. Só em 5 de outubro de 2015, Tú Yōuyōu recebeu o Prêmio Nobel de Medicina. A economia da China precisou crescer como nenhuma outra economia conseguiu durante quarenta anos para que a Cultura hegemônica reconhecesse a importância da descoberta realizada por uma cientista Chinesa.
O fato do trabalho de Tú Yōuyōu ter se inspirado nas experiências realizadas um milênio e meio atrás por um alquimista Chinês é um marco importante no suave e lento Caminho da Cultura Chinesa rumo à superação do hegemonismo. Assim como foi reconhecida como cientista, Tú Yōuyōu seria reconhecida por qualquer Mestre alquimista chinês como expoente na Arte alquímica.
Tú Yōuyōu é precursora da medicina do futuro. Quando o modelo hegemônico da “Nova” Medicina criada no começo do século XX abdicar de sua pretensão absolutista, e aprender a conviver entre pares com tradições medicinais de diferentes Culturas — em especial as duas únicas medicinas multimilenares, Medicina Tradicional Chinesa e Ayurveda — todos os povos serão beneficiados. A China já está nesse futuro há décadas, como o demonstrou Tú Yōuyōu.
Aos 95 anos, Tú Yōuyōu continua envolvida em pesquisas no Centro de Estudos de Artemisinina da Academia Chinesa de Ciências Médicas Chinesas. A menção à intervenção do acaso no experimento laboratorial reforça a pertinência do ensaio de C.G. Jung sobre sincronicidade, inspirado no Yijing. Entre Fang e a cientista Tú Yōuyōu, há incontáveis Mestras da Linhagem feminina de alquimistas.

Duas foram reconhecidas no Panteão da Alquimia Chinesa: He Xiangu (何琼), a única presença feminina na celebrada Confraria de Oito Imortais, surgiu e desapareceu em data desconhecida durante a Dinastia Tang (618-907 d.C.); e Sun Buer (孫不二, 1119–1182 d.C.), a única presença feminina na celebrada Confraria de Sete Mestres da Perfeita Integração na Escola Quánzhēn (全真). Desde sua origem, a alquimia Chinesa permeou diferentes áreas da vida cotidiana, como a MTC, Artes de Movimentos como o Tàijí Quán (太極拳), Qìgōng (气功), dietética, meditação etc.
A alquimia Chinesa teve também um papel importante ao manter vivo, graças ao Caminho de Nèidān, o ideal da autoridade benigna que educa com o exemplo, ensina para a compreensão, ajuda a fortalecer e prosperar em prol de tudo e todos. Nas fases em que o povo sofria sob governos impostos por tiranos e hegemons, a autoridade benigna seguia a luzir no exemplo de alquimistas.
Modelo de autoridade não se restringe à liderança política. Permeia a Cultura e se expressa nas relações interpessoais. Cultura é um corpo vivo no qual os órgãos interagem em dinâmica contínua. As figuras geométricas do Yi foram entregues por Fuxi para serem úteis nas decisões que precedem ações. Saber, para ser útil, supõe fazer. Fazer, para ser útil, supõe renovar saber. Eis o círculo virtuoso da Criação libertadora. Utilidade move adiante. Repetir ignora o tempo que não cessa de passar. Eis o círculo vicioso da Estagnação aprisionante. Para concluir revisitemos as duas frases do presidente Xi Jinping, agora no contexto do parágrafo em que estão situadas.
“Em relação à cultura tradicional chinesa e o que é estrangeiro, o passado deve ser útil ao presente, e o que é estrangeiro deve ser útil ao chinês. A impureza deve ser eliminada e a essência mantida. O falso deve ser eliminado e o verdadeiro mantido. Assim, após seleção criteriosa por meios científicos, a cultura tradicional chinesa e a estrangeira nos serão proveitosas.”
No parágrafo, o presidente Xi Jinping refere à China, e o desafio de tornar a Cultura Tradicional útil ao povo na atualidade. Para isso é preciso uma seleção criteriosa, por meios científicos, que identifique e elimine impurezas e falsidades para que essência e verdade legadas pelo passado sejam úteis ao povo Chinês na atualidade. A cada momento da história a tradição está diante de novo contexto. A tarefa de cada geração é depurar e renovar a tradição para criar a reinterpretação/aplicação que a torne útil aqui e agora. Eis o círculo virtuoso da criação a mover adiante.
No parágrafo, o presidente Xi Jinping refere também à relação da Cultura Chinesa com outras Culturas, e o desafio de identificar o que pode ser útil ao povo Chinês. Isso requer o mesmo processo de seleção criteriosa para identificar e eliminar impurezas e falsidades para que essência e verdade existentes em Culturas estrangeiras possam ser adaptadas e assimiladas à Cultura Chinesa para serem úteis ao povo Chinês. Eis o círculo virtuoso da criação a mover adiante. Cultura Chinesa e Culturas estrangeiras existem sob o mesmo Céu. As Culturas dos povos são hoje chamadas pela História à um diálogo que gera mútuo enriquecimento, e ao mesmo tempo revigora as identidades próprias.
“A cultura chinesa é histórica e contemporânea. Pertence tanto à nação chinesa como ao mundo inteiro.” (“A Governança da China II” Xi Jinping, pag. 431.)
Gustavo A.C. Pinto
Formado em Filosofia pela PUC-RJ e tradutor do “I Ching”. É autor dos livros “Relâmpagos”, “Gotas de Orvalho”, “Rito da Montanha Sagrada” e “Astrologia e Budismo”

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