“Wasp Network – Red Avíspa”, uma análise necessária

Penélope Cruz, Wagner Moura, Edgar Ramírez, e Ana de Armas em “Wasp Network” (2019). Crédito: IMDb.

Um filme muito esperado na esquerda brasileira solidária a Cuba foi sobre a Red Avíspa ou Rede Vespa, abordando o caso dos Cinco Heróis, hoje na Netflix.  Essa questão provocou mais um momento de grande acirramento nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Era a época do Período Especial, logo após o fim da URSS, quando a ilha perdeu 85% do seu comércio e seu povo passava por difíceis privações, mas mantinha sua perspectiva revolucionária e socialista. A prisão dos cinco agentes de contra espionagem gerou uma campanha mundial pela libertação e desnudou o caráter hipócrita do imperialismo norte-americano, no que tange ao tema do terrorismo.

O livro de Fernando Morais “Os últimos soldados da Guerra Fria” detalhou de forma magistral esse fato histórico, servindo de base para o roteiro, com o autor tendo atuado como consultor da produção do filme. Não há dúvida de que o livro é um primor, como são todas as suas obras, inclusive porque o autor teve acesso aos arquivos da contra-espionagem cubana e entrevistou os personagens envolvidos em vários países. Os militantes da solidariedade a Cuba, integrantes da campanha intitulada “Pela Liberdade dos Cinco Heróis Cubanos”, e todas as pessoas defensoras da autodeterminação dos povos descobriram todos os detalhes da rede de agentes, dramas pessoais e a profundidade com que a conjuntura histórica interferiu no desenrolar do caso.

É preciso destacar que o livro foi escrito antes da libertação dos Cinco Heróis, dos quais dois foram libertos e voltaram à ilha pela redução do cumprimento da pena, graças ao esforço dos advogados e à pressão dos Comitês espalhados pelo mundo, e três trocados pelo agente norte-americano Alan Gross, em 2014, em função do acordo entre os governos cubano e estadunidense. Como qualquer um dos livros de Fernando Morais, “Os Últimos Soldados da Guerra Fria” era um roteiro pronto para fazer um filme. Foi assim que surgiu uma co-produção da Bélgica, Brasil, Espanha e França, envolvendo atores do quilate de Wagner Moura, Gael Garcia Bernal, Penélope Cruz, Ana de Armas e Édgar Ramírez.

Lançado na França, o filme teve críticas favoráveis, mas também foi acusado de ser pró-Cuba. O diretor Olivier Assayas e a produção decidiram urgentemente fazer alterações na versão para o cinema, a fim de aplacar as críticas. O lançamento pela plataforma Netflix, conhecida por produzir obras com claro viés anticomunista como Stranger Things – 3ª temporada e Chernobyl, obviamente teria consequências na edição e inclusive nas chamadas.

Crédito: The Hollywood Inquirer.

O filme foi muito bem produzido, com boas atuações, suspense, ação, drama e gerou paixões de ambos os lados do espectro político. Os gusanos da máfia de Miami revoltaram-se, querendo até agora a proibição de sua exibição nos EUA, indenizações e o acusam de ser “castrista”. Da mesma forma, parte da esquerda brasileira criticou pesadamente o filme por ser superficial, não tratar exatamente dos Cinco Heróis e da própria Rede Vespa, não dar atenção a um julgamento repleto de ilegalidades e claramente parcial e persecutório. Seria uma obra de pouca profundidade se compararmos com a complexidade e importância do caso, tendo muita crítica às ações do governo de Fidel Castro, à revolução e ao socialismo da ilha caribenha (especialmente na introdução), não seguindo o script esperado.

Interessante perceber que os cubanos, sem deixar de apontar os problemas do filme, elogiaram o fato de ser fiel aos fatos históricos narrados. O diretor Olivier Assayas permitiu que o público percebesse o direito do governo cubano em infiltrar agentes nas organizações contra revolucionárias de Miami, defensoras da violência terrorista em hotéis, praias e restaurantes, operando livremente sem serem incomodadas pelo governo estadunidense, justamente para tentar prender seus responsáveis que incursionavam pela ilha, evitando tais atos a tempo. As ações dos agentes eram fundamentais para a segurança de Cuba, do seu povo e dos turistas que ajudavam a fazer o país superar a grave crise.

Os cubanos criticaram, acertadamente, que, ao se tentar abranger o caso em sua totalidade, explicando várias questões sob a premissa de que o público internacional desconheceria os fatos, o diretor acabou causando uma dispersão no conteúdo apresentado, deixando muitas lacunas e interrogações aos espectadores. Há uma vasta variedade de personagens entrando e saindo, com idas e vindas temporais, deixando alguns flancos no roteiro, como, por exemplo, no que tange a quem era efetivamente Luis Posada Carriles, o Osama Bin Laden das Américas. Uma pessoa não versada no tema, embora perceba as falácias no discurso de “defesa da liberdade” das organizações de Miami e suas alianças com a bandidagem e o tráfico internacional, certamente se perde um pouco diante de situações tão complexas que mereciam informações mais claras.

