Geun Lee: “O Brasil e a Comunidade Internacional são importantes para a paz na Coreia”

Foto: Times of Israel.

O recente anúncio sobre o novo encontro dos líderes de ambas as Coreias a ser realizado em setembro deste ano, na capital Pyongyang, é mais uma oportunidade única para refletir sobre esta questão histórica que, apesar de, territorialmente, estar distante do Brasil, afeta-nos como país membro da comunidade internacional. Semana passada, o Rio de Janeiro teve sua 1ª Mostra Coreana, uma iniciativa da AsiaColors em parceria com a Hyundai e co-organização do Consulado Geral da República da Coreia em São Paulo, cujo tema principal enfocou a longa luta do povo coreano em prol de um processo de reunificação pacífico, enfatizando o lado humano, muitas vezes esquecido em meio a inúmeras análises geopolíticas.

Contudo, o evento não ignorou a importância de compreender o complexo contexto político da península coreana. Assim, trouxe o professor de Relações Internacionais da Seoul University e membro do Conselho Regional de Governança do Fórum Econômico Mundial Geun Lee para explanar ao público presente detalhes do processo histórico e seus atuais acontecimentos. A palestra, realizada no Centro Cultural Justiça Federal, contou com a presença do Cônsul-Geral da Coreia do Sul em São Paulo Hak You Kim, o desembargador federal André Fontes e o juiz federal Osair de Oliveira Jr.

O mediador e professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Maurício Cardoso salientou a importância de Brasil e Coreia terem mais diálogos diretos, sem a mediação de países terceiros. Já com relação ao país sul-americano, o professor Lee destacou que, mesmo geograficamente distantes, o Brasil tem grande importância para que o processo de paz na região seja realmente efetivado.

Professor e mediador Maurício Cardoso da UERJ (centro) e o professor Geun Lee (direita) da Seoul University. Foto: Vitor Delgado

Em sua palestra “Desnuclearização da Coreia do Norte e a Paz na Ásia do Leste”, após explicar as origens do conflito e suas consequentes crises nucleares, o acadêmico salientou que, apesar de os veículos de comunicação mundiais sempre enfatizarem o perigo que o armamento nuclear norte-coreano representa, na realidade, a balança de poder militar pende para o lado do aliado histórico sul-coreano, os Estados Unidos. Os números de ogivas nucleares que os norte-americanos têm gira em torno de 6.800; já a Coreia do Norte teria entre 15, conforme dados do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Apenas a Rússia apresenta maior poder militar que os EUA, tendo em torno de 7.000 ogivas nucleares.

Outra questão ressaltada foi que pouco se comenta dos constantes exercícios militares que a Coreia do Sul realizou ao longo dos anos, em conjunto com os Estados Unidos, e de que nada contribuíram para apaziguar os ânimos de Pyongyang. Ao salientar tal questão, Lee conclui que é preciso, antes de mais nada, dar um fim as provocações mútuas, pois além de não auxiliarem no processo de pacificação, financeiramente, custam caro à Coreia do Sul. Para tanto, um entendimento com os Estados Unidos, país com o qual a Coreia do Norte não normalizou suas relações, torna-se a chave para o sucesso dos últimos acontecimentos.

Da esquerda para a direita: o desembargador federal André Fontes, o juiz federal Osair de Oliveira Jr, o cônsul-geral da Coreia do Sul em SP Hak You Kim e organizadora da Mostra Marcelle Torres. Foto: Vitor Delgado.

Lee ainda lembrou o papel do atual presidente sul-coreano Moon Jae-in que ajudou a promover indiretamente o histórico encontro entre Donald Trump e Kim Jong-un em Singapura, em junho deste ano. Precedido por dois governos bastante conservadores e com pouca inclinação a negociar com os norte-coreanos, Moon fez da reunificação meta central de seu governo. Outro ponto digno de nota foi a observação que, apesar de ter mais simpatia do público em geral, a política adotada pelo governo Obama, que aplicou uma espécie de paciência estratégica com a Coreia do Norte, foi pouco efetiva na implementação de soluções práticas para o processo de reunificação.

No entanto, ainda que seja mais incisiva, as medidas de Trump são um tanto dúbias e podem acabar não aproveitando o momento histórico de aproximação entre ambas as Coreias. Porém, talvez o maior crédito a quem se possa dar com relação aos recentes progressos nas negociações são para Kim Jong-un e Moon Jae-in. Quanto ao primeiro, Lee argumentou que o atual líder norte-coreano, cujos estudos foram realizados na Suíça, parece ter uma perspectiva voltada, acima de tudo, para o desenvolvimento econômico e a modernização do território norte-coreano.

Kim Jong-un (esquerda) e Moon Jae (direita) Foto: Rediff.

Somado a isso, segundo o professor, Kim Jong-un tomou a decisão de desnuclearizar a península coreana, pois este seria o resultado lógico após uma possível normalização das relações com os estadounidenses. Mas os EUA parecem ainda desconfiados em acordar com a assinatura de uma Declaração de Paz, muito em razão da Coreia do Norte não querer fornecer informações estratégicas sobre onde exatamente estão localizados os sítios nucleares, próximos a fronteira com a China. Porém, dificilmente Kim Jong-um estará disposto a fornecer qualquer dado de extrema importância, sem qualquer garantia da parte americana.

E, mais, conforme o acadêmico há demonstrações por parte do líder norte-coreana na direção de avançar com as negociações. Em maio deste ano, a Coréia do Norte destruiu instalações de testes nucleares, como a do Centro de Punggye-ri, onde foram realizadas seis experiências nos últimos meses. E por este e outros motivos que Lee aponta para a importância de países estratégicos como o Brasil, neste momento específico, que mantém boas relações com ambas as Coreias, os Estados Unidos e outras partes diretamente envolvidas com a questão da paz na península coreana: “é preciso que os brasileiros e a comunidade internacional atuem em conjunto, no intuito de persuadir os Estados Unidos a acordar com a Declaração de Paz, aproveitando o momento especial e único que se apresenta”.

Foto: Vitor Delgado

O evento encerrou com a peça de teatro “Para Além da Fronteira” escrita por uma das idealizadoras da Mostra, Marcelle Torres. Esta procurou depoimentos reais para criar as bases de sua trama. O enredo contou a estória de uma família que foi separada pela guerra e tem a chance de se reencontrar, após décadas, com a nova tentativa de reaproximação das Coreias.

Com direção de Bruno Petram e produção de Gabriel Cortez, a peça, encenada após a palestra de Geun Lee, foi uma oportunidade para o público poder compreender um pouco das questões humanas que implicam neste longo processo de busca pela reunificação. A exemplo está a impossibilidade de sul e norte coreanos manterem contato.

Foto: Vitor Delgado

Ela indiretamente expõe informações para uma questão que ainda não é de todo conhecida do público brasileiro, assim como, de forma sutil, expõe um pouco da cultura e dos costumes coreanos. Porém, o seu ponto alto é passar o sofrimento, a dor e a esperança de parentes que ainda sonham um dia voltarem a conviver juntos em família. Para que todas estas atividades chegassem ao público carioca, a mostra ainda contou com o apoio do Centro Cultural Justiça Federal, Instituto Nam Ho Lee, Associação de Imprensa do Estado do Rio de Janeiro, Studio Suzzato, Deise Monteiro Produção, Nova Escola de Teatro, Meet KPop e Centro Cultural Hallyu.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Koreapost
Link direto: http://www.koreapost.com.br/featured/geun-lee-o-brasil-e-comunidade-internacional-sao-importantes-para-paz-na-peninsula-coreana/#

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