“O cinema brasileiro tem muito a ensinar”, Marianna Osipova – idealizadora do Cineclube de filmes brasileiros em Moscou

Crédito: Pinterest Obvious Magazine.

Promover o encontro de duas culturas tão distantes não é uma tarefa fácil, ainda mais com países como Brasil e Rússia que cinematograficamente apresentam um histórico diferente e cuja política e cenário internacional ainda impossibilitam que ambos os países possam perceber um ao outro como um parceiro mais próximo e estratégico no setor da cultura. A presença dominante da cultura europeia ocidental e da estadunidense no Brasil, também é outro obstáculo para o encontro do público brasileiro com outras cinematografias para além destas regiões. Tal situação na Rússia tem bastante impacto também.

Contudo, há quem seja persistente no objetivo de aproximar os dois países através do cinema. O Cineclube de cinema brasileiro, vinculado ao Centro cultural brasileiro em Moscou, fundado e coordenado pela gestora cultural e curadora, especialista em Brasil, Marianna Osipova promove um trabalho em Moscou, responsável por colocar o público russo diretamente em contato com o cinema produzido no Brasil. Em entrevista exclusiva para Revista Intertelas, ela conta um pouco de trajetória deste projeto e analisa a importância do cinema para a construção de relações pacíficas entre os países e como ferramenta de transformação social. Confira abaixo!

A gestora cultural e curadora, especialista em Brasil, e fundadora do Cineclube de cinema brasileiro em Moscou, Marianna Osipova. Crédito: arquivo pessoal.

Como surgiu o projeto do Cineclube?

O Cineclube surgiu quando percebi que em Moscou tinha bastante gente interessada em assistir a filmes brasileiros regularmente, por exemplo, uma vez por mês. Comecei a exibir documentários brasileiros durante palestras que dava sobre vários aspectos da cultura brasileira no Centro cultural brasileiro em Moscou, foi em 2015. Em 2016, achei na internet um ótimo documentário do diretor carioca Emílio Domingos, “A Batalha do Passinho”, sobre a cultura jovem funk carioca nas comunidades do Rio de Janeiro. Entrei em contato com a equipe e autorizaram a exibição não comercial. Depois consegui contato de um cinema aqui em Moscou, eles estavam interessados em diversificar a programação e assim começamos. Foi um projeto piloto e inédito – cineclube brasileiro nas instalações de um cinema moscovita apareceu pela primeira vez aqui na capital russa.

Do início até a atualidade, quais foram as principais conquistas do Cineclube?

Bom, eu acho que a pura existência desse projeto já é uma conquista, porque é trata-se de uma iniciativa 100% não comercial, sem nenhum financiamento. Nos últimos dois anos, quase sempre temos a sala cheia de gente que gosta do Brasil, do cinema brasileiro ou do cinema em geral. Conseguimos exibir obras tão importantes e reconhecidas internacionalmente como o “Menino e o Mundo”, de Alê Abreu, “Piripkura”, de Mariana Oliva, “Estamira”, de Marcos Prado, “Menino 21”, de Belisário Franca, animações de Marcos Magalhães, e muitos outros; fizemos mostra especial do Festival de Cinema de Futebol (CineFoot), durante a Copa do Mundo, fizemos mostras de vários filmes brasileiros em 8 cidades russas que, acredito, ninguém, até hoje, conseguiu fazer. O mais importante para mim são também as relações de confiança e amizade entre os diretores e produtores brasileiros, a sede Moskino onde exibimos, e o Centro cultural.

Em notícia divulgada anteriormente na Intertelas, você informou que o Cineclube é uma plataforma para o público refletir sobre o cinema e a sociedade brasileira. Como isso ocorre na prática e qual a análise que você faz do tipo de debate que o público russo realiza sobre os filmes e o Brasil através do cinema?

Procuramos sempre realizar nas mostras um debate ou bate-papo. Às vezes convido brasileiros residentes em Moscou para falarem sobre algum assunto especial; às vezes, organizamos discussão com diretores via Skype (o que é mais difícil tecnicamente e nem sempre dá para fazer). Na maioria dos casos, quem administra os debates sou eu. Procuro exibir filmes não clichês e por isso gosto muito de documentários. E, claro, quando a pessoa vê algo muito diferente do que costumava ver, isso gera uma reação.

Algumas pessoas não gostam de ver problemas nos filmes – aconteceu uma vez na mostra do filme “Amazônia Eterna” de Belisário Franca quando um homem disse: “Por que nos mostra problemas da Amazônia?  Isso é triste, não quero ver tristeza, quero ver mais animais“. No caso de outros filmes, vejo gente que vai embora cheia de alegria e inspiração como aconteceu, por exemplo, depois das exibições dos filmes sobre Dominguinhos e clubes de samba no carnaval. O pessoal sempre agradece pelos filmes e gosta de expressar os seus sentimentos.

Algumas novelas brasileiras fizeram muito sucesso no passado. Já o cinema brasileiro, parece não ter o mesmo alcance ainda. Como você analisa a relação do público russo com o cinema produzido no Brasil?

