“Personagens do Terceiro Reich”, de Rodrigo Trespach – um olhar sobre a vida privada dos principais nomes do nazismo

Crédito: domínio público/site Rodrigo Trespach.

A área acadêmica é um campo ainda destinado a poucos. Aqui não se está afirmando apenas dos que têm a oportunidade de frequentá-la, mas também do número seleto de pessoas no Brasil capazes de compreender totalmente os debates e reflexões que o mundo acadêmico propõe. Trata-se de uma situação grave, já que a grande maioria das instituições públicas e privadas brasileiras vivem da renda do povo, o mínimo a ser feito pelos pesquisadores, professores e intelectuais em geral, empregados destas instituições é fazer com que o conhecimento seja também mais acessível ao grande público.

Porém, muitos ainda se recusam a ter este árduo trabalho de deixar o academicismo um pouco de lado, em uma mistura de elitismo e prepotência intelectual. Talvez seja esta uma das razões que levem muitas pessoas a escolher ignorar a ciência e acreditarem em notícias falsas e inverdades históricas. Atualmente, há um prato cheio no Brasil para afirmações absurdas do tipo: o nazismo era de esquerda. Ou que o socialismo e nazismo são a mesma coisa. Da mesma forma, nem mesmo as críticas possíveis de serem feitas a Iosif Vissarionovitch Stalin, líder da União Soviética (1922-1953), permitem que ele seja comparado a Adolf Hitler. A confusão conceitual e ignorância histórica chegou a um patamar preocupante e o resultado disso é a volta de forças conservadoras, em especial de extrema-direita, neonazismo que hoje desponta no Brasil e no mundo.

O nacional-socialismo confunde a mente de muitos que acabaram não tendo talvez a chance de obter conhecimento básico em seus tempos de estudo. E, para os que não são ingênuos, esta obscuridade do saber das massas faz-se importante politicamente, em especial, para os nazistas. Apesar de muitos terem sido derrotados na Segunda Guerra Mundial, alguns acabaram por escapar e viveram para continuar a propagar suas ideias da raça superior.

“Personagens do Terceiro Reich” escrito pelo historiador e pesquisador Rodrigo Trespach, lançado pela Editora 106, não visa abordar de forma teórica, nem histórica as questões levantadas acima. Porém, o livro acaba por auxiliar na desconstrução de inverdades históricas e conceituais por um viés mais simples: o de contar resumidamente, mas não de forma menos densa, a vida privada dos principais nomes do nazismo e seu impacto para o contexto político-social da época.

Nesta publicação, o leitor tem a chance de saber das contradições que existiam na vida de muitos nazistas. A corrupção, a extravagância, as perversões de todos os tipos, e, principalmente, a falta de lógica, porque alguns destes principais nomes do nazismo eram judeus. Da mesma forma fica clara a perseguição aos comunistas e socialistas, do total sentimento de aversão que os nazistas sentiam pelas ideias socialistas e comunistas e por aqueles que a seguiam.

Clique na foto para acessar o site da Editora 106. Crédito: Editora 106.

Trespach também traz uma questão bastante abordada por círculos acadêmicos que estudam profundamente a Segunda Guerra Mundial, contudo pouco conhecida por uma audiência mais ampla: a participação de não nazistas no apoio ao regime e à guerra. Entre os simpatizantes que financiaram Hitler, ou colaboraram de alguma forma, estão o empresário alemão Hugo Ferdinand Boss que criou os uniformes nazistas e hoje ainda é celebrado como uma grande marca do mundo da moda, ganhando milhões, bem como o pai da Nasa Wernher Von Braun, que foi trazido pelos estadunidenses aos EUA, depois de capturado e tantos outras figuras influentes na época que contribuíram para a expansão do nazismo, algumas até judias.

O autor cita ainda o nome de mulheres como Leni Riefenstahl, a cineasta que revolucionou a técnica de filmagem e edição cinematográfica, sendo copiada por muitos posteriormente, e que foi a mestre por traz de filmes como “O Triunfo da Vontade” (1935) e “Olympia” (1938). Obras do cinema que ajudaram a promover uma ideia falsa de um Hitler mítico e indestrutível. Na realidade, Hitler era fisicamente e mentalmente frágil, e, ao longo da guerra, seu vício em remédios foi acentuado.