Também foi questionado o fato dos cubanos serem inicialmente abordados como desertores fugitivos para Miami, depois se revelando como agentes infiltrados. Nesse ponto, destacamos que o roteiro é absolutamente fiel ao livro, pois nas suas primeiras sessenta páginas também não é revelado o verdadeiro papel, por exemplo, de Juan Pablo Roque e René González, algo que vai se tornando claro no decorrer da história. Para os cubanos isso pode ser um defeito, talvez por conhecerem todo o processo, mas para criar curiosidade, permitindo que os expectadores façam e desfaçam as interrogações, refletindo sobre os acontecimentos, foi um recurso capaz de aumentar a expectativa e curiosidade do público, sendo um acerto do diretor.

O “Wasp Network – Red Avíspa” optou por centrar as atenções em três agentes cubanos (René González, Juan Pablo Roque e Gerardo Hernández) por suas respectivas relações pessoais. Isso mostra relação com a obra de Morais, que prioriza também essa forma pelos seus papéis na rede de contra-espionagem e por terem vivido histórias mais conturbadas, emotivas e amorosas, o que não deixa de ser também uma boa estratégia de marketing para o filme. Nesse ponto, cabe uma observação: de fato, para contar bem a história dos Cinco Heróis, o ideal seria uma minissérie que permitiria desenvolver cada personagem, abordar o julgamento, a traição dos que colaboraram com as autoridades estadunidenses em troca de diminuição da pena ou não encarceramento, a prisão, a campanha internacional de solidariedade e, por fim, a libertação dos cinco.

Esse último tema sim, uma lacuna que poderia ser ocupada sem demandar tanto tempo, se na parte final fossem colocadas as diversas manifestações pela liberdade dos heróis cubanos em todos os continentes. Talvez tudo isso, digno de uma minissérie ou um filme com maior duração, ainda seja feito, pois a opção por filme único e curto, necessariamente, acarreta em resumo e escolhas pelo que se considera prioridade do ponto de vista cinematográfico.

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Sobre a visão dos cubanos de Miami, certamente os enlouqueceu a reconstituição dos atentados contra os pontos turísticos, elencar os chefes da máfia de Miami e sua vinculação com o terrorismo e o tráfico, os detalhes do papel dos Hermanos al Rescate, que culminou nos dois aviões abatidos, tudo entremeado com imagens da época, inclusive com falas de Fidel. O diretor também foi criticado por ter colocado um trecho de uma entrevista do líder cubano, na qual este denuncia o terrorismo de Miami, “politizando” o filme. A resposta foi contundente: “Quando, por fim, me deparei com o material de arquivos, isso me surpreendeu, porque Castro basicamente resumiu o que acontece no filme. Pensei que era algo muito potente para incorporar nesse momento: o personagem histórico que oferece uma sensação de realidade e verdade à história que estávamos contando”.

O Wasp Network – Red Avíspa, assim como os dois filmes sobre “Che” (2009), de Steven Soderbergh, causou polêmicas, não conseguiu esgotar totalmente a história que pretendeu descrever, usou de licença poética e recursos dramáticos para ser mais atrativo para o público. Entretanto, vamos lembrar que um filme não necessariamente é uma objetivação da nossa leitura da história ou percepções políticas próprias. Todos os produtores e diretores têm, claro, suas posições ideológicas, mas há filmes onde são claras e explícitas, em outros, nem tanto. Ambas as perspectivas podem gerar bons filmes, mas interessantes são aqueles que levantam as contradições, os embates, de forma clara, para que o expectador construa sua opinião.

É o caso, portanto, desse bom filme sobre uma das várias páginas gloriosas da revolução cubana, que, assim como os outros citados, serve, deve ser visto e, principalmente, divulgado, porque mesmo com seus problemas é um importante instrumento na batalha histórica de ideias que se trava no cotidiano contra o imperialismo e a direita. E essa não é uma tarefa necessariamente do diretor e sim de todos nós que defendemos a revolução cubana e seu socialismo todos os dias, debatendo sempre ao final da exibição desse filme com todos que tiverem o privilégio de assisti-lo.

Luis Eduardo Mergulhão Ruas
Doutor em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Membro do Conselho Diretor da Associação Cultural José Martí – Rio de Janeiro

Ricardo Quiroga
Graduado em Engenharia Química (UFRJ) e em Direito (UERJ). Servidor Público Federal do Judiciário Trabalhista (Tribunal Regional da 1º Região). Pesquisador da Segunda Guerra Mundial, com ênfase na participação soviética. Pesquisador da realidade de Cuba. Membro da Associação Cutural José Martí  

Fontes consultadas:

http://www.granma.cu/cultura/2020-06-26/nuevos-delirios-contra-la-red-avispa-26-06-2020-01-06-48

http://www.granma.cu/cronicas-de-un-espectador/2019-12-08/la-red-avispa-08-12-2019-22-12-47

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