Claro que ainda tem gente que conhece só a Escrava Isaura e outras telenovelas. Entre o público mais jovem, os mais populares são filmes do tipo “Cidade de Deus”. Este ano, por exemplo, filmes brasileiros arrasaram aqui na Rússia dentro dos festivais de cinema mais importantes na Rússia – o Festival Internacional de Cinema Documentário (Doker) e Festival Internacional de Cinema de Moscou. Acho que os festivais têm o papel muito importante em promover cinema de qualquer país inclusive do Brasil aqui na Rússia. O público russo nem sempre está preparado para ver cinema brasileiro, isso não é para todos e isso é normal.

Os cinemas produzidos na Rússia e no Brasil têm um histórico diferente e uma situação atual também bastante distinta. Seria possível encontrar semelhanças entre estas duas industriais? Em outras palavras, onde o cinema do Brasil e da Rússia encontram-se na sua opinião?

Não vejo muita semelhança, para dizer a verdade. São realmente muito diferentes as suas trajetórias. A Rússia tem muito orgulho do seu legado soviético, seja na área de cinema, de cultura em geral, educação e assim por diante. Na minha opinião, este foco impede o desenvolvimento da indústria cinematográfica e do país em geral. Não dá para desenvolver-se sempre olhando para trás, é impossível. É importante lembrar do legado e do papel dele, não estou falando sobre desistência total, mas tem coisas que precisam de mudança estrutural. O Brasil, neste sentido, tem foco no presente e no futuro. Posso estar equivocada, seria interessante saber a opinião dos colegas brasileiros também.

O cinema é uma ferramenta eficaz que os países utilizam para projetarem sua cultura e poder de influência. Acho que o cinema brasileiro já é capaz de ser uma forma de Soft Power, como afirmam, para o Brasil?

Na América Latina acho que sim, sem dúvida. Na Europa acho que também é. Na Rússia ainda não tem tanta força. No fim das contas, tudo depende da vontade política daqueles que têm bastante recurso e força para promovê-lo. É bom lembrar que alguns países são mais importantes politicamente e economicamente (para o Brasil e para a Rússia) do que outros. Por isso, em alguns criam-se centros culturais oficias e, em outros, não. Na Rússia ainda não temos nenhum posto aplicador do Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, o Celpe-Bras, por exemplo. Não podemos realizar esse exame de proficiência em língua portuguesa. Mas tem boas coisas também – temos o festival de cinema brasileiro organizado pela embaixada e produtora brasileira que já teve 11 edições!

Como você acha que as relações entre Rússia e Brasil, na área do cinema, podem ser fomentadas?

A través da participação de filmes russos e brasileiros em festivais em ambos países, da criação de cineclubes. Bom, em Moscou e na Rússia já tem um. Se não me engano, tinha cineclube russo em algum lugar em São Paulo e, talvez, no Rio. No Brasil, a instituição Ars et Vita organiza sessões de filmes e animações soviéticos e russos. Adoro o trabalho que eles fazem lá no Brasil para divulgar a cultura russa e para promover valores culturais em geral.

E, claro, através do intercâmbio entre cineastas brasileiros e russos. Por exemplo, sei que os criadores do Anima Mundi quiseram convidar a Iuri Norshtein para vir ao Brasil, mas ele nunca respondeu aos e-mails deles. E para os criadores do Anima Mundi seria também uma honra conhecer pessoalmente o nosso festival de animação Krok. Até o momento não foi possível trazer diretores brasileiros aqui na Rússia porque sai muito caro e não tem nenhum patrocínio. Mas na área de cinema, o Brasil tem muita coisa para ensinar.

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Para alguns estudiosos do cinema, de todos os gêneros a animação e o documentário ocupam um espaço de excelência no cinema produzido no Brasil. Em outras palavras, seriam melhores que outros. Você concorda com esta afirmação?

Posso concordar, sim. Talvez seja porque em geral não curto muito cinema comercial e de ficção. Gostei bastante do filme “Medida Provisória”, mais por razão da trilha sonora e da imagem visual.

O cinema é capaz de promover uma aproximação dos povos, mas também pode formar ideias erradas sobre a cultura e a história dos países. Hollywood é um exemplo disso. Você acredita que Rússia e Brasil sofrem com a imagem que outras cinematografias com maior alcance fazem deles?

Sim, concordo. Até acho que a Rússia sofre ainda mais, mas por culpa dela, às vezes. Sobre o Brasil, não sei dizer muita coisa, acho que não vejo muitos personagens brasileiros nos filmes do Hollywood. Não assisto muito aos produtos cinematográficos do Hollywood.

Seria possível, através do cinema, promover uma cultura de maior entendimento dos povos e menos discriminação? Como você analisa o cinema brasileiro sob esta perspectiva?

Claro que sim, o cinema sempre tinha esse papel – promover maior entendimento entre os povos. Por exemplo, os russos podem ver no cinema ou no cineclube que nem todos os brasileiros moram em condomínios fechados cercados, como mostram as telenovelas (até tinha uma amiga que tinha essa imagem do “típico brasileiro”) e que além do eixo Rio-São Paulo existe um vasto território onde tem gente que vive de agricultura e sofre com a seca  – também tem gente russa que vive nas mesmas condições e não tem acesso à água potável, por exemplo. Ou, por exemplo, vê costumes nordestinos, escuta forro e sanfona e pensa: “Poxa, aqui na minha aldeia temos danças muito parecidas e até tocamos quase as mesmas melodias!” Todo isso gera um maior entendimento e promove paz entre os nossos povos.

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