O envolvimento da Igreja Católica no suporte ao nazismo, o trabalho escravo implementado nos campos de concentração do leste europeu que também fez a máquina nazista a continuar funcionando. Trespach ainda lembrou dos nazistas que vieram ao Brasil, assim como dos alemães que desafiaram os nazistas em casa e acabaram mortos. A partir da linha historiográfica que valoriza o registro da vida privada de personalidade e figuras históricas, “Personagens do Terceiro Reich” esclarece que a ideologia nazista foi o resultado de um processo histórico e social europeu que vinha sendo construído desde o fim do século XIX ao início do século XX, tendo o Nazismo e a Segunda Guerra Mundial sido apenas o seu estopim.

Também percebe-se que, diferentemente do discurso adotado, muitos dos aliados como Estados Unidos, França e Inglaterra não apenas colaboraram em alguns momento com os nazistas, como também não combateram a promoção destas ideias nos anos posteriores à Segunda Guerra. Todas estas contribuições demonstram ao leitor iniciante nos estudos deste período histórico uma outra face dos que iniciaram o conflito que matou mais de 50 milhões de pessoas e mostram ao meio acadêmico que uma outra abordagem do assunto é possível.

Contudo, apesar de todas estas características positivas, é importante fazer uma observação sobre “Personagens do Terceiro Reich”. A publicação ainda perpetua uma questão controversa da academia brasileira: conter um número significativo de obras, ou documentação proveniente de pesquisadores, ou escritores, ou centros de estudos ocidentais. Esta não é uma característica apenas desta pesquisa, a grande maioria dos acadêmicos no Brasil apresentam uma visão particularmente muito alinhada à forma francesa, alemã, inglesa, ou estadunidense de abordar os acontecimentos históricos. Seria importante saber e ter acesso ao registro e à análise de historiadores de outras partes do mundo, correntes ideológicas e culturas.

Afinal, como é sabido e o autor mais uma vez salienta em sua obra, os próprios campos de concentração, grande parte, foram construídos na Europa do leste e suas vítimas, em grande número, eram provenientes destas nações. Para além de judeus, foram vítimas dos nazistas eslavos, considerados pelos alemães também como “raça” de segunda categoria, ciganos, homossexuais e, acima de tudo, comunistas e socialistas. O que teriam os países do leste europeu a dizer a este respeito? Seria interessante constar.

O historiador e autor de “Personagens do Terceiro Reich”. Crédito: https://www.portalsplishsplash.com/

Para citar outro exemplo, muitos historiadores, ou centros de pesquisa e documentação russos e do leste europeu, ou mesmo da Ásia, ou até de outras regiões contestam a afirmação muito enfatizada no ocidente, e que Trespach em rápidas passagens de seu livro parece dar a entender que concorda, de que o inverso rigoroso foi o fator decisivo para a derrota nazista no front do leste. Para muitos autores não europeus, ou não ocidentais, são outros os elementos que explicam a vitória da URSS na Grande Guerra Patriótica (como a Rússia denomina a sua participação na guerra), comemorada em todo o 9 de maio pelos russos e pelos cidadãos de outras nações que compõe a Europa do leste, dia da capitulação nazista aos soviéticos.

Por sinal, é importante lembrar que 80% das forças de Hitler foram direcionadas ao combate contra as forças da União Soviética, resultando, conforme fontes governamentais e de pesquisadores da Rússia e de outros países, em, no mínimo, 20 milhões vidas perdidas do lado da URSS (entre civis e militares). Um verdadeiro derramamento de sangue que praticamente não consta na bibliografia brasileira. Ou melhor, não constava. Atualmente, alguns historiadores e pesquisadores de outras áreas no Brasil vêm, paulatinamente, preenchendo esta lacuna.

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Registrada a observação, ainda que tenham pontos pincelados pelo autor passiveis de discussões, o objetivo central do livro de Trespach, que, novamente, é trazer ao grande público um resumo da vida das principais figuras nazistas, daqueles que simpatizaram, ou daqueles poucos alemães que lutaram contra eles, é uma boa contribuição e que atende a uma demanda urgente da realidade atual: desconstruir afirmações não verídicas, que se dizem baseadas em fatos históricos. Afirmações falsas que visam propagar o ideal nazista, como as que enfatizam terem sido eles incorruptíveis, dotados de grande moral, ou perfeição humana. O nazismo que, apesar de seu legado nefasto, parece ter saído das sombras para ganhar força a cada dia neste início do século XXI, alimentando-se da falta de conhecimento daqueles que não viveram a guerra, ou foram desprovidos de uma educação melhor, ou permaneceram à margem do debate intelectual e científico.

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